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quinta-feira, 7 de novembro de 2019

O JULGAMENTO CIVIL DE JESUS - Lc 23:5-11

O VERDADEIRO REI É JULGADO PELO USURPADOR

Na época de Jesus Roma dominava a maior parte dos reinos do mundo, semelhante ao império persa no período de Daniel. Assim como Dario respeitava cada povo e permitia o culto aos seus deuses, César permitia que as províncias tivessem a sua religião e organização social.
Havia várias regiões em Israel que eram comandadas por governadores designados por Roma. Além disso, havia representantes locais do império que tinham função de liderança sobre os judeus. Herodes, o Grande, e seus sucessores fizeram essa função. Herodes não era um nome propriamente dito, mas um título, assim como César, imperador romano.
Houve pelo menos quatro “Herodes” no Novo Testamento. Alguns deles governaram em períodos diferentes. O Herodes que mandou matar as crianças de Belém não foi o mesmo Herodes do tempo de João Batista.
Herodes, o Grande, avô de Antipas (Herodes mandou matar o próprio filho, Aristóbulo, pai de Antipas, por temer que este lhe tomasse o trono), era idumeu, nascido na região da Iduméia. Sua mãe era nabatéia. Não tendo sangue real judeu correndo em suas veias fez aliança com o império romano para manter-se no poder quando os partos tomaram Jerusalém e prenderam João Hircano II.
Herodes era o conselheiro chefe  e fugiu para Roma ficando sob proteção de Marco Antônio e este pediu ao césar Otaviano que estabelecesse o “confiável Herodes” como rei dos judeus, de modo que um descendente de Esaú assumisse o trono em 40 a.C. Não possuía descendência israelita e o remoto laço de parentesco se dava mediante uma tribo distante de Esaú (Edom) e seus descendentes tiveram laços consanguíneos com os macabeus ao casar-se com Mariane, neta de Aristóbulo II e de Hircano II em 37 a.C.
Conquistou a confiança dos judeus quando construiu o templo em Jerusalém, anteriormente destruído no período macabeu. Essa iniciativa fez dele um defensor da religião aos olhos do povo, embora, evidentemente, trabalhava para Roma obedecendo criteriosamente à palavra de César.
Herodes deixou descendentes que seguiram o mesmo estilo cruel e criminoso de governar: Arquelau, etnarca da Judéia, Felipe, tetrarca dos territórios do norte e da Transjordânia, e seu neto Antipas (filho de Aristóbulo), tetrarca da galiléia e Peréia.
Herodes Antipas, dominava parte da Judéia e localidades próximas ao rio Jordão. Daí o conflito com João, o Batista, que vivia naquela região. Antipas resolvia os problemas de ordem religiosa e de organização social. Somente as questões que afrontavam o governo romano como sonegação de impostos e insurreições eram encaminhadas ao procurador romano, naquela época representado por Pôncio Pilatos. Este sim representava a autoridade direta romana – inclusive sobre o próprio rei Herodes.
Problemas que envolvessem a religião e a lei dos judeus eram julgados por Herodes. Isso explica o porquê de Pilatos enviar Jesus à jurisdição de Herodes, uma vez que Jesus era galileu e a galiléia fazia parte do governo religioso de Herodes, pois a problemática era no âmbito da religião. Mesmo assim, e mesmo não vendo em Jesus nada de que o considerasse digno de morte Pilatos resolve usar Jesus politicamente enviando-o a Herodes apesar da acusação que os judeus faziam de um crime político (Lc 23:5).
Como vimos, apesar de cuidar de assuntos relacionados à cultura e religião dos judeus Herodes tinha tênues laços com os judeus, e seu interesse na religião era apenas para tê-la como instrumento de controle do povo de modo que nem ele nem os líderes religiosos tivessem problemas (Jo 11.48-50).
Vejamos o que a Palavra de Deus nos diz em Lc 23.6-11:
6 Tendo Pilatos ouvido isto, perguntou se aquele homem era galileu. 7 Ao saber que era da jurisdição de Herodes, estando este, naqueles dias, em Jerusalém, lho remeteu. 8 Herodes, vendo a Jesus, sobremaneira se alegrou, pois havia muito queria vê-lo, por ter ouvido falar a seu respeito; esperava também vê-lo fazer algum sinal. 9 E de muitos modos o interrogava; Jesus, porém, nada lhe respondia. 10 Os principais sacerdotes e os escribas ali presentes o acusavam com grande veemência. 11 Mas Herodes, juntamente com os da sua guarda, tratou-o com desprezo, e, escarnecendo dele, fê-lo vestir-se de um manto aparatoso, e o devolveu a Pilatos.
A Bíblia diz Herodes Antipas ouviu a fama de Jesus Cristo. Temeroso e supersticioso, ele até começou a sugerir que Jesus fosse João Batista redivivo (Mc 6:14-16). Depois ele procurou matar Jesus, e alguns fariseus aconselharam o Senhor a fugir (Lc 13:31). Mas Jesus não se intimidou diante das ameaças de Herodes Antipas considerando-o desprezível e malicioso como uma raposa (Lc 13:32) porque era rei maior até mesmo do que a daquele que tinha maior autoridade em Israel naquele momento (Jo 19:10-11).

O INTERESSE DE HERODES EM JESUS

Herodes Antipas havia herdado o caráter de seu avô. Em Roma havia agido sempre de maneira sorrateira, a ponto de ter que sair da cidade para não ser morto por causa de dívidas. Analisando suas ações em relação a Jesus podemos afirmar que Herodes tinha três interesses em Jesus:

USO POLÍTICO

Jesus precisava ser conhecido e controlado, porque representava um risco ao seu controle sobre os judeus. Seu avô já tentara matá-lo para não perder o trono (Mt 2:13) por causa das perguntas dos viajantes do oriente (Mt 2:2). Para ele Jesus não era nada mais do que um instrumento de controle religioso – inicialmente ele tinha medo que Jesus fosse o próprio João Batista que lhe ameaçava a popularidade denunciando publicamente as suas impiedades (Mc 6:18) e por isso foi morto por incitação da filha da mulher que possuía indignamente (Mc 6:19-24). Mais tarde decidiu matar a Jesus por questões políticas – para ele a religião era um mero instrumento de poder. E Pilatos também sabia disso (Lc 23:12) e aproveitou Jesus como moeda de troca para apaziguar o rancoroso e ladino rei depois de ter mandado matar alguns galileus (Lc 13:1).

SATISFAÇÃO DE CURIOSIDADE RELIGIOSA

Herodes já havia ouvido muitas coisas sobre Jesus – a sua fama corria por todo lugar. Certamente sabia que Jesus havia entrado em Jerusalém sob a aclamação das multidões (Mt 21:9). E não devemos duvidar de que isto o incomodava. erodes não é em nada diferente das multidões que enchem as igrejas procurando satisfazer sua curiosidade. Ele não queria a presença de Jesus como Nicodemos, como Zaqueu, como Jairo, a mulher hemorrágica ou o centurião de Cafarnaum. Ele só queria matar sua curiosidade. Queria saber se Jesus era mesmo capaz de fazer o que as pessoas diziam o tempo todo. Quem sabe Jesus fizesse um sinal miraculoso que o agradasse e que agradasse à plateia em seu palácio. Quem sabe Jesus o agradasse para não ser morto como João Batista foi. Mas, assim como com os religiosos que pediam sinais, aquele era só mais um incrédulo que não teria um show da fé particular (Lc 11:29).

SATISFAÇÃO DE CURIOSIDADE INTELECTUAL

Herodes também tinha curiosidade intelectual, interrogava Jesus porque sabia que Jesus ensinava de uma maneira diferenciada e isto todos reconheciam (Mc 1:22) e os escribas, com todas as suas artimanhas intelectuais, atitudes imorais e subterfúgios religiosos nunca haviam conseguido apanhá-lo (Lc 20:19-26). Em outra ocasião Jesus utiliza-se da mesma maneira de argumentar, e os escribas mesmo tendo sido desafiados a provar que havia algum erro no que ele fazia ou ensinava, são envergonhados mais de uma vez, e por isso ele os reprovava publicamente (Jo 8:46) e eles eram obrigados a calarem-se por temerem a opinião pública (Mat 21:23-24).

COMO JESUS LIDA COM ESTAS COISAS

Herodes Antipas foi a única pessoa em toda a Escritura com quem Jesus se recusou a falar. Ele não era digno de estar ali, ele não era o legítimo rei dos judeus. Ele estava num lugar que não era seu, era um usurpador (do latim usurpare, agarrar para uso próprio, apossar-se. Usurpar é a ação intrusiva, invasiva e criminosa individual de apossar-se mediante força, trapaça ou ato indigno coisas, bens, propriedades, títulos, cargos, função ou atribuição que não lhe é próprio, para o qual não tem nem pode obter dignidade de função, ofício, prerrogativa ou direito. Se exercido por mais de uma pessoa torna-se em associação para o crime).
Jesus falou com publicanos. Jesus falou com pecadores. Jesus falou com meretrizes. Jesus falou com leprosos, com samaritanos e com gentios. Jesus falou até com o diabo e seus demônios. Jesus falou até com os religiosos que tramaram e executaram seu julgamento indigno e também falou com o governador romano, Pilatos, porque eles estavam no lugar que tinham direito de estar.
 Herodes provavelmente desse pouca importância aos brados e acusações dos religiosos contra Jesus. Ele só queria ter sua curiosidade satisfeita – e viu-se frustrado nisso.
Herodes, não tendo satisfeitos os seus interesses, irado, trata Jesus com desprezo, escarnece dele e o devolve a Pilatos (Lc 23.10).
O destino de Herodes Antipas, um homem que teve a oportunidade de aprender com o Senhor e desprezou porque os Herodes tradicionalmente não aceitavam a idéia de nenhuma autoridade sobre eles (Mt 11:28).
Herodes preferiu ficar bem com o governante do mundo (César) e rejeitou se submeter ao Senhor dos senhores, e o fim de sua vida não é nada honroso. Foi derrotado por forças árabes sob o comando de seu e sogro Aretas IV e seus súditos consideravam sua derrota como retribuição divina por seus pecados cometidos (seu casamento irregular com Herodias, o assassinato de João Batista e a rejeição de Jesus).
Em 39 d.C. Herodes Antipas se envolveu em intrigas com seu sobrinho Herodes Agripa I e foi denunciado como conspirador e banido de sua tetrarquia pelo imperador Calígula, sendo exilado na Gália (França) onde morreu algum tempo depois.
Que lições podemos aprender com os erros de Herodes?
Jesus jamais se prestará a joguetes políticos e interesses mesquinhos.
Jesus jamais se prestará a ser animador de auditório satisfazendo curiosidade religiosa ou intelectual.
Jesus jamais satisfará os arrogantes anseios de satisfação do coração e da mente do homem.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

EU VI O SENHOR... VOCÊ VIU?


A história da humanidade está dividida em eras, ou “idades”. Antes mesmo de haver história dizemos haver uma pré-história. E, especialmente na parte que chamamos de histórica os especialistas escolhem datas e eventos que balizam os períodos históricos. É claro que estas escolhas são totalmente arbitrárias, pois nem todo o mundo sofreu mudanças decorrentes, por exemplo, da queda do Império Romano do Ocidente, ou da Tomada de Constantinopla. Mas elas servem de ponto de recorte para quem estuda, e possuem o seu valor.
O profeta Isaías, em determinado momento, precisou de um ‘ponto de recorte’ para ambientar seu chamado e ministério. E ele o faz no capítulo 6 do livro que traz o seu nome:
No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo (Is 6.1).
Isaías destaca um evento extremamente marcante, que teria profundas repercussões na história de Israel e na história de toda a humanidade.
O senso comum nos leva a considerar a morte de Uzias (também conhecido como Azarias) no ano de 740 a.C. como um momento que mexia com todo o povo, após um longo governo de 52 anos. Seu governo piedoso e sábio, embora imperfeito, seu trabalho de reestruturar a economia, a agricultura, a segurança, a educação e o culto em Israel realmente foi impressionante (2Cr 26.1-15).
Quando ele morreu naturalmente o povo olhava em redor procurando um substituto tão capaz quanto ele. Se houve rei que chegou perto de ser equiparado a Davi no coração do povo de Israel como o descendente de Davi foi este (1Rs 13.2), apesar de seu trágico e arrogante erro perto do fim de sua vida (2Cr 26.21).
O profeta Isaías diz que, no tempo do seu chamado, o povo olhava para o trono e esperava que o novo rei lhes garantisse a paz e a prosperidade que gozavam nos dias de Uzias, embora houvesse uma promessa de disciplina de Deus sobre a nação.
Isaías cita o ano da morte do rei, mas o evento mais marcante, o evento que realmente merece ser destacado aqui não é a morte do rei, não é o trono vazio, mas o trono ocupado. Não o trono dos reis de Judá, mas o alto e sublime trono ocupado pelo Senhor. Enquanto Isaías usa uma frase para falar da morte de Uzias, todo o resto do capítulo chama a atenção para o que realmente deve ser digno de nossa atenção.
O trono do universo nunca está vazio, o Senhor nunca deixa de reinar sobre sua criação, nada está sem controle ou governo. O que deve realmente ocupar as mentes e corações do povo de Deus é que o Senhor estava, está e continuará eternamente regendo o seu povo à partir do seu glorioso trono.
Não há nem um momento sequer em que o trono fique vazio e a sua grei sem sua direção e governo. O registro de Isaías é bastante sugestivo: todo o Israel olhava para o rei morto em busca de outro rei, mas se esquecia que os reis de Israel eram apenas servos do Rei de toda a terra, do Senhor dos Exércitos, do Deus que tudo provê para satisfazer as necessidades de seu povo.
Assim como Israel no passado, os brasileiros nesta semana também olharão para uma urna (diferente da de Uzias que era funerária) com uma mistura de esperança e temor. Quem ocupará o trono que Michel Temer em breve deixará vago? E isto importa? Sim, claro que importa. Queremos reis que sejam para bênção e não para disciplina de toda a nação, e que a disciplina seja aplicada sobre todos os homens maus. Oremos para que o Senhor nos dê governantes sábios porque é ele quem remove reis e estabelece reis (Dn 2.21) mas, acima de tudo, não nos esqueçamos de que o Senhor continua assentado no seu alto e sublime trono a reinar sobre toda a terra. Sobre o trono em Brasília se assentará aquele que Ele escolheu. E assim será eternamente.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

MOTIVOS HUMANOS PARA UMA VISITA A JESUS

João 3.1-21

Existem diversos motivos que levam as pessoas a irem a uma Igreja, e até mesmo a uma tentativa de aproximação com Jesus. Nicodemos é um exemplo de homem que tinha um genuíno interesse em Jesus.
Não é necessário duvidar da honestidade de quem entra em uma Igreja e afirma que quer conhecer mais sobre Jesus, ou que quer conhecer a Jesus. Jesus é, realmente, um personagem intrigante, talvez o personagem mais intrigante, mais emblemático e mais enigmático da história da humanidade.
Muitos conviveram com ele e poucos compreenderam alguma coisa dele (Jo 7:12). Até mesmo seus irmãos, que o viram crescer e cresceram junto com ele, tiveram dificuldade para compreender suas ações, pois inicialmente não creram nele (Jo 7.5).
Ao longo dos séculos Jesus tem sido visto como pedagogo, revolucionário, comunista ou um simples enganador (Jo 7:12). Mas quem é Jesus, realmente, é uma intrigante pergunta cuja resposta, mesmo depois de dois séculos, só pode ser respondida corretamente de uma maneira: “Não sei, só sei que ele é o messias de Deus, o Salvador do mundo”.
Antes destes séculos se passarem, um homem quis conhecer a Jesus, e se esforçou para isso, chegando a colocar a sua própria respeitabilidade social em risco por causa disto, pois sabia que seus amigos não apenas não gostavam de Jesus, desconfiavam dele (Jo 12:19) e ainda passaram a planejar matá-lo pouco depois (Jo 5:18), intento de que não desistiriam facilmente, mesmo sendo denunciados pelo próprio Jesus (Jo 8:40).
Seu nome é bastante conhecido, sua história também: Nicodemos, mestre de Israel, respeitado pelos judeus, um dos maiorais de Israel. Nicodemos tinha uma desvantagem, naquele momento: Jesus havia acabado de se manifestar, ainda estava no começo de seu ministério e era, sem dúvida, uma grande interrogação. A seu favor, porém, estava o fato de que ele vivia o que nós apenas ouvimos falar.
O que levaria um homem culto, bem relacionado, influente e politicamente respeitável a procurar Jesus, ainda mais da forma que procurou, de noite, buscando o abrigo da escuridão provavelmente desejando não ser reconhecido - o que certamente lhe causaria problemas entre seus pares do sinédrio? O que Nicodemos queria naquela noite, quando foi procurar Jesus?
Talvez você não tenha sequer imaginado este tipo de pergunta, e talvez você nem mesmo se faça este tipo de pergunta? Qual a sua razão para estar aqui nesta noite? Qual a sua razão para buscar conhecer alguma coisa mais sobre Jesus? O que você quer, qual a sua motivação, afinal?
Nicodemos podia estar à procura de Jesus em busca de satisfação para sua curiosidade. Podia ter várias perguntas em mente, podia ter várias indagações, e, dadas as circunstâncias do período que eles viviam, Nicodemos poderia fazer algumas indagações: 
MOTIVAÇÃO POLÍTICA
Apesar do pouco tempo de ministério Jesus já conseguira o que muitos dos fariseus mais esforçados não conseguiam: uma multidão de seguidores. E seguidores que não se esquivavam de mostrar a sua admiração pelo seu jeito de ser (Mt 9:36), espantados pelos seus feitos que chamavam a atenção e causavam grande espanto (Mt 15:30) e pelo seu ensino, em uma comparação bastante desfavorável para os escribas fariseus, que se consideravam os maiorais da interpretação bíblica (Mc 1:22). A bíblia afirma enfaticamente e por várias vezes que as multidões iam após ele. O que isto significava? O que estava sendo preparado por aquele líder de pobres, de iletrados, de publicanos e pecadores?
Um dos temores dos líderes do sinédrio israelita era que Jesus fosse mais um revoltoso, e se questionavam se ele não seria mais um dos muitos populistas que surgiam de tempos em tempos naquelas regiões esquecidas da Galiléia, naquele canto esquecido do império romano, como o próprio Jesus menciona a respeito de alguns revoltosos que se esconderam na torre de Siloé e foram esmagados quando ela caiu (Lc 13:1-2) e mais tarde o rabino Gamaliel lembraria quando os fariseus quiseram impedir os apóstolos de anunciarem a ressurreição de Jesus (At 5:36-36).
Como não era incomum os profetas se envolverem em questores sócio-políticas, é possível que esta preocupação ocupasse a mente dos fariseus - e Nicodemos é um dentre eles. O próprio João batista ousara denunciar o rei por seu relacionamento com a e por isso foi mandado prender e decapitar (Mc 6:17). Os religiosos já tinham demonstrado esta preocupação quando João Batista começou a pregar e a batizar (Jo 1:22) e insistiram com ele para saber se ele se autoproclamava como um tipo messiânico, como outros já surgidos (Jo 1:25).
Foi exatamente a mesma indagação que foram apresentar ao Senhor Jesus (Lc 22:67), e quando a multidão recebeu Jesus como o rei eles quiseram calar a multidão (Lc 19:37-39) com medo de que os romanos achassem que eles próprios apoiavam alguma forma de insurreição contra o império (Jo 19:21).
Mas é evidente que Nicodemos não aborda este assunto, e pensar em motivação política é um exercício de imaginação porque, embora ele inicie a conversa com Jesus com outro tipo de argumento - O que você veio fazer aqui? Da parte de quem você vem? Que tipo de autoridade você recebeu para fazer estes sinais? Você é, de fato, alguma espécie de profeta enviado por Deus?
Digamos que ainda hoje tem pessoas que se aproximam da Igreja com interesse sócio-políticos. Garanto que não são os melhores nem mais recomendados motivos. 
MOTIVAÇÃO METODOLÓGICA
Como este Jesus, sem educação formal, sem ter estudado em nenhuma das grandes escolas rabínicas da época, consegue arrebanhar multidões desta maneira? Qual é o segredo de seu método? Qual o segredo de sua popularidade?
Como é que ele faz para, não buscando agradar ninguém, como Paulo mais tarde o imitaria (Gl 1:10) e até mesmo dizendo palavras duras tanto para os líderes religiosos (Mt 23:33-34) e, estranhamente, para os seus próprios seguidores, mesmo os mais íntimos (Jo 6:66-70), ainda assim tenha multidões de seguidores?
Como é que pode algo assim - como pode atitudes tão antipopulares até mesmo dentro da própria família (Mt 12:48-49) dar tão certo? Qual o segredo deste homem? Como ele pode conseguir tantos seguidores que nem mesmo os maiores mestres sofistas de seus dias conseguiam?
Como ele conseguia? Como este tal de Jesus conseguia se nem mesmo Gamaliel, o maior mestre rabino de Israel em seus dias, conseguia? Um fenômeno como o de Jesus era inexplicável. E a pergunta de Nicodemos poderia ser a mesma dos seus colegas fariseus: como ele consegue que “o mundo” o siga (Jo 12:19).
Como Jesus, sem educação formal, sem ter frequentado nenhuma escola, sem apoio político, e até mesmo a margem do processo político, vindo de uma região desprezada (Jo 7:40-41) e ao mesmo tempo sem laços conhecidos com os poderosos de seu tempo (Jo 7:42) e até mesmo sem se preocupar com o fato de ter contra si o mais poderoso dentre eles (Lc 13:31-32) podendo, inclusive, ser facilmente acusado de rebeldia contra o império quando aceitou as homenagens populares, entrando em Jerusalém como se fora um rei dos tempos davídicos (Mt 21:9).
Saber como Jesus fazia e conseguir fazer igual seria um trunfo enorme para aqueles religiosos. Eles já se esforçavam para controlar politicamente a nação de Israel, e, se tivessem acesso aos mesmos métodos, ao que eles chamavam de truque metodológico de Jesus (Jo 7:12) então talvez conseguissem controlar mais facilmente os agitadiços judeus e assim obteriam um trunfo nas suas negociações com os romanos.
Como, tendo todas as probabilidades contra si, ele conseguia? Qual era o seu segredo? Qual era o seu método? Como aprender com Jesus e ser tão popular como ele? Ter multidões seguindo-o por todos os lados, ter gente disposta a fazer coisas impossíveis bastando para isso que ele dissesse, como, por exemplo, deixar a segurança de um barco para andar sobre águas revoltas? Qual o segredo de controle de grupo, de domínio de multidões que Jesus porventura possuía? Muitos teólogos e teóricos tentaram encontrar o segredo do método de Jesus, e Nicodemos poderia ter sido apenas o primeiro deles. Mas seria esta a razão certa para procurar Jesus, buscar ser glorificado entre os homens (Jo 12:43)? 
MOTIVAÇÃO INTELECTUAL
O que este Jesus tem ensinado de tão especial? O que ele está ensinando e quais as implicações deste ensino para a nação de Israel? A opinião da multidão sobre o ensino de Jesus e o dos fariseus não era nada abonadora para os fariseus: Jesus ensinava como quem tem autoridade (Mc 1:21-22), isto é, como quem entendia o que estava falando.
Diferente dos escribas e fariseus (dos quais Nicodemos fazia parte) Jesus era capaz de ensinar o que entendia das Escrituras sem se preocupar com o que outros mestres haviam dito ao longo dos séculos, primeiro indo além deles (Lc 6:27-28) e chegando mesmo a ir contra o ensino já consolidado dos costumes rabínicos (Mc 5:31-32).
Nicodemos podia querer descobrir o que este Jesus tinha de tão especial para ensinar, pois já havia algum tempo que ninguém conseguia entender exatamente o que ele queria dizer, desde o dia em que, ainda jovenzinho, se assentara com os doutores da lei e os interrogava (Lc 2:46).
Nicodemos talvez desejasse entender as parábolas que Jesus contava, parábolas que eram proferidas diante de todo o povo mas que Jesus fazia questão de explicar em particular (Mt 13:10-11).
Por exemplo, como entender que tipo de reino era este que Jesus dizia ter se ele próprio não queria ser feito rei (Jo 6:15).
Como entender que tipo de tesouro era este que, para recebe-lo, o pretendente deveria abrir mão de todos os outros tesouros que porventura tivesse acumulado durante toda a sua vida, considerando estes tesouros como coisas de nenhum valor, como mais tarde faria o apóstolo Paulo (Fp 3:8)?
Nicodemos podia desejar ter as explicações que Jesus dava aos seus discípulos porque não queria ficar sem entender (Mt 13:14) embora, de vez em quando, eles entendiam com muita clareza o que Jesus estava ensinando, enfurecendo-se contra ele como quando ele contou a parábola dos lavradores maus (Mt 21:45).
Dê uma lida novamente nas primeiras palavras ditas por Nicodemos a Jesus no v. 2: Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele. Não há definição de assunto, não há uma pergunta, não há nenhuma inquirição específica - parece uma saudação protocolar de uma visita institucional. Ele queria conhecer Jesus, queria satisfazer uma curiosidade que talvez nem ele mesmo soubesse qual era. O que temos de concreto é que ele chama Jesus, duas vezes, de mestre e outras duas de enviado por Deus.
Será que ele tinha consciência do que estava declarando ou era apenas uma tentativa de não ser frontalmente antipático, usando a mesma fórmula usada por outros de seus colegas fariseus (Mc 12:14)?
O que ele não imaginava é que Jesus não veio para satisfazer curiosidade ou sede de conhecimento intelectual - veio para buscar e salvar o perdido, mesmo o religioso perdido, como Nicodemos. 
CONCLUSÃO
Não sabemos quais os pensamentos de Nicodemos. Nem sabemos quais os seus propósitos. Sabemos, entretanto, que ele vai até Jesus às escondidas, à noite - e não é à toa que Jesus diz-lhe no final deste capítulo que as obras dos filhos de Deus devem ser feitas às claras, à luz do dia, e não nas trevas, onde os filhos das trevas fazem suas obras, tramam seus ardis. Nicodemos não era discípulo de Jesus, e por isso se escondia, com medo de ser envergonhado entre os seus amigos por ter procurado a Jesus.
Mas uma coisa é certa, independente do propósito do coração de Nicodemos, temos que levar em conta o propósito do coração de Deus. Jesus veio para buscar e salvar o perdido - e Nicodemos, apesar de profundamente religioso, apesar de respeitado entre seus, não passava de um perdido. Perdido na casa do Pai, perdido entre os afazeres religiosos, mas apenas um perdido, um morto-religioso que precisava nascer de novo.
Conhecendo a história de Nicodemos e o propósito da vinda de Jesus sou levado a considerar uma quarta razão para Nicodemos ter ido procurar a Jesus, mesmo sem ele saber, mesmo sem ele desejar, mesmo sem ele considerar esta hipótese, não há dúvida que Nicodemos foi a Jesus porque o Pai o enviou (Jo 6:44). Jesus é enfático ao afirmar que ir a ele é o resultado de uma concessão da vontade soberana de Deus (Jo 6:65) porque é Deus quem efetua no coração do pecador, perdido, moribundo, morto mesmo o querer e o realizar (Fp 2:13).
Esta é a única razão realmente válida para se buscar a Jesus - o chamado de Deus ao seu coração, mesmo que não se saiba o porque inicialmente, mas aquele que é chamado por Deus vai a ele, busca-o e acha-o (Jr 29:13), e é bom que você o busque agora, enquanto ainda é tempo, enquanto ele ainda se deixa encontrar (Is 55:6).
Porque você está aqui? Em busca de informação? Curiosidade? Quer saber porque certas coisas acontecem na vida dos cristãos ou que vantagens você pode achar? Que saber porque os cristãos enfrentam as provações sem desistirem (2Co 4:8-9) e com a confiança de que, no final, Deus fará com que tudo resulte em benção para seu povo e glória para si mesmo (Rm 8:28). Esta é uma pergunta importante. Mas mais importante ainda é: como você vai sair daqui? Curiosidade satisfeita ou salvo pela fé, por crer no Senhor Jesus e entregar sua vida àquele que conhece o seu coração?

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

SOBRE JUSTIÇA DE DEUS, INJUSTIÇA DOS HOMENS E MALAFAIA

Há muito tempo me posiciono em relação ao ensino do sr. Malafaia, ainda que ele tenha, em algumas ocasiões, posicionamentos que considero acertados. Mas um relógio quebrado acerta a hora pelo menos duas vezes por dia. Como disse, discordo de muitos de seus ensinos e, obviamente, não compartilho com sua atuação midiática, monetarista e política. Nunca estranhei seu envolvimento com políticos e com a política – seu comportamento errático, combatendo para depois apoiar, apoiando para depois combater tornavam claro para os não malafólatras que tudo era mais uma questão de interesse, de favores políticos, de encabrestamento eclesiológico do que, propriamente, reflexo de um posicionamento cidadão cristão amadurecido.
Sempre desestimulei a Igreja a ouvir suas mensagens que tinham muito de psicologia e pouco de exegese e hermenêuticas bíblicas. Lamentavelmente até pastores presbiterianos (se reformados é outra história) incentivavam incautos a consumirem essa água turva. Cada vez mais longe do evangelho, unindo-se a heréticos nacionais e internacionais, apoiando políticos de caráter duvidoso e pedindo votos até para candidatos cujos partidos políticos tinham plataforma declaradamente anti-cristã, eis que surge a notícia inesperada: Polícia Federal bate a sua porta sob a acusação de receber dinheiro desviado de royalties no RJ. Pergunta-se: não seria apenas uma oferta de um membro de uma igreja ou de um amigo do evangelho? Porque não se pergunta também: não seria uma recompensa por relevantes serviços prestados para que o mesmo fizesse declarações em suas pregações, palestras, entrevistas e publicações em favor de determinados candidatos, numa forma de propaganda política sub-reptícia?
Sei que logo os malafólatras vão entrar começar a discordar e os réplicas virão. Incentivo-os a fazerem seus posts em seus perfis. De novo, preciso dizer que não me alegro com a notícia que aparece no noticiário, que, sensacionalista, dirá apenas que "Pastor evangélico fez isso" como se todos nós fizéssemos. O evangelho não ganha nada com isso. Mais uma vez vamos ter que lembrar que nem todos somos da mesma fôrma, vamos perder tempo explicando o que não deveria ser necessário explicar. Ou será que o evangelho ganha? Um som dissonante numa sinfonia estraga a harmonia. Um lobo que cai a máscara faz mais bem ao rebanho que um lobo revestido de pelego de cordeiro.
E se Malafaia for inocente desta acusação. Sem problemas. Muitos cristãos e não cristãos já foram acusados antes e inocentados. Do jeito que a coisa vai ele certamente manterá os seus seguidores, como Estevam e Sônia Hernandes manteve os seus, como Edir Macedo também. Isso não é problema para os fãs. Provavelmente não será problema para suas finanças também. Lembremos o que a Palavra de Deus diz a respeito dos seus fiéis: Ele vela pelos simples (Sl 116:6 - O SENHOR vela pelos simples; achava-me prostrado, e ele me salvou) e fará com que a justiça do justo resplandeça (Sl 37:6 - Fará sobressair a tua justiça como a luz e o teu direito, como o sol ao meio-dia).
E se ele não for inocente? Se assim for, que responda judicialmente pelo que fez. Não vou dizer que ele deve pagar por seus pecados, porque somente Cristo pode fazer isso. Mas que ele responda judicialmente, não se martirize ou alegue que está sendo perseguido porque apoiou este ou aquele candidato (até porque ele já apoiou inimigos feitos amigos e amigos foram feitos inimigos). Neste caso lembro as palavras de Pedro (I Pe 4.15-16 - Não sofra, porém, nenhum de vós como assassino, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se intromete em negócios de outrem; mas, se sofrer como cristão, não se envergonhe disso; antes, glorifique a Deus com esse nome).
O que eu gostaria que acontecesse? Que, no final, ele se provasse inocente. E se dedicasse a pregar o evangelho, apenas o evangelho – e esquecesse as coisas que vão além do evangelho.

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