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terça-feira, 24 de novembro de 2015

O QUE LEMBRAR QUANDO PARECER QUE VOCÊ ESTÁ SOZINHO - Cl 4.10 18

10 Saúda-vos Aristarco, prisioneiro comigo, e Marcos, primo de Barnabé (sobre quem recebestes instruções; se ele for ter convosco, acolhei-o), 11 e Jesus, conhecido por Justo, os quais são os únicos da circuncisão que cooperam pessoalmente comigo pelo reino de Deus. Eles têm sido o meu lenitivo.
12 Saúda-vos Epafras, que é dentre vós, servo de Cristo Jesus, o qual se esforça sobremaneira, continuamente, por vós nas orações, para que vos conserveis perfeitos e plenamente convictos em toda a vontade de Deus. 13 E dele dou testemunho de que muito se preocupa por vós, pelos de Laodicéia e pelos de Hierápolis.
14 Saúda-vos Lucas, o médico amado, e também Demas.
15 Saudai os irmãos de Laodicéia, e Ninfa, e à igreja que ela hospeda em sua casa. 16 E, uma vez lida esta epístola perante vós, providenciai por que seja também lida na igreja dos laodicenses; e a dos de Laodicéia, lede-a igualmente perante vós.
17 Também dizei a Arquipo: atenta para o ministério que recebeste no Senhor, para o cumprires.
18 A saudação é de próprio punho: Paulo. Lembrai-vos das minhas algemas. A graça seja convosco.
Cl 4.10-18

Sabemos que Paulo estava preso, e com boa margem de acerto podemos afirmar que em Roma, em prisão domiciliar, privilégio concedido a cidadãos romanos e que lhe dava uma certa liberdade para ter outras pessoas convivendo com ele – o que não é, convenhamos, a situação dos sonhos de ninguém. Em sua companhia encontrava-se, também preso, Epafras, o pastor de Colossos e Aristarco. Como companheiros de prisão em Cristo, isto é, servindo-lhe como colaboradores, havia outros irmãos, como Lucas, Timóteo, Marcos e Tíquico, além de outros.
Muitos de nós olham para a prisão como uma grande desgraça – e, se ela for por causa de um crime, é mesmo uma grande desgraça (I Pe 4.15-16). A prisão parece ser um lugar de abandono e de solidão. Me permitam utilizar a experiência de Paulo, real, física, para uma outra que é, também, física, verdadeira, mas, ao mesmo tempo, metafórica: muitos de nós podem se sentir abandonados e solitários, vagando de um lado para outro e, mesmo em meio à multidão, se sentirem sozinhos.
Mas será que estamos mesmo sozinhos? Cristo não deu-se a si mesmo para criar um povo (Tt 2:14)? Cristo, além disto, também não prometeu esta conosco todos os dias até a consumação do século (Mt 28:20)?

VOCÊ PODE JÁ TER SIDO ABANDONADO

10 Saúda-vos Aristarco, prisioneiro comigo, e Marcos, primo de Barnabé (sobre quem recebestes instruções; se ele for ter convosco, acolhei-o), 11 e Jesus, conhecido por Justo, os quais são os únicos da circuncisão que cooperam pessoalmente comigo pelo reino de Deus. Eles têm sido o meu lenitivo.
Logo no início do seu ministério Paulo teve várias experiências desagradáveis, como, por exemplo, ser perseguido por aqueles a quem desejava salvar por intermédio da pregação do evangelho e, também, por seus próprios compatriotas (II Co 11:26) pelos quais, se possível, ele estaria disposto a fazer o maior sacrifício (Rm 9:3).
Agora, mais perto do fim do ministério, Paulo lembra que praticamente todos os judeus se afastaram dele na medida em que ele teve seu apostolado dirigido para os não judeus (At 18:6). Poucos continuaram com ele, e ele cita, expressamente, três deles. Aristarco, Jesus Justo e Marcos. E é justamente este Marcos, sobrinho de Barnabé e de Pedro, que chama a atenção. Presente no momento da prisão de Jesus, fugiu desnudo deixando para trás um lençol com o qual se cobria (Mc 14.51-52).
Ele vai reaparecer quando, anos mais tarde, seu tio, Barnabé, parte naquela que ficou conhecida como a primeira viagem missionária de Paulo (At 12:25), abandonando-os durante a viagem quando passaram pela Panfília (At 15:38).
Paulo, efetivamente, tinha sido abandonado por Marcos quando o trabalho evangelístico sequer contava com bases de apoio na Ásia Menor e na Europa. Paulo também havia sido abandonado por outros cristãos judeus cujos nomes não são do nosso conhecimento. Ter sido abandonado era uma experiência real. Mas ele tinha certeza de uma coisa – seu Senhor era com ele, sempre (Mt 28:20) e o consolava com a presença de outros irmãos amados, que, mesmo não sendo judeus, foram sendo colocados ao lado de Paulo como seus amigos, irmãos amados, servos fiéis e abençoadores.
Paulo não permitiu que uma fraqueza de um jovem fosse empecilho para a comunhão cristã e voltam a andar juntos para glória de Cristo. Marcos foi recuperado e treinado por Barnabé, e, mais tarde, Paulo solicita que ele venha à sua presença considerando-o como alguém que lhe é útil, tanto como Timóteo (II Tm 4:11).

VOCÊ PODE NÃO TER A MELHOR COMPANHIA

12 Saúda-vos Epafras, que é dentre vós, servo de Cristo Jesus, o qual se esforça sobremaneira, continuamente, por vós nas orações, para que vos conserveis perfeitos e plenamente convictos em toda a vontade de Deus. 13 E dele dou testemunho de que muito se preocupa por vós, pelos de Laodicéia e pelos de Hierápolis. 14 Saúda-vos Lucas, o médico amado, e também Demas.
Já falamos sobre alguns dos companheiros de Paulo, como Tíquico, Epafras, o pastor de Colossos, e, também, Lucas. Destes Paulo faz descrições acompanhadas com elogios ou adjetivos. Tíquico (Cl 4:7), Epafras e até mesmo o escravo fujão Onésimo (Cl 4:9). De todos, porém, o único que não recebe nenhum adjetivo é Demas, simplesmente um cooperador (Fm 1:24). Nunca é chamado de irmão, fiel ou amado. Algumas vezes Demas é usado como exemplo de alguém que deixou de ser crente e, em dissonância do ensino geral das Escrituras, caiu da graça ou perdeu a salvação. Correto é afirmar que Demas é alguém que esteve na Igreja, que até colaborou no trabalho da Igreja e pode até mesmo ter ocupado algum cargo na Igreja visível, em uma ou outra denominação, mas que jamais fez parte da verdadeira Igreja de Cristo, da assembleia universal dos santos (Hb 12:22).
Entre os amigos de Paulo havia um que não era cristão, que não partilhava da mesma fé mas que estava com Paulo e certamente cooperou de alguma forma com o ministério de Paulo. Isto não é novidade, porque Jesus também teve um grupo de discípulos dos quais um era diabo, isto é, adversário (Jo 6:70) mas mesmo assim tinha funções entre os discípulos. Ele havia se tornado o tesoureiro (embora fosse ladrão e, obviamente, com o conhecimento de Cristo - Jo 12:6) e, aparentemente, desempenhava bem a sua função, ao menos aos olhos dos colegas apóstolos (Jo 13:29).
Assim como Judas nunca foi regenerado, sendo, como se sabe, o filho da perdição (Jo 17:12) Demas também esteve presente na Igreja mas ele próprio nunca foi um pistos, um crente. É provável que você também tenha que conviver com companhias que não são as melhores, o problema é quando você opta por companhias que sabe não serem as melhores – e resultado pode ser sua infelicidade (Sl 1:1). Você pode até ter a companhia dos perdidos, mas não pode optar pela companhia dos que se perdem em detrimento da alegria de estar com os santos do Senhor (Sl 16:3).

VOCÊ SEMPRE TERÁ O CONSOLO DO CORPO DE CRISTO

15 Saudai os irmãos de Laodicéia, e Ninfa, e à igreja que ela hospeda em sua casa. 16 E, uma vez lida esta epístola perante vós, providenciai por que seja também lida na igreja dos laodicenses; e a dos de Laodicéia, lede-a igualmente perante vós.
Apesar de tudo, de estar preso e de não poder continuar o seu ministério de evangelização itinerante e de confirmação das Igrejas, nem mesmo de continuar em direção à Espanha, como pretendia, Paulo não se sentia sozinho. Suas muitas cartas atestam que ele amava e era amado pelas Igrejas – e mesmo quando tinha oposição, como em Corinto, ainda assim ele continuava amando a Igreja. Suas cartas também mostram que ele tinha uma forte interação com estas Igrejas, recebendo numerosas visitas, como ele próprio menciona em relação à Igreja de Corinto (I Co 1:11).
Pulo tinha conhecimento de onde a Igreja se reunia, quem frequentava tais reuniões, quais os problemas morais, éticos, comportamentais, doutrinários e espirituais que as ameaçava por causa desta interação. Apesar de preso, e além dos irmãos que estavam com ele, Paulo estava de tal modo ligado a Cristo que sentia a sua dor, a sua angústia, mas que, também, se alegrava com suas alegrias, se rejubilava com suas vitórias, bem como buscava lhes oferecer motivos para se alegrarem (Fp 3:1) e desejava alegrar-se com a alegria da Igreja (Fp 2:2). Paulo sentia-se feliz com as vitórias alcançadas pela Igreja e confortava as Igrejas com o conforto, com o consolo que ele mesmo recebia do Senhor (II Co 1:6) porque ele via a Igreja como um corpo, como, embora diferentes e em lugares diferentes, todos membros uns dos outros (Rm 12:5).
Se você se sente sozinho – e talvez você esteja sozinho por fechar-se em sua solidão – lembre-se que você sempre tem o corpo de Cristo, sempre tem a Igreja de Cristo, sempre tem a manifestação da presença de Cristo e da ação do Espírito de Cristo para falar ao seu coração e dizer: eis que eu estou contigo. É por isso que Cristo morreu não para criar indivíduos crentes, mas um povo crente, uma comunidade que o adorasse e, enquanto o adorasse caminhasse juntos, levando uns a cargas dos outros (Gl 6:2).
Se você está sozinho, se você realmente está sozinho, talvez seja porque você tem se fechado e isto tem impedido a comunhão dos santos, porque não há verdadeira Igreja de Cristo onde não haja comunhão. O que tem impedido você de experimentar a alegria de estar com os irmãos, que são filhos do mesmo Deus, servos do mesmo Cristo e membros do mesmo corpo? O que há em seu coração, que mágoa, barreira ou amargura que precisa ser quebrada neste momento? Em nome de Cristo, que nos faz um, não saia daqui com o coração fechado para a comunhão dos santos.

VOCÊ SEMPRE PODE CONTAR COM A BÊNÇÃO DO SENHOR

17 Também dizei a Arquipo: atenta para o ministério que recebeste no Senhor, para o cumprires. 18 A saudação é de próprio punho: Paulo. Lembrai-vos das minhas algemas. A graça seja convosco.
O apóstolo menciona, na conclusão, um companheiro de ministério, provavelmente alguém treinado como Epafras, chamado de companheiro de armas que fizera de sua casa a “sede” de uma Igreja (Fm 1:2), lembrando-lhe do dever de continuar firme no ministério que recebeu. Ele tinha o privilegio de ser Igreja e ser parte da Igreja em sua casa – algo que a grande maioria dos cristãos do sec. XXI não desejam por preço algum no mundo, desejando que a Igreja seja um lugar onde possam ir gastar algum tempo, e se sociabilizar, mas jamais fazer de sua casa (e alguns de sua vida) a Igreja do Senhor.
Por fim Paulo inclui uma inesperada nota pessoal ao afirmar que, embora usasse o costume de ter um amanuense (um escriba que tanto podia registrar palavra por palavra como receber um roteiro e complementar o texto que depois era supervisionado pelo mentor do texto) fez questão de concluir a carta fazendo a saudação de próprio punho, o que só acontece uma outra vez (e justamente na carta onde se mostra mais indignado com a caminhada claudicante dos crentes da Galácia: Gl 6:11). E é justamente de próprio punho que Paulo menciona o desejo que a graça de Deus seja sobre a Igreja colossense. É possível que você já tenha sido abandonado, como Paulo foi pelos judeus e até por companheiros, como Marcos. É possível que você tenha que conviver até mesmo com incrédulos, como Jesus suportou Judas e Paulo conviveu com Demas. Mas você pode ter certeza que a Igreja do Senhor será sempre um porto seguro para encontrar companheiros de caminhada e adoração, partes do mesmo corpo, o corpo de Cristo. Mas tudo isto faz parte de algo ainda maior – a experiência da graça de Cristo.
Quase sempre vejo a menção da graça de Deus referindo-se à salvação – e é verdade, a salvação é pela graça de Deus mediante a fé (Ef 2:8), que também vem por meio de Cristo (At 3:16). Outras vezes vejo o uso da graça como se fosse uma mera promessa de bênçãos materiais. Para Paulo a graça era mais do que isso. A graça era a presença abençoadora do próprio Cristo (I Co 15:10). A graça era a razão da sua própria vida – ele não podia chamar para si mesmo qualquer mérito, sob qualquer circunstância por coisa alguma porque tudo o que ele veio a ser foi apenas o resultado da graça de Deus em sua vida, que o transportou, e aos colossenses, do império das trevas para o reino de Cristo, o Filho do seu amor. E era nada menos do que a graça de Deus que Paulo queria ver os colossenses experimentando – graça que os fortaleceria para serem mais do que vencedores por causa da graça daquele que os amou (Rm 8:37).

LEMBRE-SE: ALGUÉM ABENÇOADO POR DEUS NUNCA ESTÁ SOZINHO

Louvo a Deus por ter a sua atenção neste momento. Louvo a Deus por poder te dizer que você não está sozinho, nunca. A promessa do Senhor Jesus foi que ele estaria com você todos os dias – todos os dias mesmo – até a consumação do século. E o tempo ainda está sendo contado, os séculos ainda não se consumaram, de modo que Cristo ainda se faz presente no meio do seu povo, ainda se faz presente com aquele que nele crê, que vai a ele e lhe entrega sua vida em confiança (Jo 6:37) é tomado em suas bondosas mãos, das quais ninguém pode tomar os que lhe pertencem, os que lhe foram dados pelo Pai (Jo 10:29).

A SOLIDÃO ETERNA NÃO É UM ANSEIO DO SEU CORAÇÃO

Se você chegou até aqui é porque você não deseja estar sozinho – a solidão, seja física ou emocional, não é agradável. A solidão espiritual é a mais terrível de todas as solidões porque faz com que a pessoa se sinta como uma ovelha numa noite sem lua ouvindo uivos de lobos de todos os cantos – sem saber para onde ir, sem ter para onde ir, a menos que seja resgatada pelo bom pastor (Mt 18:12) ouvindo a sua voz e indo a ele (Jo 10:27).

UMA BOA NOTÍCIA PARA QUEM JÁ SE SENTIU SOLITÁRIO

Me permita lhe dizer: você pode ter sido abandonado em algum momento da sua vida por alguém em quem você confiou, mas nunca por Jesus. Você pode até ter sido abandonado por alguém dentro da Igreja, de quem você esperava companheirismo e atenção – mas nunca foi abandonado por Jesus. Você pode até, em situações extremas, ter sido ou se sentido abandonado pela Igreja, até porque não existe Igreja perfeita e ela às vezes falha em amar os seus (família da fé) – mas nunca foi abandonado pelo Senhor Jesus. Ele nunca deixou de cuidar de ti, nunca deixou de te acompanhar, seu amor por você nunca sofreu solução de continuidade, nunca foi menor ou maior porque o Senhor nosso Deus é o mesmo ontem, hoje e sempre (Hb 13:8).

A PERENIDADE DO AMOR DE DEUS

O amor de Deus é o mesmo sempre (Tg 1:17), é o mesmo amor que o levou a te escolher desde antes da fundação do mundo (Rm 8:29) antes mesmo que você pudesse fazer alguma coisa para atrair a atenção amorosa do Senhor (Rm 9:11) e também independe do que você venha a fazer para que o amor de Deus continue sendo derramado sobre você (Rm 9:16).

A GRANDE NOTÍCIA – DEUS CONTINUA SENDO O DEUS GRACIOSO

O mesmo Deus que provou seu imenso amor por você (Rm 5:8) enviando seu filho para morrer em lugar de pecadores que não mereciam e que, não apenas não se interessavam por nenhuma forma de relacionamento com Deus a não ser de afronta e inimizade (Ef 2:14) continua, ainda hoje, a ser o mesmo Deus gracioso. O mesmo Deus que lhe oferece salvação, lhe oferece a companhia da família da fé e, acima de tudo, promete nunca te abandonar (Hb 13:5).
Você pode até ter sido como Marcos – mas nada impede que, pela graça de Deus, você retorne e seja uma bênção e um abençoador. Você pode até ter sido como Onésimo, um fujão que, em busca de liberdade, foi parar na prisão, onde encontrou finalmente a liberdade que vem de Deus (Gl 5:1). Você só não pode ser como Demas – não pode amar o presente século e abandonar a fé. Que tipo de crente você é, afinal? Se você foi liberto do império das trevas, então, foi tornado um filho do amor de Deus – e a graça de Deus tem sido abundante sobre sua vida. Viva pela graça, não abandone a Igreja, seja muito cuidadoso com as suas companhias e console e seja instrumento de consolo para seus irmãos – contando sempre com a bênção do Senhor nosso Deus.
Isso tudo é muito bom. É bom saber que temos a Igreja e que temos o Senhor conosco a nos abençoar. É maravilhoso saber que o Senhor está conosco em cada passo que damos, em cada escolha que fazemos, em cada gesto que praticamos. É bom saber que ele não se afasta em cada gesto de desobediência, nem vira o rosto para cada atitude de omissão. Ele não vai embora quando o descompromisso e a preguiça tomam conta da vida de um crente. E isto é bênção, porque sua mão estará estendida quando o crente relaxado cair em si, perceber que tem pecado contra Deus e desejar, então, arrependido, voltar correndo para a casa do pai (Lc 15.17-21).
É bom saber que, apesar de nossa impertinência e dureza de coração ele não deixou de ser pai – ele não deixa de reconhecer o seu filho e, mais que tudo, ele não deixou de ter um lugar para nós em sua casa, e isto com grande alegria (Lc 15.22-24).
Quero concluir com as palavras do Senhor à Igreja de Éfeso: faze como João Marcos, arrepende-te, veja onde caíste e volta a fazer aquilo que seu coração mandava você fazer quando ainda amava ao Senhor (Ap 2:5) – se é que o amaste e não fostes como Demas e todos os demais que amam o mundo porque nunca experimentaram o amor do pai (I Jo 2:15) e acabam saindo da comunidade chamada Igreja, mas jamais saem da verdadeira Igreja de Cristo porque, na verdade, nunca estiveram nela (I Jo 2:19).

terça-feira, 24 de março de 2015

DE ESCRAVOS DO PECADO A CIDADÃOS DO REINO DOS CÉUS

UMA CARTA PARA UMA IGREJA GENUINAMENTE CRISTÃ

Paulo escreve aos crentes de Colossos que compunham uma igreja com características que merecem ser relembradas. Sabemos que, em alguns aspectos, a Igreja de Colossos era uma Igreja que poderia nos servir de padrão, um modelo a ser imitado porque eles eram verdadeiramente crentes no Senhor Jesus Cristo (v. 6). Sua fé no Senhor Jesus os impulsionava ao amor mútuo, pois só assim ela seria verdadeiramente evidenciada como um testemunho da transformação que Jesus produz, mesmo num mundo repleto de disputas (I Jo 4:11).
Fazendo eco às palavras de Paulo aos coríntios, sua fé não se limitava apenas a esta vida (I Co 15:19) mas, como nós, eles aguardavam a bendita esperança celeste que haverá de ser manifestada a todos os crentes (Tt 2:13), a herança incorruptível (I Pe 1:4) que foi prometida pelo próprio Senhor Jesus (Jo 14:2).
Por causa de sua fé e esperança, com um estilo de vida em que o amor mútuo poderia ser percebido até pelos inimigos da cruz, esta Igreja estava fadada a ser uma Igreja frutífera. Eis o perfil que Paulo traça desta Igreja. Mas ela era, ainda, a igreja militante, a Igreja que, embora com a vitória garantida ainda não estava revestida do triunfo. Já era vitoriosa, mas ainda tinha que se manter atenta contra alguns perigos, por isso Paulo ora a Deus para que eles não se acomodem e se mantenham vigilantes contra os falsos mestres, sem se deixar enredar pelo cerimonialismo porque o ritualismo não vence o pecado, como bem sabiam os hebreus que, embora profundamente ritualistas, eram meramente hipócritas (Mt 15:8). Como resultado desta fé em Cristo, desta luta contra o pecado os vícios devem ser abandonados e as virtudes cultivadas em todos ambientes – família, Igreja, trabalho, sempre com prudência e oração.
DEUS TEM ABENÇOADO SEU POVO…
Que Deus tem abençoado de todas as maneiras, tanto em situações normais como em eventos extraordinários nenhum de nós ousaria negar. Se é assim, também podemos nos fazer a mesma pergunta feita pelo salmista: que daremos ao Senhor por todos os seus benefícios? (Sl 116:12). Mencionando apenas de passagens os benefícios materiais e emocionais, a saúde e coisas semelhantes, precisamos voltar nosso pensamento para aquilo que o salmista realmente queria que atentássemos: que temos nós a oferecer ao Deus que é dono de todo o ouro e a prata, de todos os animais e árvores? (Ag 2:8).
Como retribuir o fato de que vivíamos sem Deus no mundo, alheios à sua aliança, e, portanto, sob a justa condenação e ele, mesmo assim, se interessou por nós, buscou-nos enquanto estávamos perdidos (Mt 18:11) e, mais que isso, espiritualmente mortos por causa das nossas próprias escolhas pecaminosas (Ef 2:1) e andanças por caminhos que lhe eram ofensivos em evidente atitude de inimizade (Ef 2.2-3).
Como não ser grato ao perceber a extensão das bênçãos de Deus que, vendo-nos condenados ao inferno por nossas próprias ações, escravos de satanás e presos ao sistema de pensamento e estratégias mundanas para agradar aos anseios da carne ainda assim enviou seu filho para nos resgatar desta escravidão? Não apenas nos resgatou desta escravidão como, num costume muito conhecido dos crentes colossenses, à maioria deles gentios, libertou-nos e nos adotou como filhos, como nobres e imperadores costumavam fazer com escravos que lhes alcançassem o favor.
É justamente sobre a figura de um escravo condenado, um gladiador que, embora sempre pronto a lutar em uma arena, sabia que sua vida dependia da vontade do imperador do turno que entenderemos a ação de libertação de Deus na vida de pecadores como nós. Os gladiadores eram escravos, eram soldados capturados em guerras, e viviam unicamente para sobreviver – até que encontrassem um gladiador mais habilidoso ou mais afortunado.
…COM A LIBERDADE
Ele nos libertou do império das trevas…
Paulo afirma que Deus, o pai, tomou a iniciativa de agir em favor de quem nada podia fazer para mudar a sua situação. Como um imperador da antiguidade, ele tomou a iniciativa de dar liberdade a quem não poderia conquista-la, a quem só sairia da arena morto. Deus, por sua graça, entrega a liberdade a condenados, resgata-os da condenação, tira-os para fora de um império que detinha legitima autoridade para governar sobre a vida de seus súditos (II Pe 2:19).
Satanás não é chamado de 'príncipe deste mundo' à toa. Ele o rege, ele o governa. Ele não governa o cosmos, mas o sistema, os governos, as instituições, molda as coisas de maneira que as aspirações carnais dos homens sejam satisfeitas e eles se inclinem mais e mais para as obras infrutíferas das trevas (Tt 3:3). Assim como um gladiador lutava e muitos provavelmente sentiam-se verdadeiros heróis matando outros gladiadores, assim também é o homem escravo do império das trevas – ele vive para agradar o seu pai, o seu senhor (Jo 8:44) e só percebe seu estado de miséria quando, derrotado, tem a morte diante de si – e é justamente neste momento que o Senhor intervém, erguendo a sua mão e apontando o polegar para cima, literalmente dando-lhe a vida de presente.
O império do qual Deus liberta seu povo é justamente chamado de império das trevas porque, nele, tudo é feito de maneira vergonhosa, e mesmo a mais desavergonhada das ações é feita com um sentimento de desafio, de afronta – é o homem tornado louco e afrontando ao criador e por isso sendo chamados de filhos da ira (Rm 1:32).
Deus os liberta do império das trevas, de uma imposição de uma vontade que decidia por eles, mantendo-os em ignorância e absolutamente incapazes de verem a luz, sem perspectiva ou desejo de experimentar as realidades espirituais do reino divino – mesmo quando estas realidades lhes eram expostas eram tidas por loucura, porque são coisas que só podem ser discernidas espiritualmente (I Co 2:14) e sua ignorância, lamentavelmente, tem como consequência a miséria das trevas eternas onde o diabo não mais regerá, pelo contrário, o diabo estará lá em tormento assim como seus seguidores (Mt 25:41).
…COM UMA NOVA CIDADANIA
…e (ele) nos transportou para o reino do Filho do seu amor…
Geralmente os gladiadores eram soldados que, vencidos em batalhas, eram transformados em escravos – perdiam a liberdade e tinham como único patrimônio a habilidade com as armas para poderem sobreviver. Sua vontade estava atrelada à vontade do governante ou do 'nobre' que o possuía. E esta vontade que imperava sobre ele só lhe determinava uma coisa: morte! Morte! E mais mortes! Mas, assim como o imperador poderia decretar a liberdade de qualquer escravo, a qualquer tempo, a intervenção de Deus traz liberdade ao escravo do pecado e das trevas.
Mas Deus vai mais além, ele não apenas liberta do império das trevas como, também, o transporta, isto é, tira de uma situação ou de um lugar real (ainda que muitos não acreditem na existência do reino das trevas embora o sirvam inadvertidamente, pois a maior contribuição que alguém pode dar ao diabo é dizer que ele e seu reino não existem) para um outro lugar, também real (II Pe 3:13) – ainda que também haja quem diga que o novo céu e a nova terra são uma utopia. Faz assim quem rejeita a Palavra de Deus (Jo 14:2) e ousa chamar o próprio Deus de mentiroso, invertendo a ordem da criação e fazendo Deus à sua própria imagem (I Sm 15:29).
Diferente de estar sob o império (imposição de uma vontade) das trevas o Senhor transporta os seus para um reino sob um governante digno – de escravos os resgatados são libertados e tornados cidadãos de um reino real, que, embora não seja deste mundo (Jo 18:36) e não possa ser encontrado num mapa qualquer (Hb 13:14) é um reino absolutamente real.
Tão real quanto Deus. Tão real quanto Jesus. Tão real quanto a existência do banco no qual você se assenta agora (Jo 1:3). Erra quem quer ver a cidade de Deus como apenas uma cidade de homens, esse foi o erro da igreja medieval. Erra quem quer ver o reino de Deus apenas como um primado da ética – assim ruíram as igrejas que adotaram o liberalismo na teologia. Erra quem quer ver o reino de Deus apenas como uma construção meramente social, erro da teologia da libertação. Erra quem quer ver o reino de Deus apenas como felicidade terrena, aqui, imediata – este é o erro que tem sido cometido pela teologia da prosperidade.
O nosso reino, o reino para o qual Deus leva aqueles a quem liberta, é o reino do seu filho, o reino do Messias tão esperado, o reino do Senhor Jesus Cristo (Rm 14:17). O reino do seu filho tem como características a verdade, a ética, a justiça social, a felicidade, mas tudo isso porque é o reino do filho do seu amor, o reino daquele que entregou-se a si mesmo em favor daqueles a quem ele amou e chamo de amigos (Jo 15:13) e, tendo-os amado, amou-os até o fim (Jo 13:1). O reino de Deus expressa a bondade e a misericórdia de Deus em favor de pecadores que nada mereciam além da sua justa ira (Lm 3:22).
…COM O PERDÃO PLENO
…no qual temos a redenção, a remissão dos pecados.
No filho do amor de Deus, isto é, em Jesus Cristo, passamos a ter uma nova condição (Ef 1:7). Há uma grande transformação sendo feita por Deus, que nos escolhe (Jo 15:16) para mostrar a suprema riqueza de sua graça (Ef 2:7).
Veja que transformação – de escravos e apátridas, agora somos concidadãos dos santos (Ef 2:19). Que mudança radical, de inimigos da cruz de Cristo (Fp 3:18) para filhos amados (Gl 4:6). De adversários e opositores (Mt 12:30) transformados em rebanho cuidado pelo bom pastor (Jo 10:27).
Redenção é a liberdade adquirida mediante o pagamento de um resgate, de algo que é entregue em favor de um débito. Sabemos que o resgate de uma alma é caríssimo e o ensino das Escrituras é que estas tentativas devem cessar por serem infrutíferas e insuficientes (Sl 49:8). Todavia, saber disto não deve nos desesperar porque a nossa redenção foi conquistada pelo Senhor – um preço foi pago (I Co 6:20).
Mas que preço? Quanto? O que precisa ser feito? Não foi um preço qualquer, nem mesmo nada que possamos fazer – lembre-se que, em seus pecados, o homem está morto. A redenção não é conquistada mediante obras meritórios (Ef 2.8-9) porque elas não existem (Is 64:6), e nem por obras da lei (Gl 2:16) porque ninguém consegue obedecê-la integralmente (Tg 2:10).
Você precisa saber o preço que foi pago para que o seu sangue não fosse derramado – para que você não perecesse sob o império das trevas. Este preço foi o sangue de Jesus Cristo, o redentor. Não de um homem ou de uma mulher, mas o de Jesus, o único redentor (At 4.12). Nem ouro, nem prata, nem nossas obras, mas a nossa liberdade foi adquirida mediante o pagamento de um resgate inigualável, o sangue do próprio Filho de Deus (I Pe 1.18-20).
Remissão é ser liberto de uma pena mediante perdão total – e este perdão total foi obtido mediante o derramamento do sangue de Jesus (Hb 9:22). Sua perfeita obediência curou-nos da nossa desobediência, por meio dele os escravos foram tornados livres para obedecer. Aqueles que erravam propositalmente o alvo agora podem olhar firmemente para o autor e consumador da fé, o Senhor Jesus Cristo (Hb 12:2).
O QUE VOCÊ NÃO PODE ESQUECER
Sabemos que Deus tem abençoado – aliás, sabemos que Deus é, em última instância, a fonte de todas as bênçãos. Sabemos também que não podemos pagar pelas bênçãos de Deus, devolvendo-lhe algo que tenha o mesmo valor do que ele nos dá. Dentre estas muitas bênçãos lembramos o fato de que, todo homem, por causa de suas próprias transgressões, é escravo do pecado, vendido à servidão dos interesses da carne, do mundo e do diabo, num círculo vicioso no qual o diabo usa as seduções do mundo como armadilhas para que os interesses mundanos dos homens sejam satisfeitos, gerando, assim, novas seduções e armadilhas, e, de abismo em abismo, resta ao pecador nada menos que o abismo eterno, o inferno (Sl 42:7).
Escravizado, todavia, ainda podendo ser alcançado pelo grande amor de Deus. Morto por causa dos pecados, mas não longe do alcance do braço misericordioso de Deus, que, por causa da muita misericórdia nos deu vida (Ef 2.4-5).
Condenados à lutar até a morte, quanto mais vivendo mais merecendo a morte, satisfazendo-se em sua própria rebeldia, mas não distantes demais que não possam ser alcançados por aquele que chama para uma nova vida (I Pe 4.4).
E é nesta situação de alcançados que somos convidados a render graças ao Senhor – se não temos nada que possa pagar o bem que ele nos fez, respondendo à pergunta inicial do salmista, resta-nos entregar todo o nosso ser em suas graciosas mãos, e a) receber a salvação que ele dá; b) invocar o nome do Senhor, reconhecendo-o em todos os seus caminhos e c) testemunhar sobre como Deus tem agido em sua vida, resgatando da escravidão e dando liberdade, cidadania celeste e o perdão dos pecados.
O QUE VOCÊ DEVE FAZER
Como fazer isso?
i. Lembre-se que você não é mais escravo do diabo, nem do mundo, nem do pecado, e nem mesmo de suas próprias inclinações – você é de Deus, nascido de Deus, viver na prática do pecado não é um imperativo em sua vida (I Jo 5:18);
ii. Lembre-se que você não é mais um mundano, você tem uma nova cidadania, você é um cidadão dos céus. Enquanto estiver aqui, você é apenas um peregrino, e, como tal, não pode amar o mundo nem suas ofertas (I Jo 2.15-16);
iii. Lembre-se que você recebeu o perdão de Deus – seus pecados foram pagos mediante a morte de Jesus na cruz. Embora para você tenha sido uma expressão da graça de Deus, o preço foi a morte do Filho naquela cruz infame, em seu lugar (I Pe 3:18) e, por isso, não menospreze o que Deus fez por você (Hb 10:29).
Se você já conhecia estas coisas, não tem razão para não as colocar em prática em cada momento de sua vida. Amanhã você retoma a sua lide diária – pergunte-se agora se alguém consegue ver que você recebeu estes benefícios de Deus sem que você precise fazer algum discurso? É hora de você fazer uma reavaliação de sua vida de crente em Jesus Cristo.
Se você ainda não conhecia, e agora conhece, o que você vai fazer? Vai desprezar o anúncio da graça salvadora de Deus, como fizeram os homens dos dias de Noé, como fizeram os judeus nos dias de Jesus e como milhares tem feito todos os dias? Por favor, não se esconda sob a desculpa de que você não pediu a crucificação de Jesus – lembre-se que Jesus afirmou que quem não é por ele é contra ele. Com quem você está, afinal? Só existem dois senhores – Jesus ou o diabo. Quem é o Senhor de sua vida?
Deixe-me te dar algumas dicas práticas, que vale para todos aqueles que nasceram de novo, independente de há quanto tempo:
i. Nunca, mas nunca mesmo, abandone a leitura contínua das Escrituras – mesmo que ela pareça muito difícil de entender e praticar no começo, o Espírito do Senhor a usará para te dar sabedoria;
ii. Confie suas decisões às orientações das Escrituras, e não em seus sentimentos – homens de Deus desejaram a morte, como Elias, Jó e Jonas, mas Deus tinha grandes planos para eles;
iii. Nunca vá a ambientes onde as trevas sejam mais honradas que a luz, onde Jesus não é bem-vindo como salvador nem honrado como Senhor absoluto;
iv. Abandone tudo aquilo que era comum em sua vida sem Cristo, deixando as obras infrutíferas das trevas, mesmo que com prejuízo imediato – o Senhor recompensa com muito mais;
v. Não é bom que o homem esteja sozinho – nem só, nem mal acompanhado. Procure a companhia dos santos, e ande com eles na luz, evite o conselho dos ímpios, não ande no caminho dos pecadores nem se assente na roda dos escarnecedores;
vi. Alimente sua mente e coração somente com o que edifica – esqueça revistas e programas televisivos nos quais os produtores olham para você apenas como uma carteira ou um vaso sanitário;
Em tudo busque ser uma testemunha fiel, sabendo que o Senhor dará a justa recompensa aos que forem fiéis, mesmo em face da morte – eles receberão a coroa da vida. 

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