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quinta-feira, 7 de novembro de 2019

O JULGAMENTO CIVIL DE JESUS - Lc 23:5-11

O VERDADEIRO REI É JULGADO PELO USURPADOR

Na época de Jesus Roma dominava a maior parte dos reinos do mundo, semelhante ao império persa no período de Daniel. Assim como Dario respeitava cada povo e permitia o culto aos seus deuses, César permitia que as províncias tivessem a sua religião e organização social.
Havia várias regiões em Israel que eram comandadas por governadores designados por Roma. Além disso, havia representantes locais do império que tinham função de liderança sobre os judeus. Herodes, o Grande, e seus sucessores fizeram essa função. Herodes não era um nome propriamente dito, mas um título, assim como César, imperador romano.
Houve pelo menos quatro “Herodes” no Novo Testamento. Alguns deles governaram em períodos diferentes. O Herodes que mandou matar as crianças de Belém não foi o mesmo Herodes do tempo de João Batista.
Herodes, o Grande, avô de Antipas (Herodes mandou matar o próprio filho, Aristóbulo, pai de Antipas, por temer que este lhe tomasse o trono), era idumeu, nascido na região da Iduméia. Sua mãe era nabatéia. Não tendo sangue real judeu correndo em suas veias fez aliança com o império romano para manter-se no poder quando os partos tomaram Jerusalém e prenderam João Hircano II.
Herodes era o conselheiro chefe  e fugiu para Roma ficando sob proteção de Marco Antônio e este pediu ao césar Otaviano que estabelecesse o “confiável Herodes” como rei dos judeus, de modo que um descendente de Esaú assumisse o trono em 40 a.C. Não possuía descendência israelita e o remoto laço de parentesco se dava mediante uma tribo distante de Esaú (Edom) e seus descendentes tiveram laços consanguíneos com os macabeus ao casar-se com Mariane, neta de Aristóbulo II e de Hircano II em 37 a.C.
Conquistou a confiança dos judeus quando construiu o templo em Jerusalém, anteriormente destruído no período macabeu. Essa iniciativa fez dele um defensor da religião aos olhos do povo, embora, evidentemente, trabalhava para Roma obedecendo criteriosamente à palavra de César.
Herodes deixou descendentes que seguiram o mesmo estilo cruel e criminoso de governar: Arquelau, etnarca da Judéia, Felipe, tetrarca dos territórios do norte e da Transjordânia, e seu neto Antipas (filho de Aristóbulo), tetrarca da galiléia e Peréia.
Herodes Antipas, dominava parte da Judéia e localidades próximas ao rio Jordão. Daí o conflito com João, o Batista, que vivia naquela região. Antipas resolvia os problemas de ordem religiosa e de organização social. Somente as questões que afrontavam o governo romano como sonegação de impostos e insurreições eram encaminhadas ao procurador romano, naquela época representado por Pôncio Pilatos. Este sim representava a autoridade direta romana – inclusive sobre o próprio rei Herodes.
Problemas que envolvessem a religião e a lei dos judeus eram julgados por Herodes. Isso explica o porquê de Pilatos enviar Jesus à jurisdição de Herodes, uma vez que Jesus era galileu e a galiléia fazia parte do governo religioso de Herodes, pois a problemática era no âmbito da religião. Mesmo assim, e mesmo não vendo em Jesus nada de que o considerasse digno de morte Pilatos resolve usar Jesus politicamente enviando-o a Herodes apesar da acusação que os judeus faziam de um crime político (Lc 23:5).
Como vimos, apesar de cuidar de assuntos relacionados à cultura e religião dos judeus Herodes tinha tênues laços com os judeus, e seu interesse na religião era apenas para tê-la como instrumento de controle do povo de modo que nem ele nem os líderes religiosos tivessem problemas (Jo 11.48-50).
Vejamos o que a Palavra de Deus nos diz em Lc 23.6-11:
6 Tendo Pilatos ouvido isto, perguntou se aquele homem era galileu. 7 Ao saber que era da jurisdição de Herodes, estando este, naqueles dias, em Jerusalém, lho remeteu. 8 Herodes, vendo a Jesus, sobremaneira se alegrou, pois havia muito queria vê-lo, por ter ouvido falar a seu respeito; esperava também vê-lo fazer algum sinal. 9 E de muitos modos o interrogava; Jesus, porém, nada lhe respondia. 10 Os principais sacerdotes e os escribas ali presentes o acusavam com grande veemência. 11 Mas Herodes, juntamente com os da sua guarda, tratou-o com desprezo, e, escarnecendo dele, fê-lo vestir-se de um manto aparatoso, e o devolveu a Pilatos.
A Bíblia diz Herodes Antipas ouviu a fama de Jesus Cristo. Temeroso e supersticioso, ele até começou a sugerir que Jesus fosse João Batista redivivo (Mc 6:14-16). Depois ele procurou matar Jesus, e alguns fariseus aconselharam o Senhor a fugir (Lc 13:31). Mas Jesus não se intimidou diante das ameaças de Herodes Antipas considerando-o desprezível e malicioso como uma raposa (Lc 13:32) porque era rei maior até mesmo do que a daquele que tinha maior autoridade em Israel naquele momento (Jo 19:10-11).

O INTERESSE DE HERODES EM JESUS

Herodes Antipas havia herdado o caráter de seu avô. Em Roma havia agido sempre de maneira sorrateira, a ponto de ter que sair da cidade para não ser morto por causa de dívidas. Analisando suas ações em relação a Jesus podemos afirmar que Herodes tinha três interesses em Jesus:

USO POLÍTICO

Jesus precisava ser conhecido e controlado, porque representava um risco ao seu controle sobre os judeus. Seu avô já tentara matá-lo para não perder o trono (Mt 2:13) por causa das perguntas dos viajantes do oriente (Mt 2:2). Para ele Jesus não era nada mais do que um instrumento de controle religioso – inicialmente ele tinha medo que Jesus fosse o próprio João Batista que lhe ameaçava a popularidade denunciando publicamente as suas impiedades (Mc 6:18) e por isso foi morto por incitação da filha da mulher que possuía indignamente (Mc 6:19-24). Mais tarde decidiu matar a Jesus por questões políticas – para ele a religião era um mero instrumento de poder. E Pilatos também sabia disso (Lc 23:12) e aproveitou Jesus como moeda de troca para apaziguar o rancoroso e ladino rei depois de ter mandado matar alguns galileus (Lc 13:1).

SATISFAÇÃO DE CURIOSIDADE RELIGIOSA

Herodes já havia ouvido muitas coisas sobre Jesus – a sua fama corria por todo lugar. Certamente sabia que Jesus havia entrado em Jerusalém sob a aclamação das multidões (Mt 21:9). E não devemos duvidar de que isto o incomodava. erodes não é em nada diferente das multidões que enchem as igrejas procurando satisfazer sua curiosidade. Ele não queria a presença de Jesus como Nicodemos, como Zaqueu, como Jairo, a mulher hemorrágica ou o centurião de Cafarnaum. Ele só queria matar sua curiosidade. Queria saber se Jesus era mesmo capaz de fazer o que as pessoas diziam o tempo todo. Quem sabe Jesus fizesse um sinal miraculoso que o agradasse e que agradasse à plateia em seu palácio. Quem sabe Jesus o agradasse para não ser morto como João Batista foi. Mas, assim como com os religiosos que pediam sinais, aquele era só mais um incrédulo que não teria um show da fé particular (Lc 11:29).

SATISFAÇÃO DE CURIOSIDADE INTELECTUAL

Herodes também tinha curiosidade intelectual, interrogava Jesus porque sabia que Jesus ensinava de uma maneira diferenciada e isto todos reconheciam (Mc 1:22) e os escribas, com todas as suas artimanhas intelectuais, atitudes imorais e subterfúgios religiosos nunca haviam conseguido apanhá-lo (Lc 20:19-26). Em outra ocasião Jesus utiliza-se da mesma maneira de argumentar, e os escribas mesmo tendo sido desafiados a provar que havia algum erro no que ele fazia ou ensinava, são envergonhados mais de uma vez, e por isso ele os reprovava publicamente (Jo 8:46) e eles eram obrigados a calarem-se por temerem a opinião pública (Mat 21:23-24).

COMO JESUS LIDA COM ESTAS COISAS

Herodes Antipas foi a única pessoa em toda a Escritura com quem Jesus se recusou a falar. Ele não era digno de estar ali, ele não era o legítimo rei dos judeus. Ele estava num lugar que não era seu, era um usurpador (do latim usurpare, agarrar para uso próprio, apossar-se. Usurpar é a ação intrusiva, invasiva e criminosa individual de apossar-se mediante força, trapaça ou ato indigno coisas, bens, propriedades, títulos, cargos, função ou atribuição que não lhe é próprio, para o qual não tem nem pode obter dignidade de função, ofício, prerrogativa ou direito. Se exercido por mais de uma pessoa torna-se em associação para o crime).
Jesus falou com publicanos. Jesus falou com pecadores. Jesus falou com meretrizes. Jesus falou com leprosos, com samaritanos e com gentios. Jesus falou até com o diabo e seus demônios. Jesus falou até com os religiosos que tramaram e executaram seu julgamento indigno e também falou com o governador romano, Pilatos, porque eles estavam no lugar que tinham direito de estar.
 Herodes provavelmente desse pouca importância aos brados e acusações dos religiosos contra Jesus. Ele só queria ter sua curiosidade satisfeita – e viu-se frustrado nisso.
Herodes, não tendo satisfeitos os seus interesses, irado, trata Jesus com desprezo, escarnece dele e o devolve a Pilatos (Lc 23.10).
O destino de Herodes Antipas, um homem que teve a oportunidade de aprender com o Senhor e desprezou porque os Herodes tradicionalmente não aceitavam a idéia de nenhuma autoridade sobre eles (Mt 11:28).
Herodes preferiu ficar bem com o governante do mundo (César) e rejeitou se submeter ao Senhor dos senhores, e o fim de sua vida não é nada honroso. Foi derrotado por forças árabes sob o comando de seu e sogro Aretas IV e seus súditos consideravam sua derrota como retribuição divina por seus pecados cometidos (seu casamento irregular com Herodias, o assassinato de João Batista e a rejeição de Jesus).
Em 39 d.C. Herodes Antipas se envolveu em intrigas com seu sobrinho Herodes Agripa I e foi denunciado como conspirador e banido de sua tetrarquia pelo imperador Calígula, sendo exilado na Gália (França) onde morreu algum tempo depois.
Que lições podemos aprender com os erros de Herodes?
Jesus jamais se prestará a joguetes políticos e interesses mesquinhos.
Jesus jamais se prestará a ser animador de auditório satisfazendo curiosidade religiosa ou intelectual.
Jesus jamais satisfará os arrogantes anseios de satisfação do coração e da mente do homem.

sábado, 14 de abril de 2018

A TRAGÉDIA EM PARAGOMINAS E OS BONS AMIGOS DE JÓ

Boletim da Igreja Presbiteriana de Paragominas, 2018, Abril, 15.
É muito natural que, em situações como esta, nós nos perguntemos: porque isto aconteceu? Já vi e ouvi muitas tolices quando acontece algum tipo de calamidade, especialmente em locais onde o cristianismo não é aceito ou, pior ainda, onde tem sido sistematicamente repudiado pela população que um dia foi cristã, como ouvimos e vimos tantas vezes nas redes sociais como facebook e grupos de WhatsApp.
Sempre tem aqueles que, afoita e irresponsavelmente, num julgamento totalmente destituído e sabedoria que dizem: foi a mão de Deus... É julgamento. É a ira de Deus se abatendo sobre fulano ou sicrana. E ainda abrem a bíblia para citar textos que se referem à torre de Babel, ou Sodoma e Gomorra, ou os galileus abrigados na torre de Siloé:
Ele, porém, lhes disse: Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem padecido estas coisas? (Lc 13.2) 
Enquanto os habitantes de Jerusalém olhavam para a tragédia ocorrida na Galiléia diziam: são todos iguais, que mal faz que uns morram e outros vivam. Porém Jesus não permite que eles prossigam em seu julgamento pretensioso.
Ou cuidais que aqueles dezoito sobre os quais desabou a torre de Siloé e os matou eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? (Lc 13.4)
O problema é que os habitantes de Jerusalém que não tinham qualquer ligação com os desprezados galileus se imaginavam, de alguma forma, melhores que os que morreram, Jesus lhes diz que eles em nada diferiam daqueles. Os vivos em nada diferiam dos mortos. Os que pereceram em Siloé eram iguais aos que viviam em Jerusalém. Quando alguém diz: a punição veio sobre eles e não sobre nós está dizendo que, de alguma maneira, os outros eram mais dignos de passar pela tragédia do que os que dela escaparam, quando, na verdade, a Palavra de Deus diz que todos são igualmente réus, todos, igualmente, mereciam exatamente a mesma morte por causa de seus pecados - e todos, galileus ou não, precisavam da mesma coisa para não morrer: arrependerem-se de seus pecados.
Não eram, eu vo-lo afirmo; mas, se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis. (Lc 13.5) 
Curiosamente, quanto tinha terminado o primeiro parágrafo deste texto, precisei sair para auxiliar um irmão justamente por causa deste desastre que acompanhamos em nossa cidade. Enquanto aguardávamos, não consegui deixar de participar de uma conversa em que uma pessoa contava a história de que a casa de uma senhora foi destruída porque ela havia mandado a filha (uma adolescente de cerca de 13 anos) embora para colocar um homem em casa. Segundo ela a enchente foi para punir aquela mulher. Tive que discordar enfaticamente - teria Deus afligido tantas famílias por causa da ação desta senhora? Sim, Deus é Deus que julga e executa seus juízos, mas é ser simplório demais jogar a culpa em Deus das mazelas que o próprio homem semeia.
Também não concordei quando foi dito que cada um colhe exatamente o que semeia - porque, se esta calamidade que enfrentamos em Paragominas foi fruto daquilo que o homem semeou, e se ela foi, de fato, causada pela construção de barragens rio acima, então é lógico concluir que alguns estão colhendo o que outros semearam.
A pessoa que falava, na verdade, julgava que ela não sofrera por não ser tão má como a mulher de quem falava - e ela fazia este julgamento enquanto se embriagava. Triste constatação: um juiz ébrio julgando implacavelmente, condenando à pena de morte outro pecador. Com uma trave nos olhos julgava-se capaz de condenar o outro por ter um argueiro. Evidente que se tratava de dois pecadores, igualmente necessitados da graça de Deus para escaparem da condenação por seus próprios pecados.
Ah! Dizem uns apressados, mas eles construíram suas casas nas margens do rio, foram imprudentes, então que arquem com as consequências - e onde mais construiriam, primeiro que o rio não chegaria onde chegou sem o excesso das barragens [obras mal feitas de homens, muitas vezes, gananciosos], depois, quantos estão disposto a colocarem um pedaço de terra à disposição dos sem moradia para eles construírem uma casa, mesmo depois da tragédia acontecida (e há muitos que tem muito mais do que necessitam, não é)? Sei que poucos, bem poucos mesmo. A situação é muito complexa e geralmente apenas os tolos tem respostas fáceis para problemas complexos.
Como Igreja, antes de mais nada precisamos fazer, nestes dias de extrema angústia para muitos conhecidos e tantos mais desconhecidos exatamente como fizeram os três amigos de Jó nos primeiros sete dias de sua visita ao patriarca, naquela que é, para mim, uma das mais belas demonstrações de compaixão que eu encontro nas Escrituras, superada apenas pelo ato de Cristo na cruz, tomando o nosso lugar.
Sentaram-se com ele na terra, sete dias e sete noites; e nenhum lhe dizia palavra alguma, pois viam que a dor era muito grande (Jó 2.13).
Durante 7 longos dias os amigos de Jó se colocaram ao seu lado. Se compadeceram do seu amigo e certamente tentaram diagnosticar o problema que ele passava bem como imaginar como poderiam ajudar-lhe naquela situação tão difícil. Imagino que, se o problema de Jó fosse financeiro, eles estariam prontos para ampará-lo. Se fosse emocional, ali estavam eles para fazer-lhe companhia.
Os amigos de Jó não queriam respostas. Os amigos de Jó não tinham conselhos a dar. Os amigos de Jó foram o que amigos devem ser: eles estavam ali, estavam presentes. Em sua dor Jó podia ver que não estava sozinho.
Sua esposa sofria quase tanto quanto ele, muitos a julgam apressadamente sem levar em consideração seu próprio sofrimento. Aquela esposa, aquela mãe, já não aguentava mais tamanha dor, perdera tudo, seu estilo de vida, seus filhos, via seu marido às portas da morte. Ela não conseguia ajudá-lo. Mas seus amigos estavam ali.
É consenso que o que as pessoas que sofrem mais precisam em seus momentos de dor não são palavras, mas presença. Para isto os amigos de Jó estavam ali. Provavelmente foi esta a intenção de João ao ficar até o último momento ao pé da cruz, cuidando da mãe de Jesus. É é por isso que o Senhor nos deu o Espírito Santo.
O Senhor Jesus sabia dessa necessidade e não foi sem razão que ele disse que, no mundo, seus discípulos certamente enfrentariam aflições, perseguições, opróbrio, zombaria e até mesmo a morte - mas, ao mesmo tempo, ele também prometeu que, sendo aquele que vence o mundo, também estaria com eles todos os dias até a consumação dos séculos, que não os deixaria órfãos, não os abandonaria, e que lhes enviaria o paráclito, literalmente “aquele que se coloca ao lado”, “o que ampara”. Não estamos sós:
E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não no vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós. (Jo 14.16-17)

quarta-feira, 1 de março de 2017

PORQUE NÃO: CANSAÇO DE QUEM? RAZÕES PARA O AFASTAMENTO DA CONGREGAÇÃO

CANSADO DE QUEM?

Talvez a pergunta não seja você está cansado de que, e você não se incomode com a rotina da Igreja. Talvez eu deva lhe perguntar: cansado de quem? Sim, porque Igreja não é só atividade, não é só culto, não é só fazer coisas. Igreja é relacionamento, é contato pessoal e às vezes impessoal, mas sem dúvida, bom ou ruim, Igreja é relacionamento.
E talvez você esteja cansado disso. Mas, de quem mesmo você está cansado? 
Já parou para se perguntar: será que estou cansado de Deus? Cansado de Deus? 
Sim, porque na Igreja somos “obrigados” a nos relacionar com Deus, ouvir o que ele tem a dizer, falar com ele e até cantar músicas (às vezes maquinalmente, sem refletir no que elas dizem) em seu louvor expressando gratidão porque ele se relaciona conosco misericordiosamente (Sl 119.77).
Mas se o relacionamento com Deus se resume a isso, então a preferência por outras atividades e lugares pode indicar que você está cansado de Deus e você não quer se obrigado a “vê-lo”. Mas Igreja também é relacionamento entre pessoas, de carne e osso, pecadores marcados pela queda – e talvez seja isso, você está cansado de determinadas pessoas, ou do que as pessoas significam na Igreja. 
Você está cansado da família da fé, dos irmãos e prefere os amigos do trabalho, da escola, do lazer, da TV (que nem seus amigos são, nem sabem da sua existência e por eles você é capaz até de brigar com amigos de verdade)? Talvez seja isso, você se cansou da comunhão dos santos e não tem mais prazer em estar com aqueles que, como você, foram comprados pelo sangue precioso de Cristo (Sl 16.3).

segunda-feira, 13 de junho de 2016

O QUE DEVEMOS FAZER QUANDO SOMOS ALCANÇADOS PELA PALAVRA DE DEUS

Duas perguntas: o que nós estamos fazendo aqui neste exato momento?
Nós leremos um trecho da bíblia, mais precisamente uma parte do evangelho de Lucas. Lucas não foi um dos discípulos originais, não era apóstolo, não foi comissionado pelo Senhor como Mateus e João foram. Mas Lucas escreveu um evangelho, um relato pormenorizado sobre os fatos conhecidos a respeito de Jesus, o que ele fez e disse. Ele mesmo afirma que só escreveu após uma investigação muito cuidadosa, ouvindo testemunhas oculares (Lc 1.1-4 - Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, 2 conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da palavra, 3 igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, 4 para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído). É provável que ele tenha ouvido outras coisas que não escreveu porque não julgou necessário registrar. Você concorda com isto? Até um incrédulo, mesmo um liberal, concorda. O problema é considerar o evangelho de Lucas, como os demais, apenas um relato de relatos sobre eventos.
Quero chamar a sua atenção para isto: não estamos lidando com um texto como outro qualquer. Estamos prestes a ler é mais que isto. É a Palavra inspirada de Deus. E, sendo a Palavra de Deus, temos a obrigação de ouvir com atenção. Nada na terra é mais importante do que ouvir a Palavra de Deus. E isto nos leva à segunda pergunta: como você tem ouvido a Palavra de Deus?
Jesus afirma que, no final, existe aqueles que rejeitam a Palavra de Deus, isto é, aqueles que escutam mas não ouvem, isto é, embora ouçam com os ouvidos e entendam o sentido dela, a rejeitam – e aqueles que a ouvem e a recebem são exemplificados na parábola do semeador (Lc 8.5-17): alguns logo a tem arrebatada de seus corações pelo diabo que não quer que sejam salvos; outros são sem profundidade, sem raízes, sem firmeza, ouvem mas não dão frutos permanentes; outros ainda são sufocados pelos anseios, riquezas e as demais coisas do mundo que julgam mais importantes que dar frutos para Deus e, finalmente, aqueles que recebem a Palavra a retém e dão frutos que permanecem. A parábola do semeador fala de como os que ainda não são crentes recebem a Palavra de Deus.
Mas Jesus deixou de fora desta parábola (e vai tratar disso mais à frente) os religiosos (você pode ler qualquer tipo de religioso cristão, sejam eles protestantes, evangélicos, reformados, pentecostais, arminianos, puritanos, congregacionais, comunitários…). Tanto faz o nome que você dê a eles, qual o rótulo, pedigree ou grife – você vai encontrá-los em qualquer Igreja que procurar. E isto nos leva a mais uma indagação: como os religiosos recebiam a Palavra de Deus? Como os membros da Igreja recebem a Palavra de Deus? Ou, melhor ainda, como você deve receber a Palavra de Deus? É especialmente esta última pergunta que quero que tenhamos respondida nesta ocasião.
11 De caminho para Jerusalém, passava Jesus pelo meio de Samaria e da Galiléia.
12 Ao entrar numa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez leprosos, 13 que ficaram de longe e lhe gritaram, dizendo: Jesus, Mestre, compadece-te de nós!
14 Ao vê-los, disse-lhes Jesus: Ide e mostrai-vos aos sacerdotes. Aconteceu que, indo eles, foram purificados.
15 Um dos dez, vendo que fora curado, voltou, dando glória a Deus em alta voz, 16 e prostrou-se com o rosto em terra aos pés de Jesus, agradecendo-lhe; e este era samaritano.
17 Então, Jesus lhe perguntou: Não eram dez os que foram curados? Onde estão os nove?
18 Não houve, porventura, quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro?
19 E disse-lhe: Levanta-te e vai; a tua fé te salvou.

INTRODUÇÃO

Os evangelhos, em sua multiforme apresentação de Jesus, mostram detalhes diferentes de uma mesma obra: a ação do Filho de Deus vindo ao mundo para salvar pecadores e as diferentes reações dos pecadores, resumidos magistralmente em duas frases do apóstolo João: a) o propósito da vinda de Jesus: ele veio para o que era seu, mas os seus não o receberam, mas a todos quantos o receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus (Jo 1.11-12) e b) o objetivo do registro de suas ações e das reações tanto dos que o receberam quanto dos que o rejeitaram: para que os que cressem nele como o Filho de Deus obtivessem a vida eterna (Jo 20.31). Lucas também afirma claramente porque escreveu – e seu propósito é o mesmo que temos hoje ao buscar instrução neste texto: para que tenhamos plena certeza daquilo em que fomos instruído (Lc 1.4).
O texto que vamos analisar (Lc 17.11-19) está situado dentro de uma perícope maior, iniciada em Lc 15.1, que trata justamente do modo como Jesus, o verbo encarnado, foi recebido pelo que era seu, mas muitos dos quais tinham atitudes inadequadas quando ouviam a sua Palavra.
De acordo com a tônica do seu ministério (buscar e salvar o perdido) Jesus estava em uma região onde eles eram mais que abundantes – passava pelo meio da Samaria e da Galiléia, duas regiões alvo de profundo desprezo pelos fariseus. Este tipo de atitude de Jesus (misturar-se com os perdidos) provocava a ira dos religiosos – como quando ele comeu com pecadores (15.1-2), justamente aqueles que deveriam se alegrar quando os pecadores se arrependiam. Que queriam eles? Queriam que Jesus lhes desse atenção por serem “justos” e que os demais judeus lhes honrassem por suas “obras de justiça”. Aqueles religiosos estavam errados em suas atitudes. Eles deveriam alegrar-se com o resgate dos perdidos que passavam a se interessar pelo reino, pois a maioria não tinha interesse algum pela religião, desinteresse, aliás, causado pelos próprios religiosos que não se dispunham a ensiná-los adequadamente (Mt 7.29) e ainda os discriminava (Lc 18.11).
Em todo o texto transparece a expectativa e o ensino de Jesus para que todos se alegrassem com o resgate dos perdidos – os religiosos deveriam se alegrar com o fato de publicanos e pecadores se interessarem pelo reino, uma vez que, em sua grande maioria, tinham pouco ou nenhum interesse pela religião.

ONDE JESUS ESTAVA: DE CAFARNAUM A JERUSALÉM, ONDE OS PERDIDOS ESTAVAM

11 De caminho para Jerusalém, passava Jesus pelo meio de Samaria e da Galiléia.
Mesmo para quem é pouco afeito aos relatos bíblicos consegue perceber numa leitura bem superficial que os judeus tinham grande animosidade para com os gentios, com os quais não possuíam laços de consanguinidade, com os samaritanos, que julgavam um povo misturado e indigno, numa rixa iniciada desde os dias de Neemias, e, em terceiro lugar, com os galileus, porque estes viviam nas fronteiras do norte e se relacionavam naturalmente com outros povos e eram vistos como, no mínimo, judeus relaxados ou menos puros – algo muito parecido com a discriminação que às vezes há entre estados e regiões do Brasil.
O judeu comum não se dava com samaritanos (Jo 4:9 - Então, lhe disse a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana (porque os judeus não se dão com os samaritanos)?) e não esperava nada de bom da Galiléia (Jo 1:46 - Perguntou-lhe Natanael: De Nazaré pode sair alguma coisa boa? Respondeu-lhe Filipe: Vem e vê).
Num evidente contraste com os “justos que não necessitam de arrependimento” (Lc 15.7 - Digo-vos que, assim, haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos (aos seus próprios olhos) que não necessitam de arrependimento) Jesus vai em busca dos que são considerados os mais perdidos, dando, ele próprio, expressão ao mandato que depois passaria aos seus discípulos (Jo 20:21 - Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio) comissionando os para levarem a sua mensagem até os confins da terra (At 1:8 - …mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra), plano que Deus já revelara há vários séculos e não era novidade nenhuma – embora fosse uma verdade esquecida (Sl 22:27 - Lembrar-se-ão do SENHOR e a ele se converterão os confins da terra; perante ele se prostrarão todas as famílias das nações).
Como o pastor que procura as ovelhas perdidas deixando as demais protegidas no aprisco, como a mulher que procura a dracma desaparecida sem se esquecer de onde estão as outras nove ou o pai que vai ao encontro do filho rebelde mas que, concomitantemente, não despreza e busca restaurar o que permaneceu em casa quando este fica indignado Jesus vai onde estão as outras ovelhas (Jo 10:16 - Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor).
Estas ovelhas perdidas não eram outros senão nós mesmos. Ele buscou suas ovelhas em Jerusalém. Ele buscou suas ovelhas na Judéia. Ele foi até a Samaria buscar suas ovelhas e atingiu até nós, aqui, nos confins da terra. Os fariseus não apenas não admitiam que outras ovelhas se juntassem ao antigo aprisco como se indignaram com isso. Sua visão limitada do reino de Deus levava-os a considerar que mais gente significava menor herança – e eles preferiam que a multidão continuasse perdida para que eles tivessem maior herança.

O QUE JESUS BUSCAVA: PECADORES IRRECUPERÁVEIS

12 Ao entrar numa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez leprosos 13 que ficaram de longe e lhe gritaram, dizendo: Jesus, Mestre, compadece-te de nós!
Jesus já vinha tratando de um mesmo problema, isto é, o desprezo pelos perdidos e pela animosidade contra ele porque ele agia para resgatá-los. As parábolas contadas (a busca de uma ovelha, de uma dracma e até mesmo a aceitação de um filho rebelde) explicitavam o interesse de Deus pelos perdidos (Lc 19:10 - Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido) implicava em uma busca que só se encerrava com a salvação deles. Não bastava encontrar, era necessário resgatar, trazer de volta à vida.
O que antes era uma dura repreensão moral e teológica logo vai se evidenciar num nível não mais teórico como as parábolas, mas se aprofunda num nível existencial. Seu encontro com os leprosos mostra seu interesse por pessoas reais, pessoas que eram párias sociais, privados do convívio de seus familiares e alguns rejeitados por eles. Não tinham outro convívio social que não com outros leprosos. Assim como os publicanos e pecadores não eram benquistos nas sinagogas e no templo, os leprosos sequer nas cidades eram aceitos – rejeitados não apenas por publicanos, mas por toda as pessoas em virtude de sua enfermidade contagiosa e mortal.
O pior é que, na verdade, eles não queriam que ninguém fosse restaurado, que ninguém mais entrasse no reino e suas atitudes se tornavam impeditivas para que outros também almejassem reino (Mt 23:13 - Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando!). Eles eram capazes de rodear o mar para fazer um prosélito (Mt 23:15 - Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós!) mas eram incapazes de olhar para os pecadores que estavam morrendo ao seu lado – alguns provavelmente afastados de Deus por sua dureza de coração.
A busca dos fariseus se dava por prosélitos, por tornar as pessoas seus próprios discípulos, seus seguidores – por isso duas vezes mais filhos do inferno do que eles mesmos porque eles não apenas escravizavam os neófitos à lei mas também aos seus costumes, aos seus amores e dissabores, tornavam-nos adeptos de suas disputas e preconceitos.
Todavia não é justo condenarmos os fariseus tão precipitadamente quando os cristãos, com maior luz, com maior conhecimento da Palavra de Deus e sendo habitação do Espírito agem do mesmo modo – seu desinteresse pelas coisas eternas, seu estilo de vida mundano só servem para afastar. Nem sal, nem luz – como é triste vermos cristãos que não vivem de maneira que os ímpios venham a glorificar a Deus ao verem seu procedimento (I Pe 1:15 - …pelo contrário, segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento (…) I Pe 2:12 - …mantendo exemplar o vosso procedimento no meio dos gentios, para que, naquilo que falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação).

O QUE JESUS FAZ: RESTAURA PECADORES

14 Ao vê-los, disse-lhes Jesus: Ide e mostrai-vos aos sacerdotes. Aconteceu que, indo eles, foram purificados.
Todos os dez leprosos tinham o mesmo problema – e a solução de seu problema foi o mesmo: a ordem de Jesus, à qual deram ouvidos. A mesma Palavra, o mesmo poder, os mesmos efeitos? Normalmente nenhum deles se apresentaria na cidade, muito menos em um templo. Aqueles homens, como as multidões que andavam cercando Jesus, ouviram a sua palavra – mas, diferente daqueles, atenderam de imediato ao que ele lhes dissera.
Acredito que a maioria dos milagres sempre tem a função de evidenciar a dureza dos corações dos incrédulos. Jesus afirmou que uma geração má e adúltera vivia pedindo sinais (Mt 12:39 - Ele, porém, respondeu: Uma geração má e adúltera pede um sinal; mas nenhum sinal lhe será dado, senão o do profeta Jonas). A mesma palavra de Jesus teve os mesmos efeitos – curou os dez leprosos. A mesma Palavra lhes deu uma ordem – cumprir as exigências da lei, mostrando-se ao sacerdote para que este os examinasse – um exame que poderia durar até 21 dias – finalmente os declarasse limpos e pudessem retornar ao convívio de suas famílias.
Dez leprosos curados, dez leprosos que atendem às Palavra de Jesus, dez leprosos para quem as exigências da religião não eram novidade (mesmo o samaritano tinha sua religião baseada apenas no pentateuco e seu templo em Samaria com seu próprio sacerdócio) – eles sabiam que só poderiam voltar pra casa depois de legalmente limpos. Estavam fisicamente limpos, mas ainda não legalmente limpos. Da mesma maneira que os fariseus não admitiam que Jesus se aproximasse dos que eles consideravam cerimonialmente indignos e, portanto, espiritualmente impuros, a maioria dos curados se preocupou apenas com os aspectos legais e cerimoniais de sua cura.
Acredito que a graça de Deus continue sendo oferecida em Cristo Jesus, sua Palavra continua sendo proclamada, suas ordens são tão claras quanto eram naquela ocasião entre a Galiléia e a Samaria… acredito que muitas pessoas ainda estão experimentando bênçãos distribuídas abundantemente pelas mãos do Senhor (Tg 1:17 - Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança). Sim, ainda há quem se aproxime do Senhor desejoso de ser curado, abençoado. Pessoas que querem alguma bênção: querem bênção na família, no emprego, saúde, livramento, proteção. Estas coisas são boas e necessárias – e sim, o Senhor é poderoso para dar isto e muito mais. Jesus faz mais que isso – ele não apenas cura enfermos mas perdoa pecados (Lc 5:24 - Mas, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados - disse ao paralítico: Eu te ordeno: Levanta-te, toma o teu leito e vai para casa).
Você já recebeu, com certeza, alguma bênção de Deus. Suas orações foram atendidas. Suas súplicas chegaram aos ouvidos de Deus e… é, e agora? O que fazer?

COMO RESPONDER A AÇÃO DE JESUS: COM GRATIDÃO

15 Um dos dez, vendo que fora curado, voltou, dando glória a Deus em alta voz, 16 e prostrou-se com o rosto em terra aos pés de Jesus, agradecendo-lhe; e este era samaritano. 17 Então, Jesus lhe perguntou: Não eram dez os que foram curados? Onde estão os nove? 18 Não houve, porventura, quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro? 19 E disse-lhe: Levanta-te e vai; a tua fé te salvou.
Jesus já havia dito que era necessário que houvesse alegria quando um perdido fosse restaurado. Neste episódio dez perdidos são restaurados – e nove deles, à semelhança dos fariseus, se preocupam apenas com o cumprimento da lei, indo mostrar-se ao sacerdote. Aparentemente o décimo desobedeceu a Jesus pois não foi até o sacerdote em um templo qualquer (atente para o fato de que ele foi até Jesus, o sumo sacerdote) – e faz tudo o que se esperava que o povo de Deus (o que era seu) fizesse: que glorificasse a Deus por ter sido resgatado mediante a fé, demonstrando grande gratidão pelo grande perdão obtido (Lc 7.47).
Lutero afirmava que a única coisa que diferencia um cristão e o faz merecedor deste nome é o fato de que ele ouve a Palavra de Deus – isto quer dizer que o cristão não é apenas o que escuta, mas o que ouve a Palavra com fé, a recebe e a guarda em seu coração e faz dela a fonte de orientação para suas ações posteriores, dando, em tudo, graças a Deus por intermédio de Cristo Jesus.
O samaritano, agora um ex-leproso, vai além do cumprimento da lei – aliás, poderia ir ao templo a qualquer hora, mas só depois de glorificar a Deus adorando a Jesus (v.16) por uma bênção recebida que não poderia alcançar nem mesmo cumprindo a lei mas que obteve pela graça atendendo ao mandato de Jesus antes mesmo de ter sido curado da lepra (aparentemente a cura se deu quando ele já estava indo).
O propósito do evangelho permanece o mesmo – os crentes ainda devem se alegrar porque Deus continua resgatando perdidos, párias, proscritos, mortos... ainda chama os aleijados, os cegos, os pobres para dentro do seu reino. Os crentes ainda devem se alegrar por ver que outros também estão ouvindo as palavras de Jesus e sendo curados. Os crente devem se alegrar e dar glória a Deus por suas ações e por suas palavras. O propósito das ações e palavras de Cristo continua sendo o mesmo: que, assim como ele glorificou o pai, seus discípulos também o glorifiquem numa obediência que se expressa alegremente.

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