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sábado, 8 de outubro de 2016

O QUE VOCÊ SABE DE SER REFORMADO PROTESTANTE



A Igreja cristã protestante está em vias de comemorar 500 anos de um evento marcante - o início da Reforma Protestante do sec. XVI.
Boa parte dos "herdeiros da reforma" ou pelo menos herdeiros dos frutos da Reforma desprezam sua herança. Na verdade, a maior parte das Igrejas evangélicas que hoje gozam de muitos direitos [entre outras coisas, do direito de cultuarem livremente, de examinarem por si mesmos as suas próprias bíblias, de não terem suas consciências forçadas e obrigados a cultuar de forma que não desejam sob pena de morte ou outras sanções] desprezam totalmente a fonte de onde ainda bebem.
Isto é extremamente comum no evangelicalismo brasileiro. Igrejas pentecostais, neopentecostais, comunidades e que podem ser chamadas de tantos outros nomes - algumas não admitem sequer serem chamados de Igrejas - rejeitam enfaticamente a história da Reforma, como se dissessem: não temos nada a ver com isso, e, enquanto alguns vão buscar raízes em práticas pré-cristãs [fazendo da forma de batismo um cavalo de batalha] outros apresentam raízes bem mais recentes, do séc. XIX ou XX.
Surpreendente é, porém, ver que os que a si mesmo se intitulam de reformados ou protestantes não apenas não conhecem mas não querem conhecer a sua própria história.
Vamos fazer uma pequena prova de história? Serão 10 perguntas apenas e com direito a dicas:
Qual a nacionalidade do reformador João Calvino? ...
Suíço          Alemão          Francês
Nas portas da Igreja de qual cidade Martinho Lutero afixou as suas famosas teses? ...
Roma          Wittenberg          Genebra
Qual o sobrenome do reformador de Zurique, Ulrico ...
Melanchton          Bücer          Zwínglio
O que as Teses de Lutero buscavam combater? ...
Impostos          Idolatria          Indulgências
Qual o nome da maior obra de teologia do sec. XVI? ...
A cidade de Deus          Suma Teológica          As institutas
Qual o primeiro país a aderir à Reforma Protestante? ...
Suíça          Alemanha          Portugal
Qual o nome do homem que insistiu com Calvino para ficar em Genebra? ...
Zwínglio         Melanchton          Farel
Em qual país os reformados ficaram conhecidos como presbiterianos?...
Inglaterra           Estados Unidos          Escócia
 Quantas foram as teses propostas por Martinho Lutero?
10                    12                    95
Lutero era um monge agostiniano e acabou criando qual Igreja?
Presbiteriana          Lateranense          Luterana
 Mas, há um problema ainda maior. Ainda que admitamos um certo desconhecimento da historia é facilmente perceptível um cada vez maior desconhecimento do próprio ensino das Escrituras segundo a interpretação reformada. Vamos fazer um pequeno teste? Você já deve ter ouvido falar dos 5 Solas da Reforma Protestante. Não eram nem objetos nem pessoas - eram pequenas frases em latim usadas para ajudar a memorizar doutrinas específicas. Anote aqui quais são os cinco solas da Reforma Protestante:
Sola                                 
Sola                                 
Solus                               
Sola                                 
Soli                                   
Quantos você conseguiu?
E os cinco pontos do calvinismo, ou, mais precisamente, as 5 definições de Dordrecht? Conhece a TULIP? Vou dar uma ajudinha também:
T  Depravação                
U  Eleição                        
L  Expiação                     
I  Graça                          
P  Perseverança              
Como cristãos temos a obrigação de, quando indagados a respeito da nossa esperança de salvação poder responder a todos com algo mais do que "desde que fui à Igreja minha vida melhorou". Precisamos poder afirmar que reconhecemos o nosso pecado com base no ensino das Escrituras, e que este pecado é o motivo da condenação de pecadores, como nós, ao inferno. Porém, onde abundou o pecado o Senhor fez superabundar sua graça e, mediante a morte de Cristo em nosso lugar, podemos experimentar a salvação e a vida eterna com Deus.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A REFORMA PROTESTANTE NÃO CABE NUM MUSEU

Há 498 a Alemanha viu, assombrada, surgir um homem que ousava desafiar o poder teocrático exercido pela maior organização política e religiosa que já governou parte deste planeta: a Igreja católica, que elevava e depunha reis, prendia, exilava e matava quem dela ousasse discordar (que o digam John Wicliff, Ian Huss e Jerônimo de Praga).
No dia 31 de outubro de 1517, em resposta à pregação de Iohan Tetzel o monge agostiniano Martin Luther (Martinho Lutero), após perceber o problema de oferecer perdão de pecados mediante a compra de indulgências papais e pregar três sermões contra as indulgências, finalmente afixou 95 teses ou proposições de debate [algo muito comum na época) na porta da Igreja do castelo de Wittenberg.
Esta atitude deflagraria o movimento que ficou conhecido como Reforma Protestante, tendo como lema cinco frases que ficaram conhecidas como os 5 Solas da Reforma Protestante:
· Sola Fide (somente pela fé), anunciando a doutrina da justificação pela fé e não mediante indulgências ou méritos;
· Sola Scriptura (somente a Escritura), anunciando não apenas a supremacia das Escrituras sobre os decretos e cânones papais, mas, principalmente a autoridade absoluta e definitiva das Escrituras;
· Solus Christus (somente Cristo), anunciando Cristo como o único meio de salvação, o único intercessor apto a apresentar o pecador diante de Deus;
· Sola Gratia (somente pela graça) anunciando a salvação pela fé como um dom de Deus, que elege livremente aqueles a quem deseja salvar;
· Soli Deo Glória (glória somente a Deus), anunciando Deus como o autor e consumador da salvação, único que deve ser glorificado na Igreja e fora dela.
Apesar de ter acontecido há tantos anos, os efeitos da ousadia de Lutero, logo seguido por outros como Melanchton, Zwínglio, Beza, Farel e, um pouco mais  tardiamente, Calvino ainda se fazem presentes em nossos dias.

A Reforma não é um artigo de museu, não é algo para os livros empoeirados das bibliotecas dos teólogos e seminários, não é a toa que o lema da Igreja reformada é “ecclesia reformata, semper reformanda”, isto é, uma Igreja que é herdeira da rica herança teológica do sec. XVI e XVII, mas, ao mesmo tempo, não está presa aos costumes (e nem mesmo aos erros cometidos) daquela época.
À Igreja não é exigido que ela seja medieval em seus ensinos e costumes, nem em sua liturgia - é exigido, sim, que ela seja bíblica, que fale e aja segundo as Escrituras (Is 8.20) respondendo a demandas do seu tempo. Assim como a Reforma Protestante não pode ser enclausurada num mausoléu medieval, a Igreja também não está limitada às decisões tomadas há quase cinco séculos porque isso seria o mesmo que negar a direção do Espírito Santo na vida da Igreja atual, especialmente com as novas demandas que surgem constantemente.
Sejamos criteriosos em observar os princípios da Reforma, todavia, não sejamos tolos nem xiitas para adentrarmos na prisão das formas que os teólogos e pastores medievais adotaram - porque nem eles mesmos pretendiam criar uma nova estrutura absolutista como era a Igreja que eles próprios combatiam.
A Reforma Protestante não cabe em um museu porque ela continua - a Reforma Protestante não cabe em um museu e a Igreja Presbiteriana, apesar de haver quem queira isso, não é o Museu da Reforma. A Igreja é Igreja, uma comunidade de crentes vivos, que vivenciam dilemas e encontram poder para testemunhar na atuação constante do Espírito do Senhor em seu meio.
Sim, sejamos gratos a Deus pela Reforma Protestante do sec. XVI, mas não, não criaremos um pedestal para ela nem para seus líderes nem devemos nos submeter a xiitas que, com sua chatice elaborada e embolorada, querem agrilhoar a Igreja nos costumes do passado.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

UM POVO COM BÍBLIAS, UM POVO SEM BÍBLIA - POR UMA NOVA REFORMA

A ausência da Bíblia tornou necessária a Reforma

No segundo livro das crônicas, no capítulo 34, versos 1 a 21 encontramos a história de um rei chamado Josias, que começou a reinar com apenas oito anos de idade (v. 1). Josias era filho de um rei que não se importava com as coisas de Deus, e não teve, portanto o exemplo paterno nem a imposição de uma religião nacional para indicar que caminho tomar. Aos 18 anos Josias começou a buscar ao Senhor (v. 3a) e, dois anos depois, iniciou um processo de purificação do país, retirando deles os deuses estranhos a Israel (v. 3b). Por este período havia apenas lembranças de que imagens não eram permitidas e de que maneira era possível tornar um lugar sacrificialmente impuro (v. 5). Somente 18 anos após o inicio do seu reinado Josias finalmente percebeu a necessidade de restaurar a casa do Senhor (v. 8) que fora deixada em ruínas pelos reis anteriores (v. 11). Nos trabalhos de restauração encontrou-se o livro da Lei do Senhor, o pentateuco de Moisés (v. 14) escondido sob o dinheiro do templo. O templo estava tão abandonado que havia se transformado em um mero cofre. Josias, o rei de Israel, não conhecia este livro, e, ao conhecer seu conteúdo, enche-se de temor (v. 19, 21) dando inicio a uma impressionante reforma religiosa.
Esta pequena introdução demonstra a ligação entre o livro da Lei do SENHOR e a pureza religiosa – o povo havia se afastado de Deus porque não conhecia a sua Palavra. É por isso que, em vez de falar da ligação da Bíblia com a Reforma Protestante, vamos falar do motivo que levou à necessidade da Reforma. No tempo de Jesus havia apenas os 39 livros que conhecemos por Antigo Testamento – a eles tanto Jesus quanto os apóstolos se referem como a Palavra de Deus.A eles se juntariam os 27 escritos pelos apóstolos e seus colaboradores, o que conhecemos como Novo Testamento (como sabemos, Jesus não deixou nada escrito).
No início do sec. II a Igreja teve que enfrentar o desafio proposto por Marcion, que rejeitava a autoridade de muitos livros canônicos, buscando estabelecer quais os livros que realmente haviam sido inspirados por Deus, adotando como critérios: a) Autoria ou endosso apostólico; b) Recepção uniforme pela Igreja e c) Harmonia perfeita com o restante das Escrituras. O primeiro a estabelecer o cânon exatamente como o conhecemos foi Atanásio (367 d.C.,), que também recomendava a leitura do Didaché e do Pastor de Hermas, rejeitando os livros atualmente conhecidos como apócrifos.
Com o passar do tempo diversas doutrinas estranhas foram entrando na Igreja, até que em 1129 o Concílio de Tolosa proibiu a leitura das Escrituras pelos leigos, considerando aceitável apenas a existência da versão conhecida como Vulgata, em latim, língua cada vez menos conhecida do povo (e também dos clérigos, muitos deles analfabetos). Ao povo restava o uso de um saltério ou de um breviário, uma espécie de liturgia responsiva. A primeira tradução para uma língua “comum” deu-se através de um inglês da universidade de Oxford, em 1375, e seus discípulos espalharam a bíblia por toda a Inglaterra, mesmo sob dura perseguição. Tendo morrido em paz, a igreja romana o excomungou, exumou seus ossos e os queimou 30 após sua morte durante o julgamento de outro pre-reformador, o boêmio Ian Huss.
A Reforma Protestante tem início, porém, quando o monge alemão Martinho Lutero encontrou a resposta para seus anseios espirituais nas páginas da carta de Paulo aos Romanos, em 1512, percebendo que a salvação lhe pertencia pela fé em Deus (sola fide) em Deus através de Jesus Cristo e não por algo que ele próprio realizasse (sola gratia), passando a expor as Escrituras (sola scriptura). Num embate com Tetzel, enviado por Roma para angariar recursos para construir a basílica de São Pedro em Roma, Lutero afixa na porta do castelo de Wittenberg as suas famosas 95 teses. Por mais pueril que seja o documento, ele serviu de estopim para a Reforma que rapidamente se espalhou pela Alemanha, Suíça, Holanda, incendiando as mentes e corações por toda a Europa. A Igreja romana prontamente iniciou um movimento conhecido como Contra Reforma, mas era um caminho sem volta – a bíblia seria, novamente, do povo, em sua língua materna. Assim começaram a surgir traduções em alemão, francês, novas versões em inglês. A proibição aos romanistas de lerem a bíblia só foi retirada no sec. XX, em 1963.
Da mesma maneira que, no decorrer dos séculos por toda a idade média a Igreja foi abandonando as Escrituras para substituir por costumes e dogmas sem a necessária sustentabilidade bíblica, a ponto de, para restauração da Igreja ser necessária uma impressionante reforma como aconteceu no sec. XVI, entre o final do sec. XX e esta pequena porção do sec. XXI é possível perceber que, apesar de tantas e tão numerosas traduções, versões, interpretações, encapamentos, edições comentadas, comemorativas, talvez não haja muito o que comemorar. Nunca se vendeu tantas cópias das Escrituras – e é possível que uma mesma pessoa tenha algumas dezenas de modelos diferentes, mas, ao mesmo tempo, é provável que estejamos vivendo um tempo do mais profundo desconhecimento das Escrituras. Vivemos tempo em que a autoridade das Escrituras cedeu lugar ao ensino dos pseudo apóstolos, dos profetas de conveniência, dos revelacionistas fraudulentos que nada tem a dizer de Deus e falam muito mais de si mesmos e da vida de terceiros.
Sim, precisamos, em pleno sec. XXI, de uma nova reforma. Não uma reforma das fachadas das Igrejas. Não uma reforma nas capas das bíblias. Mas uma reforma no coração e na mente dos cristãos. Talvez com uma nova reforma o cristianismo se divida mais uma vez. Talvez o numero de cristãos tenha que se recontado. Talvez os proclamados 40.000 de evangélicos no Brasil não sejam tantos milhões assim. Talvez, como nos dias da reforma do sec. XVI, o cristianismo tenha que se ver ameaçado em cantões, como em Zurique e Genebra. Tanto melhor, pois foi de lá que surgiram grandes proclamadores da Palavra. Israel, nos dias de Josias, estava em paz – mas não em paz com Deus. O oriente médio nos dias de Paulo estava em paz até que os transtornadores começassem a dar a palavra aos gentios e esvaziassem os templos. A Europa estava em paz até que Lutero, Zuínglio e Calvino, e outros mais, começassem a brandir as Escrituras.

Talvez tenha chegado o momento de, como eles, a Igreja do Senhor começar a levantar a voz mais uma vez e rejeitar toda impostura, bradando: Basta-nos a fé, chega de shows. Basta-nos a graça de Deus, chega de campanhas e promessas vazias. Basta-nos as Escrituras, mas queremos toda ela – chega de interpretações e visões absurdas. Basta-nos Cristo, não precisamos de pseudoapóstolos nem de milagreiros que só são capazes de realizar milagres em seus quintais. Queremos glorificar apenas a Deus, chega de endeusar homens. Como nas palavras daquele antigo hino: “É tempo, é tempo, o mestre está chamando já”. Reforma, reforma verdadeira, pautada pelas Escrituras. É tempo, povo de Deus.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

JOÃO CALVINO: 500 ANOS DE CALVINISMO E QUANTOS DE CALVINOLATRIA?

Calvino%20pregando_JPG10 de julho de 1509. Em Noyon [Picardia], norte da França, nasce uma criança de frágil compleição que recebe o nome de João Calvino. Seu pai era tabelião e secretário do bispo local. Aos 12 anos recebe um “benefício eclesiástico” que lhe servirá de bolsa de estudos. Aos 14 ingressa na Universidade de Paris, onde estuda humanidades e teologia. Em seguida dirige-se para Órleans e Bourges onde estuda direito entre os anos de 1528-1533.  Em 1532 publicou um comentário sobre a obra “De Clementia”, escrito pelo filósofo Sêneca ao imperador Nero. Por esta época toma conhecimento da reforma Luterana, converte-se [ele próprio nada fala sobre isso] faz um discurso em Paris que é considerado herético e foge para Angôulême e em seguida escreve seu primeiro livro religioso, Psychopannychia, sobre a imortalidade da alma [publicada somente em 1542]. É o início da sua jornada como um dos principais líderes do movimento reformador, ao lado de Martinho Lutero, Guilherme Farel, Theodoro de Beza, Filipe Melanchton, Ulrico Zuínglio e outros.
Em 1536 publica a primeira edição das Institutas, em Basiléia. Depois, dirigindo-se para Estrasburgo, por causa de escaramuças entre protestantes e católicos, desvia-se para Genebra, onde pretendia passar apenas uma noite. Informado da presença de Calvino, Guilherme Farel vai até ele e o insta a ficar na cidade que havia abraçado a fé reformada há muito pouco tempo. Em 1538 é forçado a abandonar Genebra, fixando residência entre os refugiados franceses em Estrasburgo. Casa-se com Idalette de Bure, escreve o comentário da Carta aos Romanos. Retorna para Genebra, escreve as ordenanças eclesiásticas. Toma parte no julgamento do médico Miguel Serveto, condenado à fogueira por heresia anti-trinitária. À partir de 1555 passa a ter o pleno apoio dos magistrados Genebrinos, torna-se cidadão genebrino em 1559, ano em que inaugura sua academia e publica. a última edição das Institutas. Morre a 27 de maio de 1564, aos 55 anos de idade, sendo sucedido por Teodoro Beza. Informações como estas e muitas outras podem ser conseguidas facilmente em qualquer biblioteca e em buscas on-line. Deixo-vos este trabalho após esta breve pesquisa histórica.
Nestes dias completou-se 500 anos do nascimento do reformador francês. São inúmeros os artigos, livros, panfletos, documentários e festividades mencionando o que Calvino fez, faria e até sugerir o que ele deveria ter ou não feito. Atribui-se a Calvino muito do que ele não fez, há os que pretendem esconder ou justificar erros que porventura tenha cometido. Cometeu-os? A menos que ele não fosse humano, sim. Mas os interessados na história de Calvino podem fazer uma pesquisa na internet que encontrarão farto material. Poderia fazê-lo? Sim, poderia. Talvez em outra oportunidade.
Antes, uma palavra de alerta àqueles que me conhecem, que me acompanham, aos que não me conhecem e até mesmo àqueles que pensam me conhecer, gostando ou não do que penso, escrevo e faço: sou presbiteriano, reformado, gosto da teologia sistematizada por João Calvino. Ninguém que me conheça pode dizer que sou anti-calvinista. Quem não me conhece ou pensa que me conhece talvez venha a afirmar algo assim. Todas as igrejas onde tive o privilégio de servir ao Senhor ensinando a Palavra de Deus, desde a minha conversão e chamado para o ministério, conheceram meu apego à boa teologia. Santa Maria da Vitória e Côcos [Bahia], Vila Mariana e Morumbi [São Paulo], Pitanga, Guarapuava e Dois Vizinhos [Paraná], Santana do Araguaia, Pacajá e Jacundá [Pará] podem testemunhar que sempre busquei ensinar e falar tão somente o que pudesse provar pelas Escrituras, tendo como lema as palavras do profeta Micaías: “Tão certo como vive o SENHOR, o que o SENHOR me disser, isso falarei”.
E tem sido assim: minha voz proclama a voz de Deus nas Escrituras. Não pretendo que gostem de mim – pretendo que ouçam o que Deus diz através de sua Palavra, as Escrituras Sagradas. Elas falam – como intérprete, explico-a. Instituições onde tive o privilégio de conviver como aluno e professor também podem testemunhar meu pensamento através de aulas e escritos [Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição, Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper, Faculdade Teológica Reformada de Guarapuava e Centro de Preparação de Obreiros de Tucuruí]. Por quê menciono tudo isto? Simples – logo aparecerá quem, gratuitamente, diga que sou anti-calvinista. Não o sou. Mas mantenho o senso crítico, não abro mão disso em troca de um afago de hipercalvinistas ou calvinólatras. Não me importo com o julgamento de quem não tem o direito de fazê-lo. Algumas vezes, julgado conservador [sim, sou, já que entendo que o que é bom para o reino deve ser, não apenas conservado, mas também, difundido]. Em outras, modernista [e não creio que haja erro algum em usar o que a inteligência humana tem produzido para tornar o evangelho do reino mais conhecido, ou então ainda deveríamos usar pergaminhos, velas de sebo e coisas que tais], ou liberal [nunca na teologia, mas acusado de sê-lo na prática, especialmente litúrgica] presbiteriano demais ou de menos, e às vezes nem presbiteriano segundo tais indignos juízes – tanto faz o resultado do julgamento: Deus é meu juiz. Aos demais, considero tolos e usurpadores pois tem a absurda pretensão de julgar o servo alheio: sirvo a Deus – ele é meu SENHOR!
Mas preocupa-me o tom laudatório que se levanta, o quase endeusamento atribuído à pessoa de João Calvino, um “inerrantismo” que não é nem justo, nem verdadeiro, nem faz jus à pessoa e obra do reformador. Sei que Calvino não foi original [seu pensamento reflete forte influência dos escritos agostinianos]. Sei que Calvino não foi completo [negou-se a escrever e pregar a respeito de determinados textos que afirmava não conseguir compreender – e isto é mais prova de humildade do que de ignorância, exemplar para muitos dos seus presunçosos pseudo-seguidores, que certamente envergonhariam aquele a quem atribuem o caráter paterno-teológico]. Sistematizador de uma faceta do pensamento dos reformadores do séc. XVI, Calvino não foi unânime em seu tempo, e tanto discordou quanto gozou da discordância de outros importantes reformadores como Lutero e Zuínglio. Certamente Calvino não aceitaria tal endeusamento.
Ele, que tanto combateu o papismo, a idolatria e a egolatria, dificilmente aceitaria ser colocado em um trono e considerado senhor do pensamento da Igreja. Para Calvino uma só mente deve ditar o que a igreja faz e pensa: a mente de Cristo. Acompanhei muito do que se disse a respeito do reformador genebrino nestes dias. Li artigos, jornais, revistas, boletins – textos escritos por calvinistas, pretensos calvinistas, arminianos, tomistas romanos [também eles], incrédulos, presbiterianos reformados e outros nem tanto, jornais e revistas, seculares ou evangélicas, e até mesmo documentos de seitas heréticas, e no fim, uma constatação: raros conseguiram manter o equilíbrio entre o que Calvino realmente foi e o que pretendem que ele seja cinco séculos depois. Não encontrei o Calvino histórico em muitos dos textos lidos. A calvinolatria erigiu um mito. O anti-calvinismo elegeu-o demônio. O verdadeiro pensamento reformado vê em Calvino simplesmente um homem e uma ambiguidade: muito à frente do seu tempo no pensar, fruto do seu tempo no agir. Inteligente como poucos, humano, como todos. Nem mito, nem demônio. Um homem , usado por Deus para sistematizar e formatar o pensamento da nascente igreja reformada [mas não o único pensamento protestante de seu tempo, pois o movimento que ficou conhecido como reformado vicejou ao lado de outras igrejas protestantes]. A força do seu pensamento está justamente nisto: é humano, como todo o pensamento teológico anterior e posterior, ainda que ele tenha alcançado uma profundidade notável. Escolher o mito é seguir uma miragem. Considerá-lo demônio é uma injustiça. Honrar o homem é glorificar aquele que o usou. Soli Deo gloria.

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