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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

SEJA RADICAL



A frase "Você é radical" quase sempre dita em tom de reprovação, já foi muito comumente ouvida pelos cristãos evangélicos protestantes... Já foi! E hoje não é mais... Porque? E porque fazer questão de denominar com tantas palavras aqueles que eram, simplesmente, chamados de “crentes”.
Atualmente quase todo mundo se diz evangélico - já vi cartazes convidando para reunião espírita evangélica... Já vi uma placa em São Paulo onde se reuniriam católicos evangélicos... Os mórmons também possuem seu próprio evangelho...
Mas, e os evangélicos denominados protestantes? Eram diferentes, tinham estilo de vida diferente... Seu vestir e comportamento eram perceptivelmente diferentes... Lembro claramente de como agiam e como eram tratados na escola colegas evangélicos protestantes... Não participavam das “festinhas” culturais, tais como carnaval, páscoa, são João, entre outros.
E lá vinha a frase: “Você é muito radical”. Acompanhada de duas outras: “Que que tem?” e “Nada a ver!”
Acredito, entretanto, que seja exatamente isto o que esteja acontecendo. Há muito pouco de cristianismo radical no moderno cristianismo.
O desafio para os cristãos do sec. XXI é serem cristãos radicais.
Ora, como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele, nele radicados, e edificados, e confirmados na fé, tal como fostes instruídos, crescendo em ações de graças. Cl 2.6-7
Quando vejo o cristianismo do fim do século XX e início do XXI me pergunto: este é o cristianismo radicado em Cristo? Ou é um cristianismo adulterado, sempre em busca de novidade a ponto de uma “celebridade” gospel convocar seus celebritetes (seguidores de celebridades) para uma noite de louca cheiração da Bíblia... Vou ficar apenas neste exemplo para não dar cartaz a quem não merece.
Minha indagação é: Jesus faria tal convite? Ele aceitaria tal convite? Ou adentraria em tal lugar e lhes derrubaria as mesas dizendo-lhes que estavam absolutamente errados por não conhecerem as Escrituras?
Não precisamos viver correndo atrás de novidades nem de coisas maravilhosas - precisamos apenas estar radicados em Cristo, e, radicados nele, vivermos o amor de Deus e mútuo.
Seja radical!
Ser radical faz bem. Ser um cristão radical significa não ter a mente formatada pelo presente século [Rm 12.2] mas deixar-se guiar pelo Espírito do Senhor (Rm 8.14), ter a mente de Cristo (I Co 2.16).
Não sabe como ser radical? A receita está nas Escrituras - na dúvida, não é porque todos estão fazendo que é o certo, mas talvez seja o oposto, o que  é certo esteja justamente naquilo que poucos querem fazer.  
Seja radical!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

COMO SER (VERDADEIRAMENTE) CRISTÃO NUM MUNDO PSEUDOCRISTÃO

 COMO SER (VERDADEIRAMENTE) CRISTÃO NUM MUNDO PSEUDOCRISTÃO

1 Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos eleitos de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade, 2 na esperança da vida eterna que o Deus que não pode mentir prometeu antes dos tempos eternos 3 e, em tempos devidos, manifestou a sua palavra mediante a pregação que me foi confiada por mandato de Deus, nosso Salvador, 4 a Tito, verdadeiro filho, segundo a fé comum, graça e paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Salvador
Tt 1.1-4 

COMO SER CRISTÃO NUM MUNDO PSEUDOCRISTÃO

Talvez nem todos os filhos, alunos ou profissionais tenham passado por esta experiência, mas, se você não passou, então imagine-se recebendo um chamado para apresentar-se perante seus pais, ou diretores da escola, ou superiores hierárquicos, sem ter a menor noção do que será tratado. Imagine a cena se desenrolando e, quando você se apresenta perguntando “Chamou?” ouvir de volta um “Sim, chamei, sente-se!”… a seguir, um período de silêncio onde você não quer nem pensar com medo de ter seus pensamentos ouvidos. Que fazer? Pernas são cruzadas, dedos entrelaçados…
Vamos imaginar uma segunda cena: uma multidão convocada, como um exército, colocada diante de um equipamento de guerra e… e nada. Sem saber quando lutar, ou contra quem lutar, quais armas usar, como usar as armas que tem à disposição. Sem tática, sem estratégia, sem direção…
Este quadro retrata o estado de muitos dentro da Igreja e de boa parte da Igreja contemporânea. Não desejo questionar quem ouviu ou não o chamado do Senhor, até porque este chamado é interno, é espiritual – somente o Senhor e o crente tem ciência de que foi efetivamente chamado (Jo 10:27). Se perguntados para que foram chamados muitos ficariam na mesma situação daqueles chamados na sala da diretoria ou da chefia – e talvez usassem frases bonitas mas, no fundo, vazias de propósito, tais como: fomos chamados para glorificar a Deus, ou para adorá-lo, ou ainda citariam versos bíblicos que falam de santidade (Rm 1.6-7) e espiritualidade (I Pe 2:9).
Se insistirmos e perguntarmos… ok, fomos chamados para glorificar a Deus, para servi-lo, para adorá-lo, para sermos santos e proclamarmos as suas virtudes, mas como, isto é, de que maneira podemos fazer isso, ou, ainda mais especificamente, de que maneira você tem feito isso talvez muitos viessem a se sentir como alunos que fizeram algumas artes e ouvem a pergunta: “O que você fez?” mas sem especificar a qual arte estava se referindo… Este com certeza é um dos grandes problemas do nosso cristianismo: como ser efetivamente cristão num mundo pseudocristão… não vivemos num mundo pós-cristão simplesmente porque, embora boa parte do mundo tenha virado as costas para o cristianismo será o mundo quem passará, não as palavras do Senhor Jesus (Lc 21:33). Como ser cristão num mundo pseudocristão? Esta é a nossa indagação. Esta é a nossa pergunta desta noite e é para esta pergunta que vamos voltar os nossos olhos para as Escrituras e ver o que o Espírito tem a nos dizer por intermédio dos escritos do apóstolo Paulo.

CRISTÃOS NÃO SE SATISFAZEM COM RELIGIOSIDADE

É certo que muitos cristãos estão absolutamente satisfeitos com a sua religião. Ela supre as suas carências superficiais de relacionamentos “santos” num ambiente onde todos parecem se preocupar com o bem coletivo da humanidade. As cerimônias religiosas satisfazem os olhos e os ouvidos e podem até mesmo satisfazer as suas consciências pois, afinal: foram à Igreja (cumpriram o dever de congregar - Hb 10:25); cantaram alguns hinos e cânticos (cumpriram o dever louvar - Sl 100:2); entregaram dízimos e ofertaram (cumpriram o dever de contribuir - II Co 9:7); participaram da ceia (não negligenciaram os sacramentos - I Co 10:16) e até falam que Jesus morreu para salvar pecadores (cumpriram o dever de evangelizar, especialmente se for longe de casa - Mc 16:15 - E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura).

A MERA RELIGIOSIDADE NÃO FORNECE SATISFAÇÃO AO CRISTÃO

Paulo era alguém exatamente assim – estava absolutamente satisfeito com sua religião e se sobressaía em sua religiosidade (Gl 1:14) mas seus esforços demonstravam que ele ainda não havia atingido a satisfação religiosa que desejava. Até que sua vida teve uma forte guinada no caminho de Damasco. De alguém que respirava ameaças de morte (At 9:1) passa a ser apenas um instrumento para que o Senhor o usasse como melhor lhe conviesse (Gl 2:20) considerando, ao final, que, se viver é bom, morrer para estar com Cristo é lucro (Fp 1:21) e incomparavelmente melhor (Fp 1:23).

O CRISTÃO NÃO DEIXA DE FAZER DISCÍPULOS

Num determinado momento de seu ministério Paulo chega a conclusão de que sua tarefa está chegando ao fim, afirmando ter combatido o bom combate, completado a carreira e guardado a fé (II Tm 4:7) chegando, então, o momento de passar o bastão (II Tm 2:2). E Paulo conta com diversos auxiliares devidamente treinados, dentre eles Timóteo e, no caso que vamos estudar, Tito, jovem leal à causa do evangelho, disposto a ser enviado em comissões difíceis e gozando da confiança de Paulo, a quem tinha em elevado conceito e respeito. Não sabemos sua origem, mas seu nome aparece treze vezes nos escritos de Paulo e provavelmente esteja presente em outras menções (cp. At 15.2  com Gl 2.1-3). Tito foi a “pedra” que provocou a decisão em favor dos gentios convertidos, pois sendo grego Paulo não aceitou que fosse circuncidado (Gl 2.5) e a Igreja finalmente admitiu que os gentios fossem recebidos na Igreja sem a necessidade de passar pela circuncisão ou de guardarem a lei judaica (At 15.13-29).
Mais tarde Tito foi o encarregado de solucionar, sob a orientação escrita de Paulo, a questão coríntia com resultados animadores (II Co 7:13-14) devido à sua firmeza no trabalho que lhe fora imposto (Tt 2:15).
Paulo, Timóteo, Tito e os demais cristãos do sec. I não estavam (nem podiam) satisfazer-se com nada menos do que a verdadeira fé cristã. Eles viviam num mundo pagão – tão pagão quanto o mundo que vivemos hoje, embora tenham mudado o nome do seu “deus de mistério” (de Mitra para “outro” Jesus) e do seu panteão (Júpiter, Juno e os semideuses deram lugar a uma Maria não bíblica e muitos “santos”).
Leis e costumes podiam ser diferentes, mas o coração e os anseios do coração dos homens não sofreram qualquer mudança nestes dois milênios. O mundo continua cheio de religiosidade – e as Igrejas, como os templos, estão cheias de gente que tem na religiosidade um costume que traz conforto emocional mas que não responde ao anseio mais profundo de seu coração, não dá a resposta para a pergunta “porque estou aqui, fazendo isto?” como eu posso, afinal, ser mais que um pseudocristão neste mundo?
Mas, se o mundo pseudocristão não oferece estas respostas, eu creio que as Escrituras oferecem, e o Espírito no-las dá por meio dos escritos paulinos. Vamos a elas. Podemos afirmar que:

O CRISTÃO TEM CONSCIÊNCIA DA ORIGEM DE SEU CHAMADO

1 Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos eleitos de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade, 2 na esperança da vida eterna que o Deus que não pode mentir prometeu antes dos tempos eternos 3 e, em tempos devidos, manifestou a sua palavra mediante a pregação que me foi confiada por mandato de Deus, nosso Salvador, 4 a Tito, verdadeiro filho, segundo a fé comum, graça e paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Salvador

Quase que invariavelmente Paulo se apresenta da mesma maneira – uma maneira comum em seus dias, mas que, também, atesta a consciência de quem ele havia sido tornado (I Co 15:10). É impressionante a transformação de um arrogante judeu que não admitia ser escravo de ninguém (Jo 8:33) para a maneira de Paulo se apresentar.
Ele nada mais era que um servo. Um servo com uma missão, um embaixador, mas, ainda assim e por isso mesmo, um servo que conhecia ao seu Senhor e tinha consciência de a quem devia a sua obediência e prestação de contas (Gl 1:10).
Mais do que um servo, Paulo sabia ser um servo com uma missão – e sua missão era fazer a vontade daquele que o arregimentou (II Tm 2:4). Considerar-se um apóstolo era, ao mesmo tempo, considerar-se ao vocacionado quanto Pedro, Tiago e João (Lc 6:13) porque fora chamado pelo mesmo Senhor (I Co 9:1), mesmo que seu chamado tivesse ocorrido de maneira diferente e ele mesmo se considerava como um “nascido fora do tempo” (I Co 15:8).
A base de seu apostolado estava no fato de ter, assim como “os doze”, visto a Cristo, sido ensinado e vocacionado pelo próprio Cristo (Gl 1:12) e não na sua vontade pessoal como ele faz questão de afirmar três vezes em suas cartas (II Tm 1:1– veja também I Co 1.1; II Co 1.1).
A convicção de chamado de Paulo para o apostolado, isto é, para ser enviado por Jesus como apóstolo, especialmente para os gentios (Ef 3:8) estava no fato de ter sido chamado pelo próprio Cristo e de ter visto a Cristo, diferente daqueles que a si mesmo se declaram apóstolos e não são, muito pelo contrário, tem sido, um após outro, encontrados mentirosos (Ap 2:2).
No contexto em que Paulo escreveu, ele deixa intrínseca a ideia de que se sentia como um cidadão convocado pelo seu imperador para desempenhar uma função e missão de máxima importância – ser um ministro de seu Senhor. É diferente de hoje, quando uma pessoa pode ser convocada para ser, por exemplo, ministro da economia e, dada a confiabilidade do governante, dizer não. Não era assim que Paulo se sentia – para ele o Senhor tinha autoridade absoluta – e ele tinha obrigação de obediência absoluta.
Além de afirmar que o verdadeiro cristão tem consciência da origem do seu chamado, podemos afirmar, ainda que

O CRISTÃO TEM CONSCIÊNCIA DO PROPÓSITO DO SEU CHAMADO

1 Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos eleitos de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade, 2 na esperança da vida eterna que o Deus que não pode mentir prometeu antes dos tempos eternos 3 e, em tempos devidos, manifestou a sua palavra mediante a pregação que me foi confiada por mandato de Deus, nosso Salvador, 4 a Tito, verdadeiro filho, segundo a fé comum, graça e paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Salvador
O primeiro e fundamental passo para o cristão em sua vida espiritual é saber quem ele agora é: um pecador, resgatado de seu pecado e comissionado por Deus sem o direito de optar por dizer ao seu chamado. Paulo se apresenta como servo e apóstolo – identidade clara e comissionamento definido. Agora ele vai detalhar o propósito do seu chamado. Pouco importa se entre judeus ou gentios, o propósito é o mesmo.
Paulo afirma que o propósito do seu chamado é duplo.
Em primeiro lugar ele foi chamado para promover a fé. Antes que possamos imaginar que qualquer fé serve, Paulo nos esclarece que somente a fé que é dos eleitos de Deus deve ser promovida. Para que os eleitos de Deus (provavelmente referindo-se aos gentios - At 18.6) chegassem ao conhecimento da verdade e obtivessem a salvação Paulo tinha seu coração plenamente compungido (II Tm 2:10).
A fé que é dos eleitos de Deus é não apenas um distintivo, uma inclinação espiritual que caracteriza aqueles que são designados para a salvação mas é, também, aquilo que lhe proporciona a salvação, pois é pela fé que os eleitos são salvos (Gl 3:8).
Em segundo lugar Paulo afirma ter sido chamado para promover o pleno conhecimento da verdade. Ele faz esta afirmação num contexto cultural no qual os filósofos gregos vinham tentando encontrá-la a séculos. Aristóteles, Platão, Atenágoras, Sócrates e muitos outros filósofos empreenderam todos os seus esforços e não conseguiram responder à pergunta feita por Pilatos (Jo 18:38), mesmo diante daquele que é própria verdade (Jo 14:6). O problema nunca foi a existência da verdade – e alguns diziam que ela não podia ser encontrada, da mesma maneira que os relativistas de nossos dias afirmam não haver verdade. O problema não é a inexistência ou inacessibilidade da verdade – o problema é a recusa em conhecê-lo (Jo 8:32) e obter a libertação da cegueira em que se encontram (Jo 8:36).
Este conhecimento, porém, não é meramente especulativo, como queriam os gregos, ou como querem muitos ainda hoje – este conhecimento é segundo a piedade, e tudo quanto é necessário para a piedade nos é dado por intermédio de Cristo (II Pe 1:3), proporcionando a experiência de receber aquilo que fora prometido e agora, na plenitude dos tempos, fora entregue por intermédio de Cristo Jesus (Tt 2.11-14).
Além de afirmar que o verdadeiro cristão tem consciência da origem do seu chamado e conhece o propósito de ter sido chamado, podemos afirmar, finalmente, que

O CRISTÃO TEM CONSCIÊNCIA DOS RESULTADOS DO SEU CHAMADO

1 Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos eleitos de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade, 2 na esperança da vida eterna que o Deus que não pode mentir prometeu antes dos tempos eternos 3 e, em tempos devidos, manifestou a sua palavra mediante a pregação que me foi confiada por mandato de Deus, nosso Salvador, 4 a Tito, verdadeiro filho, segundo a fé comum, graça e paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Salvador
Já sabemos que o primeiro passo para o cristão é saber quem ele é e qual o seu chamado. O segundo é saber qual o propósito deste chamado, promovendo, de maneira obediente, o conhecimento da verdade que é essencial para todos os pecadores: a salvação que só pode ser obtida em Cristo Jesus – somente ele é a manifestação da graça de Deus.
Assim como Paulo experimentou no momento apropriado a graça redentora de Deus, ele também desejava que outros experimentassem esta mesma graça – e, dentre muitos, ele também encontrou Tito e, mediante a pregação que lhe fora confiada levou Tito ao conhecimento do redentor. E conhecer ao redentor produz alguns frutos.
O primeiro destes frutos é que aquele que antes era inimigo de Deus é feito, por intermédio da graça redentora de Cristo, seu amigo. O inimigo, sem Deus (Ef 2:12), é reconciliado com Deus (Rm 5:10).
Pela graça de Deus o pecador experimenta paz com Deus, mas uma paz essencialmente diferente daquela que o mundo é capaz de oferecer (Jo 14:27). Paz inabalável, um dom que somente Cristo pode dar.
O segundo destes frutos é a transformação da natureza do pecador. Quem crê em Cristo é feito nova criatura (II Co 5:17). Uma destas mudanças é em relação à filiação. Antes de Cristo o pecador é filho da ira (Ef 2:3), mas, quando crê em Deus, é feito filho de Deus (Jo 1:12), recebe o seu Espírito que os guia de maneira a agirem segundo esta nova natureza (Rm 8:14), numa filiação que não é a da carne, mas do Espírito, de acordo com a promessa anteriormente mencionada por Paulo (Rm 9:8) mediante a fé em Jesus Cristo (Rm 9:8).
Por fim, não é possível falar dos resultados do conhecimento do salvador sem falar naquilo que ele nos deu – salvação. Jesus afirma que sua missão foi buscar e salvar o perdido (Lc 19:10). Cristo não é apenas o salvador do mundo (I Jo 4:14) mas, principalmente, o salvador de pecadores que se reconhecem como tais e carecem de um salvador (I Tm 1:15).
Além de afirmar que o verdadeiro cristão tem consciência da origem do seu chamado e conhece o propósito de ter sido chamado e ter consciência do propósito do seu chamado só nos resta concluir que

O VERDADEIRO CRISTÃO CUMPRE O SEU CHAMADO

1 Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos eleitos de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade, 2 na esperança da vida eterna que o Deus que não pode mentir prometeu antes dos tempos eternos 3 e, em tempos devidos, manifestou a sua palavra mediante a pregação que me foi confiada por mandato de Deus, nosso Salvador, 4 a Tito, verdadeiro filho, segundo a fé comum, graça e paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Salvador
É evidente que não existem mais apóstolos, como Paulo, Pedro, Tiago e João o foram. Esta designação é exclusiva para aqueles que viram a Jesus, inclusive a Paulo, embora ele o tenha visto após a sua ascensão. Também sabemos que qualquer um que se chamar de apóstolo hoje é um embusteiro (Ap 2:2).
Mas é evidente também que, independente do apostolado, um cristão verdadeiro tem que ter absoluta consciência de que foi chamado pelo seu Senhor, porque, se não o foi, então não é cristão (I Tm 6:12). Um cristão de verdade tem que ter ouvido o chamado do Senhor, porque suas ovelhas ouvem a sua voz (Jo 10:27) e só assim alguém pode ser feito ovelha do Senhor Jesus.
Mas… e isto é um problema… mas… mas certamente há cristãos que não sabem para o que foram chamados. São cristãos que querem experimentar os efeitos do chamado – e efetivamente os experimentam. Experimentam a graça que lhes traz paz – e isto é muito bom. E se você não é cristão você está perdendo algo maravilhoso. Está perdendo a maravilha de experimentar a paz com Deus, deixar de ser inimigo de Deus, gozar da bênção de estar em comunhão com o Pai celeste. E isto é realmente maravilhoso.
Muitos cristãos que ouviram o chamado do Senhor também experimentam uma mudança radical – deixam de serem filhos da ira (por méritos) para serem tornados filhos de Deus (pela graça deste mesmo Deus em Cristo Jesus). Se você ainda não é Filho de Deus você está em uma condição, mesmo inconsciente, de terrível perigo. Mas é possível que esta seja a sua oportunidade pois você ainda está ouvindo o maravilhoso convite da graça de Deus (Is 55:6).
Muitos cristãos que ouviram o chamado do Senhor puderam receber de suas mãos a dádiva da salvação. E é bom que lembremos que não poderiam encontrá-la em nenhum outro lugar, porque só em Jesus há salvador (At 4:12) e não há salvação em ninguém mais (Is 43:11).
Mas… quantos cristãos que já experimentaram a graça salvadora e foram tornados filhos de Deus ainda não se encontram na situação de soldados sem ordens, de alunos na antessala da diretoria sem saber para o que foram chamados? Quantos cristãos ainda não entenderam que já foram enviados (Jo 20:21)… que já receberam o comissionamento de serem sal e luz… de resplandecerem em meio às trevas (Mt 5:16)… de proclamarem as virtudes daquele que os retirou das trevas para a sua maravilhosa luz (I Pe 2:9).
Você foi chamado para conhecer e para experimentar. E isto é muito bom. Mas você também foi chamado para aproveitar sabiamente as oportunidades (Cl 4:5) e levar a outros o mesmo conhecimento esperando que Deus lhes conceda a mesma experiência de salvação, filiação e paz mediante a graça revelada por intermédio de Jesus Cristo.
Não há a menor dúvida de que você também, assim como os apóstolos, como cristão que é, como discípulo do Senhor Jesus, foi chamado para promover a fé, a verdadeira fé, a única fé que deve ser promovida – a fé que é abraçada pelos santos e que é dada por Deus para que pecadores se tornem santos, isto é, se separados pela graça de Deus para a salvação. Se você não proclama as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz você está sendo omisso, está pecado por omissão, por falta de ação. Está cometendo o pecado não colocar-se ao lado de Jesus na seara (Mt 9:38) esquecendo-se de que quem não é pelo Senhor é contra ele (Lc 11:23).
Se você se julga cristão e não tem disposição para contribuir ser o bom perfume de Cristo (II Co 2:15) e tornar o nome de Cristo conhecido, então, há algo de terrivelmente errado com a sua fé. Que espécie de fé é aquela que não se expressa em comunhão, que não se expressa em adoração, que não se expressa em fidelidade. Como alguém consegue acreditar que é cristão se não tem atitudes cristãs, se não tem valores cristãos, se não congrega nem contribui para a expansão do conhecimento de Deus entre os homens? Como alguém pode se olhar no espelho e considerar-se um bom cristão se é omisso, relaxado e desinteressado, egoísta e roubador (Tg 1:22)?
Também não há dúvida de que, como cristão que é, como discípulo do Senhor Jesus, você também foi chamado para promover o pleno conhecimento da verdade. O apóstolo Paulo tem especial apreço pela plenitude do conhecimento (tanto que Paulo sua esta expressão 13 vezes) todas relacionadas à realização do propósito de Deus, desde o reconhecimento de que é pecador (Rm 3:20) até o ardente desejo pela glorificação (Ef 4:13).
Deixe-me dizer isto de outra maneira – o cristão é vocacionado para dar a todos a razão da esperança que carrega no coração (I Pe 3:15) e isto implica em dizer que sabe que é um pecador (Rm 3:10) e que merece a condenação (Rm 6:23), mas que Deus providenciou um meio de transformar o pecador condenado à perdição em filho destinado à glorificação através da doação de seu filho, Jesus Cristo (Ef 1:6) – de modo que todo aquele que nele crê recebe a salvação, recebe a vida eterna (Jo 6:40).
Se você quer realmente ser um cristão num mundo pseudocristão você precisa ter pleno conhecimento de seu chamado. Você precisa saber quem é, por quem você foi chamado e para que você foi chamado. Você só poderá ser aquilo que você foi convocado para ser se tiver pleno conhecimento de sua identidade. Para você ser cristão num mundo pseudocrístão você precisa saber o que é ser cristão – e ser cristão é mais do que ser membro comungante de uma Igreja. Ser cristão é mais do que ser frequentador de uma Igreja. Ser cristão é mais do que vestir uma camiseta com o nome de uma denominação.
Ser cristão é estar disposto a proclamar as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz mesmo quando só há trevas em redor e estas mesmas trevas odeiem com ódio infernal (Jo 15:18) aquele que é a própria luz (Jo 9:5) e também aquele que é portador desta luz (Mt 5:14).
Deixe-me dizer-te isto de outra maneira – não há como ser mais ou menos cristão. Ou se é cristão ou se é, apenas, pseudocrístão, podendo até ser profundamente religioso mas, ainda assim, não ser plenamente discípulo de Jesus Cristo, e na melhor das hipóteses ser, ainda, necessitados de crescimento espiritual.
Deixe-me dizer-te de uma outra maneira – se você quer ser mais do que um pseudocrístão ou um simples ouvinte (Tg 1:22 -) então você precisa saber quem é, quem te chamou e para que você foi chamado – e este chamado não é apenas para ser abençoado, mas para ser bênção, como Abraão foi chamado para ser bênção para todas as famílias da terra (Gn 12:3).
Vai, então, e sê tu uma bênção.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

SEUS ALVOS, SEU DESTINO


ONDE VOCÊ MANTÉM OS SEUS OLHOS DETERMINA ONDE VOCÊ CHEGARÁ

É bem conhecida a frase que diz que quem não sabe onde quer chegar jamais saberá se chegou – mesmo que chegue a algum lugar. Muitos estão entrando e saindo das Igrejas sem saber exatamente o que estão procurando – e inevitavelmente jamais permanecerão porque não saberão o que precisam, mesmo se for colocado bem à sua frente. É como um daltônico procurando por uma bolinha vermelha numa piscina de bolinhas multicoloridas.
A maioria das pessoas tem alvos na vida. Alvos pessoais, familiares, profissionais. Muitos estabelecem metas e lutam por cumpri-las, e há também os que, mesmo tendo alvos, se limitam a lamentar não tê-los alcançado porque, na maioria das vezes, não buscou alcançá-los.
Se de repente alguém lhe pedisse para elaborar uma lista de seus alvos em sua vida cristã, quais seriam os seus alvos espirituais? Seria uma lista genérica como "adorar mais a Deus", "servir mais na Igreja" ou tem algo específico, palpável? Você poderia até usar o "adorar mais a Deus" como um título, mas a pergunta é: como você faria isso? Quais os seus alvos? Onde você quer chegar mesmo?
Paulo sabia exatamente onde queria chegar – e testemunha isto em sua carta aos Filipenses – talvez a sua última carta escrita para uma igreja, e justamente para a primeira igreja que nascera de seu ministério em solo europeu.
3.12 Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus.
13 Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, 14 prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.
15 Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este sentimento; e, se, porventura, pensais doutro modo, também isto Deus vos esclarecerá. 16 Todavia, andemos de acordo com o que já alcançamos.
17 Irmãos, sede imitadores meus e observai os que andam segundo o modelo que tendes em nós. 18 Pois muitos andam entre nós, dos quais, repetidas vezes, eu vos dizia e, agora, vos digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo. 19 O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia, visto que só se preocupam com as coisas terrenas. 20 Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, 21 o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas.
4.1 Portanto, meus irmãos, amados e mui saudosos, minha alegria e coroa, sim, amados, permanecei, deste modo, firmes no Senhor.
Fp 3.12-21; 4.1

O ALVO DO CRISTÃO DEVE SER ALCANÇAR A QUALQUER CUSTO A SANTIFICAÇÃO

3.12 Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus.
3.13 Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão,
3.14 prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.
É óbvio que não somos cristãos apenas para esta vida. Nossa esperança vai muito além do que podemos ver e perceber – do contrário, seriamos os mais infelizes dentre os homens (I Co 15:19) porque deixaríamos de usufruir os prazeres transitórios do pecado (Hb 11:25) sem, no entanto, ter a recompensa eterna (Mt 25:21).
Paulo afirma aos filipenses que ele sabia de maneira absolutamente clara que ele, até aquele momento, até aquele dia, ainda não havia ousado julgar-se a si mesmo como portador do direito de se chamar perfeito. Lembremos que Paulo estava na prisão e condenado à morte – ao escrever este texto ele não sabia se tinha horas, dias, semanas ou meses de vida, provavelmente sua expectativa se limitasse a dias ou, no máximo, semanas (Fp 2:17). Nesta mesma época ele escreveu outra carta, a Timóteo, seu filho na fé, um jovem pastor que deveria continuar seu ministério sem as orientações de seu mentor (II Tm 4:6).
Este Paulo, o maior missionário que a Igreja viu, o homem que, sem os recursos modernos que temos à nossa disposição, evangelizou toda a Ásia Menor (Rm 15:19) e alcançou, inclusive, a Europa, desejando evangelizar também a península ibérica; esse Paulo não ousa tomar para si o direito [lambanw] de chamar-se perfeito, completo [teleiow]. Ele não fora tornado perfeito, ele não se tornara perfeito. Pelo contrário, mesmo em seus últimos dias Paulo continua a perseguir de maneira insistente e ansiosa [diwkw] para alcançar as metas de Deus, para ser o que Deus queria que ele fosse, e alcançar o padrão [katalambanw] que agradaria aquele que o comprou: Jesus Cristo.
Paulo não acredita ser maior ou melhor que os demais cristãos – e nem precisa disso, embora soubesse que havia feito um trabalho notável pela graça de Deus (I Co 15:10), e por isso irmana-se a eles chamando-os de irmãos [adelfoj] que estão na mesma situação espiritual e lhes diz: eu mesmo não tenho em conta a mim mesmo como já tendo alcançado [logizomai] o propósito de Deus [katalambanw]. O que fazer, então? Paulo tinha a resposta em sua própria experiência de vida com Deus. Ele olhou para seu passado e libertou-se dele:
I.                   Ele tinha muitos motivos para considerar-se mais justo que os homens, e por isso, acreditar que não necessitava da graça de Deus, mas, ao conhecer Jesus, ele diz que considerou tudo isto como esterco por causa da sublimidade de ser encontrado em Cristo (Fp 3:8);
II.                Por outro lado, Paulo tinha motivos para desesperar-se e acreditar-se indigno do perdão por que fora capaz de cometer crimes hediondos, como blasfêmia, perseguidor da Igreja, insolente – mas ele não se desespera, pois conheceu a Cristo e recebeu dele o perdão (I Tm 1:16).
Paulo diz que, por causa de Cristo, ele cometia uma santa e desejável negligência [epilanqanomai]: ele descuida completamente das coisas que devem ser deixadas para trás [opisw] e, ao mesmo tempo, impulsiona-se para a frente, para as coisas eternas, que estão adiante dele. Paulo usa uma expressão dos jogos greco-romanos: ele diz que se estica, se impulsiona como uma flecha num arco [epekteinomai] para ir o mais rapidamente para a frente, para as coisas que Deus colocou diante dele [emprosqen]. E o faz como sua grande prioridade, perseguindo, prosseguindo insistentemente [dowkw] para a marca que estava distante, diante de seus olhos, na qual havia um observador para ver se o corredor realmente cruzara a linha de chegada [skopoj] e o fazia para obter a recompensa [brabeion] superior, a recompensa de quem cumpre um chamado, um mandato superior, uma convocação de [klhsij] de quem está acima de tudo e de todos: o chamado [klhsij] é do próprio Deus, através de Cristo Jesus.

O ALVO DO CRISTÃO DEVE SER PROSSEGUIR EM SANTIFICAÇÃO

3.15 Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este sentimento; e, se, porventura, pensais doutro modo, também isto Deus vos esclarecerá.
3.16 Todavia, andemos de acordo com o que já alcançamos.
A conhecida orientação apostólica para os crentes no sentido de seguirem a paz e a santificação como requisitos fundamentais para se ver ao Senhor (Hb 12:14) deve ser colocada como divisa para cada cristão que deseja, de fato, ver a Deus.
Alguns comentaristas veem Paulo usando de ironia neste verso, entretanto, Paulo está asseverando que o conhecimento [fronew] perfeito [teleioj] da verdade de Deus leva o cristão a entender, a estar convicto [fronew] de que não é perfeito. É como ele estivesse fazendo um jogo de palavras – quando o crente compreende que não é perfeito, ele está começando a compreender. Quando necessário Paulo usava palavras duras, mas não era o caso com os filipenses. Ainda que houvesse necessidade de instrução, esta não requeria um tratamento como receberam as Igrejas de Corinto e da Galácia.
Não há necessidade de debates teológicos (I Co 11:16) – e se houvesse algum cristão em Filipos que pensasse diferente [eteroj] de Paulo que acreditasse ser desnecessário prosseguir em santificação, que achasse já ter atingido o ponto máximo em sua espiritualidade Paulo esperava que aquele que conduz a toda a verdade (Jo 16:13) esclarecesse uma eventual divergência.
Paulo em momento algum admite que ele precise de instrução ou de uma mudança de pensamento. Paulo falava com autoridade apostólica, e aguardava que o Senhor lhes manifestasse a verdade, literalmente, tirasse o véu que porventura lhes estivesse colocado ou sobre os olhos, ou sobre o assunto [apokaluptw].
Discussões à parte, o fato é que a Igreja não pode parar, não pode estacionar enquanto o mundo segue sua jornada. Concordando ou discordando com Paulo os filipenses deveriam, sem perder tempo [plhn], continuar andando [stoixew] como soldados que avançam em linha reta, para o que os precede, distante, mas ao menos ao alcance da vista [fqanw].
Avancemos, convoca-os Paulo, de acordo com o conhecimento obtido, isto é, perfeitamente cientes de que ainda não alcançaram a perfeição. Todos conhecem o alvo, todos conhecem a necessidade de lá chegar, por isso não podem parar sob hipótese alguma.

O ALVO DO CRISTÃO DEVE SER SERVIR COMO BOM DISCÍPULO

3.17 Irmãos, sede imitadores meus e observai os que andam segundo o modelo que tendes em nós.
3.18 Pois muitos andam entre nós, dos quais, repetidas vezes, eu vos dizia e, agora, vos digo, até chorando, que são inimigos da cruz, são hostis [exqroj] a Cristo.
3.19 O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia, visto que só se preocupam com as coisas terrenas.
Da mesma maneira que Paulo havia dito aos Coríntios que eles só podiam ter um pai em Cristo (I Co 4:15) se quisesse ele poderia ter dito o mesmo aos filipenses – mas, mais uma vez, não era necessário. Em Corinto havia disputas tolas sobre quem seria autoridade sobre aquela Igreja (I Co 1:12). Como pai, apóstolo, Paulo se oferece aos filipenses como o modelo a ser seguido naquilo que ele havia conseguido seguir a Cristo.
Os filipenses, a quem Paulo chama de irmãos, de companheiros de afetos e de fé [adelfoj] deviam ser tal como ele era [ginomai], deveriam se tornar imitadores [summimhthj mou] de Paulo no andar, isto é, no que ele fizera entre eles, deveriam ser cuidadosos observando atentamente [skopew] para agirem da mesma forma, na mesma medida que observaram em Paulo.
Se Paulo convocava os filipenses a andarem como soldados, em linha reta, para a frente, e insistia que eles deveriam andar como ele, Paulo, lhes mostrara, por outro lado, havia muitos que andavam no meio da Igreja, vagarosamente e sem rumo definido, aproveitando as oportunidades [peripatew] para criar dificuldades ou obterem vantagens sobre a Igreja.
Sobre estes Paulo já lhes havia advertido repetidas [pollakij] vezes – se eles se deixassem enganar não seria por falta de instrução, aliás, este não parecia ser o problema dos perfeitos. Eles foram advertidos, foram ensinados, aconselhados, exortados com grande ênfase e sentimento. Por causa destes Paulo chegava a lamentar, a chorar como quem chora por mortos [klaiw]porque eles eram inimigos e hostis ao Senhor Jesus Cristo.
Mas mesmo quem anda sem rumo acaba chegando a algum destino [teloj], e o destino dos inimigos da cruz de Cristo é a perdição, a destruição e a miséria eternas [apoleia] no inferno. Eles não têm o salvador (Ef 2:12), escolheram servir a si mesmos, aos seus próprios desejos. Seu Deus é o seu próprio ventre [koilia], literalmente a parte inferior da barriga onde fica o excremento.
Aquilo que consideram sua glória [doca] na verdade é desonra [aisxunh], é infâmia e não obterão a gloria eterna porque direcionam sua mente [fronew] somente para coisas terrenas [epigeioj], ao contrário da sabedoria divina (Tg 3:15).


O ALVO DO CRISTÃO DEVE SER A PÁTRIA CELESTE

3.20 Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo,
3.21 o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas.
Cristãos não devem almejar a glória terrena porque a sua verdadeira pátria não é terrena, como Abraão aguardamos a cidade eterna (Hb 11:10), da qual os cristãos são cidadãos, isto é, são livres e podem usufruir de tudo o que nela há, diferente do que acontecia com os escravos que havia em Filipos. Paulo era cidadão romano, sabia o valor da cidadania, e muitos dos membros da Igreja em Filipos almejavam esta importante condição civil. Mas, mais do que almejar esta cidadania [politeuma] terrena, a cidadania que realmente importa é a celeste, a que está nos céus [ouranoj] e é mais elevada, mais elevada em natureza do que o espaço sideral, é de ordem e origem divina, onde a ordem divina não é quebrada pelos pecados. É de lá que os cristãos aguardam o seu salvador, o condutor para esta nova cidadania [soter] Jesus Cristo, o Senhor.
Como a cidade é de natureza celestial, também o cristão deverá ter seu corpo [swma] transformado [metasxematizw] quando chegar o momento (I Co 15:52).
Paulo não usa a palavra grega para natureza carnal [sarx] que envolve pecado, mas prefere usar a que se refere ao corpo físico que será transformado pelo poder de Deus e, só então, alcançar a verdadeira e plena perfeição: o corpo de humilhação [tapeinwsij] será tornado [ginomai] da mesma natureza [summrphoj] que o corpo da sua glória, não a glória do mundo, passageira, mas a gloria eterna (II Co 3:18). Esta perfeição não se alcança pelo esforço próprio, por vangloria humana, mas é uma dádiva do poder de Deus em conceder a Cristo toda a autoridade (Ef 1:22) e todo o poder.

CONCLUSÃO

4.1 Portanto, meus irmãos, amados e mui saudosos, minha alegria e coroa (a glória de Paulo), sim, amados, permanecei, deste modo, firmes no Senhor.
Por causa de tudo isto [wste], do fato de que os cristãos precisam aprender que não podem parar, mas, enquanto caminham, precisam cuidar do seu coração para não serem enganados por alguns aproveitadores e aguardarem a verdadeira cidadania celestial Paulo abre o seu coração, mostra seu amor, fala de sua saudade por aqueles irmãos [adelfoj] que ele considerava dignos de serem amados [agaphtoj] e cuja companhia ele almejava [epipoqhtoj] e eram a fonte de sua alegria [xara] e sua coroa [stefanoj], isto é, o sinal de que ele alcançara o alvo que lhe fora proposto em seu ministério. Se alguém o indagasse do seu sucesso Paulo respondia apenas com o seu trabalho em Cristo e para Cristo, visível na Igreja (II Co 3:2).
Por causa desta viva esperança (I Pe 1:3) que não se limita a esta vida (I Co 15:19) os cristãos não devem desanimar jamais, por mais difícil que seja sua peregrinação nesta vida (II Co 4.8-9). Ainda que tudo aqui dê errado, temos a esperança e a certeza dos céus (II Co 5:1).
Cabe aos cristãos manterem-se firmes porque, mesmo que passando pela morte, passarão para a verdadeira vida (II Co 4.10-11). Não é o que no mundo vamos deixar que deve nos preocupar – mas que mensagem vamos deixar para aqueles que estão à procura de uma pátria melhor.

APLICAÇÃO

Podemos afirmar que este texto estabelece duas cosmovisões diferentes, com resultados absolutamente diferentes. Ele antepõe os santos aos ímpios. Os crentes aos incrédulos. Os fiéis aos infiéis. Os que confiam em si mesmos e os que creem em Cristo como seu Salvador. Os amados por Cristo aos inimigos da cruz de Cristo. Resumindo, de um lado ficam os que andam para herdarem a coroa de glória, outro, os que caminham desordenadamente para a perdição.

UMA RADIOGRAFIA DO HOMEM NATURAL

Vamos analisar primeiro o que Paulo diz do homem natural:
·        Andam (peripatew) como se não soubessem para onde vão: mesmo sendo cheios de ciência e sabedoria, vivendo ao sabor das circunstâncias, sendo arrastados por ventos de doutrina, pelas filosofias prevalecentes em seu tempo (II Co 4:3);

·        São inimigos (exqroj) da cruz: aceitam quaisquer outras doutrinas, aceitam exigências absurdas e costumes de homens, mas não se submetem à cruz, que veem como escândalo e loucura. Aceitam qualquer liderança, mas não se submetem à soberania de Cristo (Na 1:2);

·        Seu destino é a perdição (apoleia): andar à toa não quer dizer que não vai chegar a lugar nenhum – o destino dos inimigos da cruz de Cristo é a perdição e morte eternas (Jo 3:36);

·        Seu Deus é o seu próprio ventre (koilia): seus desejos governam sua vida, seu único alvo é satisfazer suas próprias vontades, mantem-se senhores de suas vidas, entretanto, perdendo-a eternamente (Mt 10:39);

·        Sua recompensa é a vergonha (aisxunh) eterna: a rejeição do caminho que leva ao pai, escolhendo caminhos que lhe parecem direitos só podem resultar em morte (Pv 14:12) e de nada adiantará tentar o favor de Deus na última hora;

·        Suas aspirações são carnais, terrenas (epigeioj): o fato de serem inimigos da cruz de Cristo decorre de que amam ao mundo, seu oferecimento de prazeres fugazes e glória passageira (I Jo 2:17).
É um triste quadro – um quadro que reflete exatamente o que é e qual o destino de quem não tem Cristo como Senhor de sua vida. Lembremos das palavras do próprio Cristo: quem não é por ele, é contra ele (Lc 11:23).

A OBRA DE ARTE FEITA POR DEUS: O HOMEM ESPIRITUAL

Quais são as características do homem espiritual, nascido de novo pela vontade de Deus, contrapostas às já conhecidas do homem natural?
·        Tem conhecimento de suas limitações (teleiow): qualquer cristão razoavelmente instruído nas Escrituras e honesto sabe que ainda não venceu a luta contra o pecado nem contra sua própria natureza carnal. A vitória sobre o mundo não é uma vitória pessoal, mas uma dádiva de Cristo, que a conquistou e dela nos apropriamos pela fé (I Jo 5:4);

·        Não desiste de prosseguir (diwkw): embora mais que vencedores sabemos que a luta ainda não terminou. A vitória é certa, garantida pelo próprio Senhor (Rm 8:37), mas ainda somos como soldados em marcha – parar significa não entrar na cidade a ser conquistada, significa ficar para trás, fracassar;

·        Tem um alvo superior (anw klhsij): a aspiração do cristão, o seu tesouro não é terreno – seu coração não está nas coisas do mundo (Lc 12:33). Seu coração está nas coisas celestes, para a qual foi convocado pelo soberano Senhor (I Co 15:47).

·        Tem um modelo de perfeição (summimhthj mou): nos dias de Paulo os modelos a serem seguidos variavam de acordo com quem pagasse mais, ou fizesse o melhor discurso. Havia estóicos, epicureus, legalistas, platônicos, aristotélicos, cínicos e todo tipo de filósofo. Nosso modelo é melhor – e não é Paulo, mas Jesus Cristo (I Co 11:1).

·        Tem um destino elevado (politeuma ouranoj): a verdadeira cidadania do cristão não é deste mundo, como deste mundo não é o seu rei e seu reino (Jo 8:23). Aguardamos a cidade onde habita a justiça de Deus (Gl 5:5) e nada temos deste mundo (I Tm 6:7).

·        Tem um Deus gracioso (soter): em contraste com o Deus dos inimigos da cruz o Deus dos cristãos é um Deus gracioso, que trabalha por eles (Is 64:4) e que morreu para ser seu salvador (Mt 20:28).

·        Tem uma recompensa gloriosa e eterna (ginomai summrphoj doca): a glória dos cristãos é serem aperfeiçoados pela graça de Deus em contraste com a eterna destruição dos ímpios. Os crentes serão transformados, serão abençoados pela graça de Cristo segundo o seu poder (I Pe 1:23).
É uma escolha difícil, não é? Todos os prazeres transitórios deste mundo, durante 70, 80 anos, diante do gozo eterno na glória com o Senhor.

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