Pv
16.18; Tg 4.6-10; Fp 2.3-8
É parte da rotina de um homem chegar em casa depois de um
dia difícil no trabalho. Cansaço, irritação e preocupação pesam sobre os ombros
e alguém percebe e pergunta: “aconteceu alguma coisa? Está tudo bem?” recebendo
em resposta um lacônico: “não, está tudo bem” e vai se ocupar de alguma coisa
que geralmente não é essencial, fechando-se em si mesmo. Diante de um erro
simples a reação é exagerada e não admite contestação pensando: “eu sou o homem
da casa, sei o que estou fazendo e precisam me respeitar” - talvez com outras palavras,
mas com este sentido interior.
O problema pode não ser apenas cansaço. É mais profundo, tem
a ver com formação doméstica, caráter, dificuldade de reconhecer a
possibilidade de errar, a necessidade de ouvir e o dever de pedir perdão e
mudar.
O problema é um coração onde o orgulho encontrou lugar e
estabeleceu morada. O orgulho é uma disposição do coração que coloca o “eu”
acima do lugar que Deus determinou. É a disposição de governar a própria vida,
defender sua importância e resistir à dependência de Deus. O orgulho é mais que
um problema de personalidade - é espiritual: ele começa no coração, se
manifesta em palavras e atitudes e atinge casamento, filhos, igreja e relação
com Deus.
No Antigo Testamento o orgulho descreve quem se coloca em
posição superior, mais alto (Hbog)
e é manifestado de forma arrogante, presunçosa e insolente (}wdz).
Já o Novo Testamento o chama de soberba (huperhfania),
alguém que se julga acima dos outros manifestando um mal que procede do coração
humano (Mc 7.21-23). A estes soberbos (huperhefanoj) Deus
rejeita manifestar sua graça (Tg 4.6), mostrando que o problema do
orgulhoso não é só dele, não é simplesmente que ele possui uma opinião elevada
sobre si mesmo - é a opinião que Deus tem sobre ele e porque Deus se
coloca contra ele (antitassetai).
A primeira manifestação do orgulho aparece na queda (Gn
3.5) quando satanás apresenta à mulher a possibilidade de ser mais elevada,
ser como Deus.
A tentação, representada no fruto, era a possibilidade de
ultrapassar os limites estabelecido pelo Criador.
Eva deixou de confiar em Deus e desejou, ela própria,
determinar para si mesma o que é certo e errado.
E a partir do orgulho o pecado passou a atravessar toda a
história bíblica.
A semente não cai longe da árvore, e Caim, o filho predileto
(Gn 4.1) também não aceita a orientação corretiva de Deus (Gn 4.5-8).
Em Babel a humanidade tenta elevar seu próprio nome (Gn
11.1-9). Faraó se exalta e rejeita ouvir a voz de Deus (Gn 11.1-9) e
Nabucodonosor se orgulha da obra de suas mãos (Dn 4.30).
Em todos estes casos aparece a mesma raiz: o homem querendo
ocupar um lugar mais elevado do que o que Deus lhe reservou e todos recebem a
oposição de Deus.
Esta disposição aparece de
inúmeras maneiras: dificuldade de admitir erros; incapacidade de pedir perdão; necessidade
de estar sempre certo; resistência à correção; desejo de controle; comparação
com os outros; anseio por reconhecimento social; autoritarismo em casa; espiritualidade
voltada para aparência e uma desesperadora dificuldade de depender de Deus.
O
orgulho precisa ser combatido porque é capaz de destruir relacionamentos
importantes, criando distância entre cônjuges, afastando pais e filhos,
produzindo conflitos entre irmãos na Igreja, prejudicando o serviço cristão.
O
pior dos efeitos, entretanto, é colocar o homem em oposição a Deus, ou, mais
precisamente, Deus se coloca contra o orgulhoso.
Literalmente, Ele não se agarrou (arpagmon),
não se prendeu, não usou o fato de ser como Deus para considerar (hghsato)
a possibilidade de negar-se a humilhar-se e ser o nosso redentor.
Aqui encontramos um contraste fundamental: Eva queria ser
como Deus. Jesus se tornou um de nós. O orgulho exige ser servido, ser
atendido, mas Jesus veio como servo.
O orgulho quer ser o centro, o ponto mais alto, Cristo se
humilha e desce às regiões inferiores da terra. O orgulho exige direitos,
Cristo entrega-se a si mesmo até a morte. Isto quer dizer que o orgulho é, em
suma, a negação do caráter de Cristo.
Um crente orgulhoso é uma contradição porque nele não está
sendo formado o caráter de Cristo.
A cruz é o remédio que Deus providenciou contra a visão
exagerada que alguém pode ter de si mesmo. A cruz é a antítese do fruto da
árvore do conhecimento do bem e do mal. Olhar para Cristo ajuda a perceber:
a.
que somos pecadores
incapazes de qualquer bem por nós mesmos;
b.
que somos incapazes de nos
salvar;
c.
que somos tão amados por
Deus que Cristo entregou sua vida por nós.
O orgulhoso frequentemente encontra uma explicação (responsabilizando
o outro) para suas atitudes, mas tem enorme dificuldade de admitir que errou,
que pecou, e de decidir abandonar o caminho do erro (Pv 28.13).
Na Igreja produz divisões e ressentimentos. No trabalho
destrói relacionamentos e carreiras. É fundamental considerar que nem toda
discordância pode ou precisa ser vencida. Saber ouvir e compreender, mesmo sem
concordar, é ser sábio (Pv 24.6).
É preciso deixar claro que até mesmo a vida religiosa pode
ser contaminada pelo orgulho.
É possível alguém considerar que está “servindo a Deus” e
secretamente (ou inconscientemente) desejar que as pessoas percebam e exaltem
este serviço porque prega melhor, canta melhor, organiza melhor, etc. Esta
pseudoespiritualidade é duramente condenada por Jesus que chama esta exibição
de hipocrisia (Mt 6.1).
Enquanto o orgulhoso diz saber o que é melhor a bíblia diz
para confiar no Senhor e não se estribar no próprio entendimento (Pv 3.5).
O orgulhoso diz que consegue resolver enquanto Jesus diz que sem ele nada
podemos fazer (Jo 15.5).
O orgulhoso diz que merece enquanto o evangelho anuncia que
a salvação é pela graça (Ef 2.8). Deus é a fonte de toda boa dádiva, de
todo dom (Tg 1.17), e isto humilha o orgulho humano porque ninguém pode
se apresentar diante de Deus dizendo que conseguiu alguma coisa (Dt 8.17-18)
numa disposição de coração que conduz à idolatria. Todos os atos que resultam,
por exemplo, na salvação do pecador é fruto da ação de Deus (Jn 2.9).
Ninguém tem motivo para vangloria alguma (1Co 1.31).
O cristão não precisa provar que é importante porque sua
identidade e valor estão em Cristo, por isso ele pode admitir que comete erros
e pedir perdão, pode ouvir e servir, pode renunciar a uma discussão ou
reconhecer suas limitações, dizendo que não sabe ou pedindo ajuda e oração.
Acima de tudo o cristão deve orar ao Senhor como Cristo
orou: que o centro de tudo seja a vontade do Pai (Mt 26.39).
O primeiro passo para
vencer o orgulho é parar de justificar seu próprio pecado. Pergunte-se onde o
orgulho aparece em sua vida.
Talvez você encontre a
resposta no modo como fala com a esposa, como trata os filhos, na dificuldade
de ouvir ou na necessidade de vencer as discussões. Talvez você seja incapaz de
pedir perdão ou precise reconsiderar a forma e o objetivo com que serve na
Igreja. O arrependimento só começa quando a pessoa cai em si e para de esconder
o problema (Lc 15.17).
O serviço cristão combate o orgulho porque desloca a atenção
de si mesmo para o próximo.
O cônjuge maduro consegue perguntar em que tem machucado seu
próximo sem perceber. É capaz de perguntar aos filhos sobre coisas que faz que
dificulta a relação. É dirigir-se aos irmãos pedindo ajuda para identificar e
corrigir áreas em sua vida que precisam de correção.
Estas coisas são difíceis, mas são instrumentos de Deus para
a santificação de seus filhos amados.
O que suas reações revelam sobre o que está no interior do
seu coração?
Evite as explicações que se transformam em justificativas.
Não remoa as causas para não colocar a culpa no outro e confesse que pecou e
que deseja perdão.
Separe um tempo para
reflexão e identifique pessoalmente, com familiares ou pessoas mais maduras na
fé (de acordo com o contexto) sobre quais as suas atitudes que precisam ser
mudadas. Ouça sem se defender. Ore sobre o assunto. Peça a Deus para mudar suas
atitudes.
Peça ao Senhor que o ajude a amar a família, servir a Deus
na Igreja, ouvir as pessoas e viver debaixo do senhorio de Cristo.
Você foi chamado para amar sua família, servir a Deus em sua
Igreja e procurar a viver como se Cristo vivesse em você (Gl 2.20).
O verdadeiro crente não é aquele que nunca se curva - é
aquele que aprendeu diante de quem deve se humilhar para ser restaurado e
sustentado no caminho da retidão.
“Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão
de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte.” 1Pe 5.6

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