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sábado, 7 de setembro de 2019

COMO ACHAR DESCANSO

uma idéia bem conhecida e divulgada sobre descanso que acho absolutamente inconsistente e inexplicável. Não consigo entender como descanso passar um ou dois dias juntando coisas, depois colocando estas coisas em um veículo, depois montar acampamento, transportar as coisas para outro veículo e depois passar horas e horas ao sol ou espantando incômodos insetos, correndo o risco de contrair uma doença como malária, dengue ou febre amarela, e depois recomeçar tudo novamente, todo o transporte e retorno para casa, geralmente cansado e com vontade de dormir horas e horas. Não, isto não é descanso. Pode até ser chamado de lazer, pode dar algum tipo de prazer para quem gosta, mas não é descanso.
Como você descansa? Que tipo de atividade (ou de inatividade) você tem escolhido para descansar? João Mendes afirmava que o descanso pode e deve ser produtivo, carregando pedras. Por trás desta frase usual na sabedoria popular o que ele queria dizer é que o descanso deve ser produtivo, deve proporcionar algo construtivo.
Não há dúvida que o descanso é não apenas um direito como um dever cristão em obediência ao seu Deus que prescreveu tal prática para a sua criação.
Mas como descansar quando as coisas não estão como nós queremos que estejam? Como descansar quando as coisas não nos agradam e nos sentimos como náufragos no mar, tendo que lutar contra a força das águas que insistem em carregar o incauto nadador para lugares ignorados?
A resposta é: observando o que o Senhor Deus, o criador, diz a respeito de seu caráter. Ele diz que é o nosso cuidador, é o Deus providente. Ele afirma que Ele é aquele que supre cada uma das necessidades dos seus ao mesmo tempo que diz que é inútil trabalhar arduamente e não confiar no seu sustento (Sl 127:2 - Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes; aos seus amados ele o dá enquanto dormem).
É provável que muitos cristãos já tenham tido a experiência de estar em um barco à deriva, enfrentando ondas que são muito mais fortes do que suas forças são capazes de superar à semelhança dos apóstolos que, mesmo experientes pescadores, viram que a força das águas que invadiam o barco e a intensidade do vento era superior às suas (Mt 8:24-25 - E eis que sobreveio no mar uma grande tempestade, de sorte que o barco era varrido pelas ondas. entretanto, Jesus dormia. 25 Mas os discípulos vieram acordá-lo, clamando: Senhor, salva-nos! Perecemos!).
Mas temos que aprender o que fazer nestes momentos. Quando a angústia tomar conta de sua alma de uma maneira terrivelmente insuportável e a tristeza e o desalento se aproveitarem das circunstâncias e seu coração começar a duvidar da justiça de Deus lembre-se do que diz o salmista à sua alma atemorizada:
Sl 42:5 - Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu.
Não é fácil sair do abatimento para a tranquilidade. Humanamente é impossível, mas é justamente por isso que o cristão é chamado de crente. Crente é aquele que confia apesar das circunstâncias, apesar dos fatos. Crente é aquele que não se atemoriza nem mesmo quando os inimigos se levantam como um exército contra ele, crente é aquele que vê milhares caírem à direita e à esquerda e continua confiando. Crente é aquele que sabe que tem um Deus que atende às suas necessidades antes mesmo que levante o seu clamor. Esta é a minha experiência com Deus. Esta foi a experiencia de José, de Daniel, e de tantos outros servos de Deus. Descansa, pois, no Senhor, ele é verdadeiro descanso.
E é isto o que o Senhor Jesus promete aos que atendem ao seu chamado (Mt 11:29 - Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma) apesar de muitos preferirem rejeitar este chamado, andar por seus próprios caminhos, e, desta maneira, jamais experimentarão o descanso do Senhor em sua rebelião (Jr 6.16 - Assim diz o SENHOR: Ponde-vos à margem no caminho e vede, perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho; andai por ele e achareis descanso para a vossa alma; mas eles dizem: Não andaremos).

terça-feira, 8 de abril de 2014

O QUE VOCÊ TEM FEITO NO DIA DO SENHOR?

O QUE VOCÊ TEM FEITO NO DIA DO SENHOR?
Texto publicado em 07.04.2014, boletim da IP Xinguara.

Anteriormente afirmamos que existem dois problemas sérios com os quais os cristãos tem se defrontado a respeito do dia do Senhor.
O primeiro, que chama mais a atenção por ser mais “barulhento” e proselitista, é o radicalismo legalista, que não apenas proclama a guarda estrita como condena com veemência quem não o faz.
O segundo, mais silencioso, é o racionalismo relaxado, a busca de razões para guardar o dia do Senhor como se não fosse do Senhor, isto é, decidir por si mesmo o que pode e o que não pode fazer.
A proposta da Confissão de Fé de Westminster é que a guarda do dia do Senhor seja feita com a virtude do equilíbrio, com exercícios devocionais e de misericórdia, bem como com atividades necessárias, dentre as quais certamente está a vida comum do lar (I Pe 3.7). Concluímos lembrando que, ao final, o domingo é o dia do Senhor que nos foi dado para nossa devoção e descanso. Sempre quem quisesse profanar o dia de descanso, mas também sempre quem quisesse escravizar os homens, invertendo a prioridade, tirando-a do Senhor e do homem para colocá-la na lei. O bom uso do domingo é uma benção - o mau uso, seja legalista ou libertino, se torna uma maldição.
A pergunta que se impõe a cada cristão verdadeiramente consciencioso e desejos de fazer a vontade de Deus é: como você, individualmente, tem guardado o dia do Senhor?
Colocando a questão de outra forma, pergunto-lhe se você tem, efetivamente, tido o serviço ao Senhor como uma prioridade do dia que a ele pertence?
Lembre-se que Ele te deu 6 dias para que, neles, você faça “toda a sua obra”. A semana, ou os seis dias da semana, são seus, para você fazer todo tipo de trabalho. Mas o dia do Senhor é do Senhor, não é seu.
Não deveria ser preciso lembrar à Igreja é um pecado não dar ao Senhor o que lhe pertence, roubando-lhe a honra, deixando de obedecê-lo ou, dito de outra maneira, profanar o dia do Senhor com atividades que ele próprio proibiu.
Devemos nos lembrar que o Senhor sonda os corações, conhece cada um e todos os nossos pensamentos e nossas afeições - e de nada adianta alguém dizer que sente amor pelo Senhor e, na sequência, não guardar de maneira proposital e deliberada algum dos seus mandamentos (Jo 14.15).

É tolice entoar cânticos de louvor ao Senhor e, com o agir, desconsiderar tudo aquilo que é cantado ou proclamado, como faziam os judeus e foram repreendidos por Isaías e, mesmo após 7 séculos, não haviam aprendido e foram novamente repreendidos por Jesus (Mc 7.6). Como você tem guardado o dia do Senhor? Você o tem guardado? O Senhor tem se agradado de você? Você tem se agradado do Senhor (Sl 37.4).

DEUS, DEVOÇÃO, DESCANSO… SOBRE O DOMINGO E O HOMEM DE DEUS

DEUS, DEVOÇÃO, DESCANSO…
Texto publicado em 30.03.2014, Boletim da IP em Xinguara.

O coração do homem tem uma tendência muito forte a extremismos. Os filósofos da antiguidade afirmavam que a virtude está no equilíbrio - ainda que, muitas vezes, o meio entre duas posições não seja necessariamente o melhor. Exemplifico: qual o melhor meio de matar alguém: com um, três ou cinco tiros? O meio seria três, mas o erro permanece - é errado e pecaminoso matar alguém, seja com quantos tiros for. Em relação ao dia de descanso existem duas tendências extremistas que se mostraram sempre presentes na Igreja: o radicalismo legalista e o racionalismo relaxado.
O radicalismo legalista é uma tendência que pode ser encontrada nos evangelhos quando, por causa do seu legalismo hipócrita, os judeus se desentenderam com Jesus e passaram a odiá-lo, tramando a sua morte. Repreenderam os discípulos do mestre quando eles colheram grãos ao passarem por um campo de trigo e se indignaram com o próprio Jesus quando ele curou um homem da mão ressequida em dia de sábado - enquanto eles, muito provavelmente, socorreriam um animal caído num buraco neste dia. Este radicalismo se manteve presente nos dias do apóstolo Paulo e ainda está presente nos nossos dias, tanto fora [como encontrado nas Igrejas sabatistas que não guardam verdadeiramente o sábado, pois trabalham e fazem servos trabalharem] como nos adeptos do dominicalismo ascético.
O racionalismo relaxado é outro mal que também era encontrado nos dias de Jesus, contra o qual os próprios fariseus, justiça lhes seja feita, se insurgiam mas que é muito mais presente nos nossos dias. A grande maioria dos autodenominados cristãos não da qualquer importância à guarda do dia do Senhor, profanando-o com todo tipo de atividade, inclusive com trabalhos, provocando o Senhor à ira. É um erro lamentável o uso do dia do Senhor para satisfazer seus próprios interesses, afinal, o dia é do Senhor, e deve ser-lhe dedicado.
A virtude do equilíbrio. Onde, então, está o meio desta discussão? O que é certo, quem tem razão neste debate? Creio que a resposta a estas perguntas está em, após dispor todas as coisas durante a semana de maneira que no dia do Senhor nada mais haja de trabalho ordinário a ser realizado, ter todo o tempo para exercícios religiosos, devocionais e deveres necessários e de misericórdia. É obvio que não há nenhuma justificativa para não guardar o dia do Senhor e ocupá-lo com interesses materiais e financeiros, por mais que eles pareçam justificáveis.  Mas, e quanto aos deveres necessários? 
É justamente aqui que reside o foco da discussão. O que são deveres necessários e de misericórdia? Brincar com o filho é dever necessário (viver a vida comum do lar - I Pe 3.7) ou lazer profano? Separar um horário, durante o dia, para repouso do corpo e da mente não é, também, um dever necessário? Lembremos que o dia é do Senhor, é de Deus. E ele quer que o usemos em nosso benefício, e não como mais um peso sobre nossos já tão sobrecarregados e atarefados ombros. O dia é de Deus, mas ele no-lo deu para que tenhamos tempo para nossa devoção. E uma maneira de devotar-lhe obediência é, também, descansando da correria semanal, quando muitos se levantam antes das 6.00h e labutam até depois das 18.00h. Domingo, dia do Senhor, dia de devoção, dia de descanso. Use-o bem, e ele será uma benção - profane-o, com radicalismo legalista ou racionalismo libertino e ele se tornará uma maldição em sua vida.

segunda-feira, 10 de março de 2014

COMO COMPLETAR BEM A CARREIRA - MENSAGEM MATUTINA NO ENCONTRO DE UMPs PRAR - PRCA

10 Alegrei-me, sobremaneira, no Senhor porque, agora, uma vez mais, renovastes a meu favor o vosso cuidado; o qual também já tínheis antes, mas vos faltava oportunidade. 11 Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. 12 Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; 13 tudo posso naquele que me fortalece. 14 Todavia, fizestes bem, associando-vos na minha tribulação.
Fp 4.10-14
Ao analisar o Sl 131 chegamos a algumas conclusões: muito do cansaço dos cristãos é devido à busca desenfreada empreendida atrás de algo que não deveria ser o alvo. Muito do cansaço é porque estamos correndo a carreira que não nos foi proposta. Ao invés de correr perseverantemente a carreira que nos está proposta (Hb 12.1) fazemos diferente, corremos insistentemente uma carreira que não é nossa, e, mesmo que cheguemos ao fim daquela carreira, não teremos atingido o nosso alvo – todo o cansaço terá sido em vão.
Vamos relembrar aqui alguns dos erros que estão sendo cometidos pelos cristãos. Não precisamos voltar nossos olhos para os incrédulos – nosso problema, agora, é nosso próprio coração. Mas como é o coração de crentes cansados? Em muitos casos, os crentes estão cansados por possuírem:
i.                    UM CORAÇÃO SOBERBO, obcecado por si mesmo e pelas próprias realizações;
ii.                 UM OLHAR ALTIVO, de desprezo pelo próximo, considerando-o inferior e digno de sujeição;
iii.               UM EGO PRESUNÇOSO, considerando que é capaz de superar até mesmo os limites que Deus estabeleceu;
iv.               UMA MENTE PRETENSIOSA a ponto de julgar a própria revelação de Deus insuficiente.
O resultado de possuir um coração assim é que acabamos nos tornando como crianças birrentas, insatisfeitas mesmo quando tem tudo o que poderiam desejar e ainda assim vivem esperneando por algo de que não precisam.
Dito de outra maneira, não há descanso para quem não está combatendo o bom combate. Como, então, sentir-se realizado após completar a carreira?
Se você realmente correu a carreira que lhe está proposta, mesmo durante a prova, seu sentimento será de confiança no Senhor.

CONFIE NO SENHOR E ISSO PORÁ FIM ÀS ANSIEDADES (Fp 4.10)

Cremos que estamos certos ao afirmar que os crentes estão cansados porque correm atrás do que não precisam, atrás do que não deveria ser prioridade e, mais especificamente, atrás do que não satisfaz. Salomão e Isaias já haviam percebido este mal. Salomão diz que é vaidade, como correr atrás do vento (Ec 2.11) e o resultado é aborrecimento com a vida (Ec 2.17), talvez uma expressão para descrever alguma forma de desalento profundo, uma depressão.
Através do profeta Isaías o Senhor exorta Israel a não cometer a tolice de correr atrás do vento. Numa linguagem menos poética, Isaías diz que se Deus não for a prioridade da vida do homem o resto é afadigar-se, ajuntar dinheiro para comprar o que não satisfaz (Is 55.2) com a única condição de querer e ouvir ao Senhor – sem mais correrias, sem sacrifícios, sem provas de Deus, apenas ouvir ao Senhor (Is 1.19).
Este mal não é exclusivo dos dias de Isaías. Nos dias de Habacuque, mesmo descrevendo sua confiança no Senhor, ele deixa escapar que havia uma procura cuidadosa pelos produtos do campo (Hc 3.17), e sua carência não era nem por falta de esforços, como diz seu contemporâneo Ageu (Ag 1.6). Ageu fala que eles plantavam e colhiam, trabalhavam e recebiam mas nunca era suficiente, nunca dava.
O antídoto para esta ansiedade, para esta correria atrás de nada é aprender a alegrar-se no Senhor. Dada a situação do apóstolo Paulo, que em alguns momentos enfrentou as sórdidas prisões da Judéia e dos destacamentos romanos, não é de se estranhar que ele enfrentasse algumas carências mesmo que, como cidadão romano, tivesse alguns privilégios, como, durante uma parte do seu período de prisão, residir em uma casa e custear as suas despesas (At 28.30) e assim ele precisasse de ajuda.
Mas a sua alegria vem, primeiro, no Senhor – o cuidado da Igreja é uma expressão do cuidado do Senhor sobre a sua vida. É repousante saber que é o Senhor que nos cuida, é o Senhor quem nos guarda, é o Senhor quem nos abençoa (Nm 6. 24). A orientação de Deus é para que nos alegremos no Senhor, isto é, tenhamos a nossa satisfação nele, e, assim, o nosso coração, moldado por ele, estará satisfeito (Sl 37.4).
Deus não tem compromisso de atender os desejos mesquinhos de um coração que não lhe foi entregue. Deus não tem que atender os desejos de um coração que não foi transformado. Ele não fez promessa nenhuma àqueles que ainda não receberam um novo coração (Ez 36.26).
Somente depois da alegria no Senhor é que Paulo menciona a gratidão pelo constante cuidado dos Filipenses. Era do Senhor que Paulo esperava a satisfação de suas necessidades, e os filipenses eram o instrumento que o Senhor usava. A premissa de Paulo era que a glória deveria ser dada ao construtor, não às ferramentas. E isso punha fim às ansiedades reais. Se extinguia as ansiedades reais, quanto mais as desnecessárias.
…lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós.
I Pe 5.7

LIMITE-SE À PORÇÃO QUE O SENHOR LHE CONFIOU (Fp 4.11-13)

Outra fonte de cansaço se chama insatisfação. Andar à procura do que não é essencial, necessário ou urgente. Não é incomum encontrar irmãos outrora ativos na comunidade reclamando de cansaço, de esgotamento mental e espiritual. É uma das queixas que pastor mais ouve, e está ficando cada vez mais difícil a formação de equipes de educação cristã comprometidas com o trabalho a cada fim de ano. Porque?
Porque estão sobrecarregados, estão com mais funções, mais atividades do que foram capacitados para isso. Estão produzindo pelos que enterram seus talentos. É verdade que, se ninguém faz, alguém tem que fazer. Não há como fugir a esta realidade. Mas não deveria ser assim.
Se todo o corpo trabalhasse uniformemente certamente cresceria mais saudavelmente (Ef 4.16), produziria mais e, certamente cresceria muito mais do que tem crescido.
Em Paulo consigo ver a plena consciência de sua limitação, sabendo do que era sua obrigação e do que ele não deveria fazer. Ele fora nomeado apóstolo aos gentios (Rm 15.16), e, embora amando os seus patrícios (Rm 9.3), desenvolveu seu ministério evangelizando-os (At 18.6).
Mas, mesmo nesta dedicação aos gentios Paulo não foi além do que lhe foi confiado. Apesar de ter passado por tantas provas (II Co 11.24-28) e feito mais do que muitos dos apóstolos (I Co 15.10) Paulo não foi além do que lhe foi confiado pelo Senhor.
Quando Paulo fala que não quis edificar sobre fundamento alheio (Rm 15.20) além de defender seu apostolado entre os gentios ele limita o seu trabalho e a sua responsabilidade (Ez 3.18).
Limitar-se à carreira que o Senhor nos propôs (Hb 12.1) significa não se esforçar em vão, mas tendo um alvo definido (I Co 9.26).
Se nós fizermos isso, nos limitarmos ao nosso papel de ser sal e luz, de sermos seus embaixadores, de exortarmos o mundo a que se reconcilie com Deus (II Co 5.20).
Já é uma tarefa grande demais. Já é muito ser sal e luz, ser evangelizador, proclamador da salvação em Jesus Cristo, enfrentar as ciladas do maligno com armas espirituais (II Co 10.4) manter a comunhão e ser fiel ao ensino recebido num procedimento santo (I Pe 2.12) e ainda somar a isso aquilo que Deus não nos confiou significa que a possibilidade de não sermos bem sucedidos torna-se ainda maior. Se nos limitarmos à porção que nos foi confiada, ainda que sejamos classificados como servos inúteis (Lc 17.10), ouviremos do Senhor que, embora inúteis, formos fiéis, e então ele nos confiará o reino (Mt 25.23).

ADMITA SUA LIMITAÇÃO E DESCANSE NO SENHOR (Fp 4.13)

A terceira orientação que Paulo nos apresenta é: descanse no Senhor. Desde que Eva ouviu a cantilena da serpente de ser possível "ser como Deus" o homem tem tentado se esquecer de que é uma criatura, falha e cheia de limitações. No afã de ser como Deus, mesmo não sendo onipotente, quer fazer mais, e mais, na tentativa de fazer tudo acaba acumulando fardos, cada vez mais pesados.
A única solução para este homem sobrecarregado é ouvir as palavras do Senhor Jesus (Mt 11.28). O problema é que muitos estão tão sobrecarregados que são como crianças com fone de ouvidos – já são ruins de escutar, com os fones, então, fica quase impossível.
Nossa insensatez às vezes não nos deixa perceber que as coisas que mais amamos, pelas quais nos esforçamos não passam de pesos que nos embaraçam na nossa carreira. Se ganhar uma corrida sem embaraços já é difícil, com pesos então é praticamente impossível.
Paulo, entretanto, diz-nos que pode tudo naquele que o fortalece, isto é, em Cristo (expressão genitiva que designa origem e posse, e que ele usa 86 vezes das 90 que aparece na bíblia) ele é capaz de tudo. Mas o que é esse tudo mesmo?
Tenho visto cristãos dizerem que podem conseguir qualquer coisa, e se arriscando em atitudes temerárias brandindo este verso das Escrituras. O que ele quer dizer realmente?
Para entendermos o que Paulo está dizendo, precisamos voltar aos versos anteriores. Ele descreve sua vida, sua carreira, seu ministério. E, a despeito de sua importância na história da expansão do evangelho, vemos um relato de lutas que a grande maioria de nós não gostaria de enfrentar. Vamos dividir em duas áreas: pessoal e social.
Paulo provavelmente vinha de uma família de recursos, talvez não rica, mas de recursos moderados e de relativa importância social, a ponto de poder estudar em Jerusalém com um dos mais renomados professores de seu tempo, Gamaliel (At 22.3).
Ele era reconhecido entre os judeus por sua devoção ao judaísmo, podendo afirmar que deixava muitos deles para trás (Gl 1.14) o que é atestado pela confiança que lhe é depositada pelo sinédrio (At 9. 1-2).
Respeitado entre os judeus, era, também, respeitado entre os romanos por possuir cidadania romana (At 22.25-26) tinha alguns direitos especiais mesmo estando na prisão – o que, certamente, foi de grande utilidade para a pregação do evangelho entre os gentios (At 9.15).
Houve época em que era missionário mantido por uma igreja (At 13.1), em outras trabalhou para se manter sem ser pesado à Igreja (At 18.3).
Passou fome, sede, foi humilhado, acorrentado, como em Filipos (At 16.24), sofreu tentativa de extorsão durante dois anos (At 24.25).
No meio de tudo isso o "mais que vencedor" (Rm 8.37), aquele que experimentava as aflições preditas (Jo 16.33) e descritas por Jesus (Mt 5.11) diz que pode todas as coisas. Que coisas, afinal?
A afirmação do apóstolo é que, para completar a carreira, ele estava disposto a suportar tudo o que fosse preciso, esmurrando o seu próprio corpo (I Co 9.27), isto é, dizendo não para as suas próprias vontades, para ser encontrado em Cristo.
Como ninguém é capaz de fazer tudo, e ainda fugir às dificuldades, nada mais razoável do que descansar nas mãos daquele que venceu o mundo por nós (Jo 16.33). É o único meio de pôr fim à ansiedade de uma alma desassossegada.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Paulo pode, evidentemente, chamar-nos para sermos seus imitadores (I Co 4.16). Mas, antes que alguém dissesse que ele estava querendo atrair seguidores para si mesmo, ele acrescenta que só deve ser imitado naquilo que ele imitava a Cristo (I Co 11.1). E quem poderá dizer que Cristo combateu o bom combate, não completou a carreira (Mc 10.45), como Paulo bem sabia e lembra a Timóteo (I Tm 2.6). Ou, ainda, quem poderia dizer que Cristo não descansava em Deus (Lc 23.46) para cumprir sua missão, exatamente como Davi previra (Sl 31.5)?
Paulo nos convoca a combater o mesmo combate que ele combateu, da mesma maneira que ele foi visto combatendo (Fp 1.30) sem desistir, apesar de tantas dificuldades e perseguições que teve que enfrentar (II Co 11.24-27) até que finalmente, chegando ao fim, ele pode dizer que continua prosseguindo (Fp 3.14) com a certeza de não haver sido relaxado ou falhado (II Tm 4.7).
Quero relembrar três conselhos para quem quer completar a carreira, como Paulo:

CONFIE NO SENHOR E ISSO PORÁ FIM ÀS ANSIEDADES

Diz-nos o salmista que o Senhor o ouve (Sl 40.1). O Deus do salmista é o mesmo Deus que nos chamou para si mesmo. Ele socorreu Paulo em sua estada em Roma com a instrumentalidade dos filipenses – e ele ainda é poderoso para salvar (Sf 3.17) porque ele é o mesmo ontem, hoje e eternamente (Hb 13.8).

LIMITE-SE À PORÇÃO QUE O SENHOR LHE CONFIOU E NÃO CORRERÁ DE UM LADO PARA OUTRO

Confiando no Senhor saberemos que ele nos dará exatamente aquilo de que temos necessidade, nem mais, nem menos. Davi podia dizer que, tendo o Senhor como seu pastor não sentia necessidade de mais nada (Sl 23.1). A correria e a canseira é porque queremos mais do que é a nossa porção, e o salmista diz que já temos a porção ideal (Sl 119.57). Não custa lembrar as palavras do Senhor aos levitas (Nm 18.20).

ADMITA SUA LIMITAÇÃO, CORRA APENAS A SUA CARREIRA E DESCANSE NO SENHOR QUANTO ÀS DEMAIS COISAS


Um dos motivos porque corremos tanto não é outra coisa senão inveja. Queremos o mesmo ou mais do que os outros tem, e esquecemos do conselho bíblico de não cobiçar a prosperidade dos outros (Sl 37.7). Precisamos entender que, para completar a carreira, dois requisitos se fazem necessários. O primeiro é importante (a fidelidade a Deus) mas o segundo é fundamental (a fidelidade de Deus). Lembremos que a vitória não é alcançada por quem corre (Rm 9.16) mas é dada para quem é buscado (Lc 19.10).

sexta-feira, 7 de março de 2014

COMO VOCÊ ESTÁ CORRENDO MESMO?

MENSAGEM DOMINICAL NOTURNA NO ENCONTRO DE UMPs PRCA-PRAR

Há alguns dias assisti a uma pregação com base no Sl 131 que foi bastante edificante. À partir do que o pregador falou, meditando posteriormente no assunto, decidi compartilhar aqui com vocês algumas das lições de Deus ao meu coração.

1 SENHOR, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar; não ando à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais para mim.
2 Pelo contrário, fiz calar e sossegar a minha alma; como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo.
3 Espera, ó Israel, no SENHOR, desde agora e para sempre.
A nossa era pode ser corretamente designada de "a era frenética". Corre-se muito, e muitas vezes atrás de muitas coisas ao mesmo tempo, e sempre tendo pouquíssimo tempo para tentar muitas coisas. O resultado é inevitável: cansaço, stress, desânimo, angústia e até uma boa dose de desespero e depressão.
Porque isto acontece?
Porque o homem é um eterno insatisfeito. Ele sente falta de algo que só possuía no paraíso, e que só possuirá na restauração de todas as coisas. Não há satisfação plena aqui – esta é uma utopia que nem mesmo Deus prometeu realizar através de Jesus – ele prometeu andar conosco, mesmo que nas aflições, com a garantia de vitória (Jo 16.33) – diferente do que o mundo considera vitória, mas vitória assim mesmo. Observe que Paulo diz, mesmo no fim de seu ministério, que ainda "prosseguia" (Fp 3.13-14).
Por causa desta insatisfação tentamos conseguir o máximo do máximo, e não percebemos que apenas nos esforçamos para juntar vento (Ec 1.14).
Davi mostra algumas características de um coração que não está mais angustiado, em contraste com um coração que nunca terá a sensação de ter completado a carreira, sempre insatisfeito. Davi diz que descansa no Senhor porque aprendeu a não ser:

SOBERBO

Não ser soberbo é não se sentir indevidamente confiante e exultante pela prosperidade em si mesma (Dt 8.17). Poucas pessoas poderiam se considerar tão realizadas quanto Davi. Sendo o sétimo filho de Jessé, era o último e menos significante na linha sucessória. Não era um rapaz frágil, como às vezes apresentamos às crianças – mas era, no contexto de sua época, pouco mais que um servo (cuida de ovelhas, leva alimentos para os irmãos) e, sem que esperasse qualquer coisa além de uma vida camponesa sob a tutela de seu pai e irmãos, logo é alçado a genro do rei (I Sm 18.20), general do exército hebreu, louvado pelas mulheres de Jerusalém (I Sm 18.7) e, finalmente, assenta-se no trono (I Rs 2.11) como rei do povo de Deus.
Mas ser rei ou ser servo não quer dizer muita coisa para o coração. Um rei pode ser manso enquanto um servo pode ser absolutamente soberbo. Um rei pode manter-se humilde mesmo após grandes vitórias, um servo pode tornar-se soberbo com suas cadeias douradas, julgando-se acima de outros servos que não usam cadeias.
E é só isso o que somos – servos nas mãos de nosso Senhor. Como ser soberbo sendo apenas servo? É obvio que, como servos, temos a obrigação de servir ao Senhor com os talentos que ele nos deu (ou com o governo das cidades). E, se isto acontecer, se houver fidelidade e disposição, o Senhor exaltará seus servos (Pv 22.29) e eles lhe serão ainda mais uteis. O Senhor tomou, dentre todos os homens disponíveis, a Paulo, que sequer havia estado entre os discípulos iniciais, e o colocou como apóstolo dos gentios, especialmente para o mundo greco-romano porque Paulo era perito nos costumes e língua greco-romana. No fim de tudo isto, um bom servo sabe que é só um servo inútil, que não fez mais do que a obrigação. Um servo que diz ao seu Senhor: fiz o que me mandou não pode esperar recompensa – embora Deus a dê por sua graça. Mas um servo que não fez o que lhe foi mandado pode, com certeza, esperar a retribuição, isto é, o castigo.
É possível até parecer humilde diante dos homens, mas ninguém consegue esconder a soberba do coração. Palavras piedosas confundem os homens, mas nunca ao Senhor, diante de quem não há segredos. E ele conhece o coração dos homens, sabe se estão contaminados pela soberba (Jr 20.12), pela sensação de apego às suas realizações. Pessoas soberbas estão à beira da ruina, mesmo que tenham amealhado fortunas e sejam bem sucedidas aos olhos dos homens (Lc 12.19-21).
Não há nada que cause mais impacto aos olhos dos homens do que ver um soberbo ser destruído de sua arrogância. E, certamente, não há nada que dê maior prazer a satanás do que ver um homem ser destruído, primeiro colocando o orgulho e a arrogância no coração do homem, depois, regozijando-se com sua queda, porque o diabo sabe que a soberba precede a ruína (Pv 16.18).
Uma pessoa assim insatisfeita nunca poderá dizer: completei a carreira. Estará sempre combatendo. Correndo atrás de realizações profissionais, familiares, educacionais, financeiras, sociais…  correria para atender apenas à soberba do coração nunca gerará satisfação real.
Façamos nossa a oração de Davi:
Também da soberba guarda o teu servo, que ela não me domine; então, serei irrepreensível e ficarei livre de grande transgressão.
Sl 19.13

ALTIVO

Isto nos conduz à nossa segunda perspectiva sobre a correria insatisfatória a que estamos nos dedicando. Não há dúvida que devemos ser o melhor que pudermos, fazer o melhor que pudermos, fazer sempre mais e melhor, especialmente como servos do Senhor. Mas não podemos nos descuidar e querer fazer mais do que somos capacitados a desempenhar.
Altivez de olhar significa, entre outras coisas, pretender ser mais do que é, ir além do que se pode. É querer ocupar um lugar que não lhe pertence, para o qual não é nem técnica, nem moral nem espiritualmente preparado, gerando um anseio e uma luta por atender uma aspiração impossível, que nunca vai alcançar e só vai gerar esgotamento e, mesmo se alcançado, só vai gerar uma sensação de vitorioso fracasso.
Olhos altivos são olhos insatisfeitos, olhando sempre para cima, sempre para mais alto, sempre para mais longe. Por desejar o que não deveria ser desejado Eva caiu, o próprio Davi caiu e muitos de nós acabamos prostrados – após muitas lutas, percebemos que lutávamos lutas que não eram nossas.
A altivez é uma atitude de desprezo e desafio a Deus, e Deus não os deixará sem resposta (Is 2.11).
Altivez é uma característica presente nos insensatos que não percebem que querer mais do que é devido só gera disputas e insatisfação. Foi a altivez que levou Saul à queda, usurpando (ainda que apenas temporariamente e cheio de boas intenções, mas ainda assim, desejos pessoais estavam envolvidos sob a "capa" dos interesses do reino, pois ele queria evitar uma derrota pessoal, que poderia ser a sua primeira campanha militar sem vitória) um papel que não lhe pertencia, pois sacrificar era função exclusiva de Samuel, o sacerdote (I Sm 13.11-12).
Mesmo na dedicação à obra do Senhor o coração do homem pode incorrer em altivez. Foi assim com Pedro, que, após um elogio do Senhor Jesus (Mt 16.17-18), julgou-se no direito de contradita-lo em termos fortes, reprovando suas palavras como se elas não fizessem parte do plano de Deus ao enviar o Filho (Mt 16.22-23).
Recentemente tivemos uma demonstração de coração altivo por parte do proprietário de uma empresa eclesiástica que ousou reprovar Jesus dizendo que o mestre errou ao realizar o seu primeiro milagre. Outro, discípulo dele, ousou dizer que é desnecessário estudar os evangelhos porque ele próprio faz mais milagres que o Senhor Jesus fez em todo o seu ministério, numa doente idiotia e desconhecimento da Palavra de Deus (Jo 20.30).
A altivez resulta, ao final, em uma atitude de indevida superioridade para com o próximo, deixando de considera-lo digno de honra (Lc 6.31), inclusive dando-lhes a primazia (Fp 2.3).

PRESUNÇOSO

Este mesmo Davi que afirma ter se libertado da presunção é o mesmo que foi acusado por seus irmãos, anteriormente preteridos por Samuel, de ser, vejam só, presunçoso (I Sm 17.28). E não é pouco que, por seus feitos anteriores quando defendia as ovelhas lhe foram confiadas, pudesse ter, de fato, incentivado de alguma forma esta faceta de seu caráter (I Sm 17.36).
Porém, a chave para entender a atitude de Davi não é sua confiança por ter matado um leão ou um urso – mas por agir em defesa da honra do seu Deus, afrontado pelo gigante filisteu.
Davi afirma que "não anda à procura", literalmente, não me exercito, não me canso em demasia, atrás de grandes coisas. Davi já havia aprendido a não correr atrás do que não deveria ser sua meta. Vemos cristãos cansados, cristãos verdadeiros que não experimentam o descanso que o Senhor promete (Mt 11.28) simplesmente porque não descansam nele. Estão ocupados demais em tentar alcançar uma infinidade de coisas, correndo atrás de miragem, como o cavalo tentando alcançar a cenoura pendurada diante de seus olhos.
Muito do cansaço dos crentes do séc. XXI é fruto de uma correria atrás das demais coisas e não do reino de Deus (Mt 6.33) que não é comida nem bebida (Rm 14.17), mas no qual estas coisas estão inseridas (Is 1.19), queremos nos fartar de tudo o que os gentios querem – e não fazemos nosso coração lembrar que temos o Senhor, e que ele sacia toda a nossa necessidade (Jr 31.14).
A proposta de Davi é que um estilo de vida simples, na presença do Senhor, é mais proveitoso e agradável do que a agitação de uma corte geralmente sem tanta preocupação com a Palavra de Deus, por isso ele prefere estar às portas da casa do Senhor, do que habitar nas tendas da iniquidade – das festas onde o Senhor não é honrado (Sl 84.10).
Apesar de tudo o que Deus tinha feito em sua vida Davi não se julgava superior a ninguém mais. Uma prova disso é quando ele deseja beber da água do poço existente nas proximidades de Belém. Desejosos de atender seu líder, três valentes irromperam no meio do arraial dos filisteus que estavam em Belém e trouxeram-lhe da água. Sua atitude demonstra o valor que ele dava aos seus companheiros: ofereceu a água ao Senhor (II Sm 23.16-17).
Em contraste com Davi, Saul não demonstra consideração por seus companheiros (I Sm 14.24), nem com as instituições, pois usurpa o oficio sacerdotal de Samuel, é ingrato para com Davi, intentando mata-lo porque gostava de fazer as coisas à sua própria maneira: mesmo bem intencionado ele estava errado.
A presunção do coração de um homem só dura até o momento que o Senhor mostra-lhe sua insignificância (I Sm 15.28). Por sua presunção Saul combatia o combate errado, lutava contra quem não devia e acabou perturbado (I Sm 16.23) e destruído. A diferença entre Davi e Saul, o que fazia de Davi o homem segundo o coração de Deus e de Saul um louco era que um buscava honrar e obedecer a Deus, o outro tomava suas decisões por impulso e interesse. Um estava sendo aperfeiçoado, e de um simples pastor é feito rei. O outro, por sua presunção, de rei foi tornado louco.
A presunção é um pecado oculto do coração, e podemos, então, orar como Davi:
Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno.
Sl 139.23-24

PRETENSIOSO

Se a primeira expressão do salmista refere-se a coisas grandes, realizações e posses materiais, podemos pensar em coisas maravilhosas demais como a busca de situações que poderiam ser fonte de auto exaltação e grande arrogância espiritual. Uma orientação bem saudável é-nos dada por Calvino: devemos buscar conhecer toda a revelação divina, mas devemos nos contentar com toda a revelação divina. Tanto o menos quanto o mais são pecados. O menos é preguiça e relaxamento, o mais é impiedade e curiosidade perniciosa.
Davi exemplifica isto quando, contemplando as grandezas da criação e a majestade do criador pergunta-se a respeito do lugar do homem nisto tudo (Sl 8.3-5).
Mesmo um homem justo aos olhos de Deus pode cometer o erro de querer ir além do que deve, e buscar coisas que estão acima de sua compreensão. Quando Jó quis debater com Deus, mostrando a sua dor, sua indignação diante do sofrimento e a sua tentativa de justificar-se, ouviu algumas perguntas que, na pratica, eram Deus dizendo-lhe: - fique calado, recolha-se à sua insignificância (Jó 38.4-5) porque é nesta insignificância que você goza de meu cuidado (II Co 12.10).
Como somos pretensiosos, muitas vezes, querendo dizer a Deus como as coisas devem ser. Observe que sequer estou me referindo às tolas orações cheias de exigências e determinações – isto é tão absurdo que nem merece ser levado em consideração.
No meio presbiteriano a pretensão pode ir para outro lado, e nos tornarmos semelhante àquele homem que ouve, ouve, aprende e aprende, mas, no final, logo se esquece (Tg 1.23-24), num arroubo de orgulho do conhecimento adquirido mas sem resultados numa vida piedosa.
Poderíamos chamar esta atitude pretensiosa de arrogância espiritual. O muito saber pode desvirtuar a piedade, destruiu a igreja europeia entre os sécs. XVIII e XX, num período que ficou conhecido como escolasticismo e que degenerou no liberalismo teológico. Na tentativa inútil de saber mais do que a bíblia ensina estudiosos cristãos criaram teorias cada vez mais elaboradas para explicar o que deveria ser apenas crido, e, ao final, caíram na impiedade da incredulidade, curiosamente chamando de tolos os que continuaram crentes.
Estamos tão longe assim disso em nossa crítica aos que possuem menos conhecimento que nós? Temos mais fé que eles? A quantas anda nossa fé, realmente? Ainda que fé não exclua conhecimento, e, na verdade, o conhecimento seja alimento para a fé, se não cuidarmos do nosso enganoso coração podemos cometer o equívoco de, em nossa pretensão, substituir a fé pelo conhecimento apenas teórico (Mt 22.29), confundido conhecer sobre o Senhor com conhecer o Senhor (Os 6.3).
Certa vez um antigo professor disse que a única diferença entre um pentecostal que quer novas revelações e o conservador que quer saber mais que o revelado é que, ambos, embora não satisfeitos com o que Deus já deu, diferem na temperatura. Um é quente e o outro frio, mas, nenhum é bíblico.
A presunção pode tornar alguém tão útil no reino quanto um motorista de retroescavadeira em um avião sem piloto, querer o que Deus não quis dar ou pretender usar o que Deus deu de uma maneira que ele nunca pretendeu é semelhante à tolice de dizer a Deus que o método que ele escolheu não foi o melhor (Is 40.13).
Bendito seja o Senhor que, dia a dia, leva o nosso fardo! Deus é a nossa salvação.
Sl 68.19

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Davi aponta quatro erros que podemos cometer, e que provavelmente ele tenha cometido (Sl 42.5) correndo mas sem chegar a realização:
i.                    UM CORAÇÃO SOBERBO, obcecado por si mesmo e por seus próprios projetos;
ii.                 UM OLHAR ALTIVO, desprezando a tudo e a todos, julgando-se mais do que realmente é;
iii.               UM EGO PRESUNÇOSO, considerando-se digno de coisas que não lhe foram destinadas;
iv.               UMA ALMA PRETENSIOSA, desejosa de ir além das maravilhas reveladas por Deus.
Mas, diagnosticando o problema, Davi não nos deixa sem a apresentação de uma solução. Ao invés de andarmos desassossegados, insatisfeitos como criança que não recebe os devidos cuidados, ou como criança abusada que não para de reclamar e exigir a satisfação de seus anseios através de coisas e pessoas, ele nos traz uma proposta nos dois versos seguintes:
2 Pelo contrário, fiz calar e sossegar a minha alma; como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo.
3 Espera, ó Israel, no SENHOR, desde agora e para sempre.

CONTROLEI MINHAS INCLINAÇÕES EGOCÊNTRICAS

Davi afirma que fez calar e sossegar a sua alma, indicando que, em algum momento, ele esteve sobressaltado, ansioso, cometendo erros nas atitudes sobre as quais ele refletia neste salmo.
Diz-nos ele que fez sua alma calar – quando não sabemos o que fazer, quando o que fazemos pode não contribuir para a glória de Deus, a melhor coisa a fazer é ouvir o Espírito (Sl 27.8). É somente na presença do Senhor que somos capazes de perscrutar as profundezas do nosso ser. Diante de Deus Isaías se reconhece pecador (Is 6.5); diante de Jesus Cristo Pedro reconhece sua pecaminosidade (Lc 5.8) e Tomé, o discípulo exigente, tem que admitir sua incredulidade e tornar-se crente (Jo 20.28).
É preciso desembaraçar-se dos anseios, dos pesos (Hb 12.1) confessar os pecados (I Jo 1.9) e deixar para trás o que não é mais necessário (Fp 3.13), mesmo que sejam coisas pelas quais lutamos a vida inteira (Fp 3.8), porque não podemos ficar olhando para os lados ou para trás, mas devemos manter os olhos firmes naquele que nos chama (Hb 12.2).

LIMITEI-ME AO QUE DEUS TEM ME DADO

Ao conhecer a Cristo Paulo logo teve que fazer uma escolha.
De um lado ele tinha o nome de sua família (era descendente de Benjamim, um dos dois filhos preferidos de Jacó), tinha a preeminência entre os judeus (circuncidado no dia certo, fariseu zeloso), tinha a cidadania romana (algo que custava muito caro mas que ele havia obtido por nascimento, um status ainda mais elevando mesmo entre os nobres e ricos), como escreve aos Filipenses (Fp 3.3-5).
Por outro lado, ele tinha o opróbrio de Cristo e, como Moisés, considerou isto mais importante do que tudo o mais (Hb 11.26), entendendo, como discípulo de Cristo, que sofrer por causa do nome de seu mestre era uma dádiva (At 5.41), na verdade, a mais sublime de todas as dádivas (Fp 3.8).

CONFIEI INTEGRALMENTE EM MEU DEUS

Só reconhecendo o que somos e como somos (Rm 7.22-24) e confessando nossa necessidade do Senhor (Rm 7.25), nos gloriaremos nele (Rm 7.25) é que teremos o descanso, segurança e realização que tanto buscamos (Mt 10.25a).

Só assim sentiremos prazer no chamado do Senhor (Is 55.1), atendendo-o sem reservas (Sl 28.7) e parando de correr em busca do que não pode satisfazer (Is 55.2) porque ele nos oferece estas coisas de graça, enquanto descansamos nele (Sl 127.2) e só ele é a nossa fonte de satisfação (Sl 37.4).

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