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segunda-feira, 30 de abril de 2018

PRIVILÉGIOS NÃO DEVEM SER DESPERDIÇADOS


Boletim dominical da Igreja Presbiteriana em Paragominas, 29 de abril de 2018
Lembro-me destas coisas - e dentro de mim se me derrama a alma-, de como passava eu com a multidão de povo e os guiava em procissão à Casa de Deus, entre gritos de alegria e louvor, multidão em festa (Sl 42:4).
Este verso do salmo 42 traz um profundo lamento de uma alma angustiada porque não tinha uma das coisas que mais lhe dava deleite: o privilégio de ir ao templo, de reunir-se na Casa de Deus com o povo de Deus, com aqueles a quem Davi chama de os ‘notáveis que há na terra’, os santos de Deus.
Este salmo davídico foi composto quando Davi não podia cultuar a Deus como desejava, na tenda da congregação que estava com a arca da Aliança em Jerusalém, por causa da rebelião de seu próprio filho Absalão. Com saudades o agora idoso Davi se lembra dos dias em que ele conduziu festivamente o povo adiante da arca, certamente com a companhia de alguns dos que, agora, procuravam tirar-lhe a vida. Provavelmente o próprio Absalão estava com ele, e certamente Aitofel, que se tornara o conselheiro do filho revel.
Obviamente Davi não imaginava que isto iria acontecer, e nem é esta a preocupação que ele expressa neste salmo. Aqui ele não lamenta a traição do filho ou do companheiro de armas - seu lamento é por não poder cultuar a Deus onde gostaria de cultuar a Deus.
Séculos depois, outros salmistas também faziam o mesmo lamento, não mais nas proximidades de Jerusalém, mas algumas centenas de quilômetros distantes, pois foram tornados escravos na Babilônia. Às margens de seus rios se negavam a cantar os salmos, os instrumentos pendiam sem uso e um sentimento invadia o coração: a saudade de casa.
Às margens dos rios da Babilônia, nós nos assentávamos e chorávamos, lembrando-nos de Sião (Sl 137.1).
É óbvio que eles não deixaram de adorar a Deus, especialmente porque é sabido que foi na Babilônia que desenvolveu-se o sistema de sinagogas, que serviriam de bases e formato (os missiólogos gostam de chamar de pontes) para a Igreja cristã expandir-se rapidamente como podemos encontrar no ministério do apóstolo Paulo. Todavia, mesmo com as sinagogas, os crentes ainda tinham saudades de sua casa, da sua casa de oração, da casa que o Senhor havia dito que seria casa de oração para todos os povos.
...também os levarei ao meu santo monte e os alegrarei na minha Casa de Oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar, porque a minha casa será chamada Casa de Oração para todos os povos (Is 56.7).
Prosseguindo um pouquinho mais logo descobrimos que, tendo o Senhor escolhido um lugar para fazer habitar o seu nome, esta habitação era apenas um tipo de uma outra forma de habitação, isto é, a arca da aliança, a arca da presença de Deus apenas apontava para algo muito mais extraordinário, a presença do próprio Deus no meio de seu povo, o Deus que “fez seu tabernáculo entre nós”.
E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai (Jo 1.14).
Algum tempo depois de fazer-se presente entre nós o Senhor Jesus ensinou que chegaria novo tempo, e que este tempo era chegado, em que o lugar de adoração seria o menos importante, mas a forma da adoração, a essência da adoração é que seria levada em conta - pois havia muitos hipócritas no templo, mas o Senhor desejava adoradores que o adorariam em Espírito e em verdade sem dirigirem-se ao templo de Jerusalém.
Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores (Jo 4.23).
Este é o melhor tempo, este é o melhor dia, o dia em que o Senhor estabelece o seu templo não mais para seus adoradores, mas em seus adoradores, fazendo deles seu santuário, e, como um santuário, tudo deve estar disposto para a adoração ao Senhor - seu coração, seu tempo, suas mãos.
Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? (1Co 3.16).
Imerecidamente Deus ainda preservou para a sua Igreja embaixadas do reino, um lugar onde congregar, um privilégio que não deve ser desprezado. Vivemos peregrinos por uns poucos dias, andamos de casa em casa (e isto foi bom, conhecemos as casas dos nossos irmãos), habitamos em uma “tenda” (uma tenda bem confortável, é verdade, providenciada por Deus pela instrumentalidade de um servo seu) mas agora estamos de volta à nossa casa, nosso lugar de reunião. Ansiávamos pelo retorno à nossa casa, e, agora aqui, estamos, portanto, não despreze este privilégio.
Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima (Hb 10:25).

terça-feira, 7 de março de 2017

VI. A IGREJA MANTÉM SUA IDENTIDADE E CUMPRE SUA MISSÃO QUANDO ESTÁ FOCADA NO QUE É ESSENCIAL

Toda a Igreja, do menor ao maior, do neófito ao ministro (e já dissemos muitas vezes, Igreja não é instituição, Igreja é o corpo vivo de Cristo, composto por pessoas que o amam e o servem), deve compreender que seu alvo prioritário é buscar a glória de Deus, é anunciar o que Cristo fez nela e por ela (Mc 5:19) – todas as coisas devem ser vistas como instrumentos para a glória de Deus, do contrário se tornam argueiros e traves a impedi-los de olhar firmemente para o autor e consumador da fé, Jesus (Hb 12:2). Cabe aos líderes conduzirem o rebanho, e ao rebanho não ser pesado aos seus guias. Existem inúmeras alternativas à fé cristã, tais como islamismo, budismo. Existem alternativas aparentemente cristãs, como espiritismo, adventismo e mormonismo, Legião da Boa Vontade. Existem até alternativas “cristãs à fé cristã”, isto é, que se parecem em quase tudo com a fé cristã, usando inclusive o nome do Senhor Jesus e sua Palavra, mas não dando ao Senhor a glória que lhe é devida (estas alternativas não merecem o nome de Igreja, mas de empresas ou, no máximo, instituições eclesiásticas). A Igreja deve cuidar para não ser enganada por ministros de satanás travestidos de ministros de justiça. A Igreja não deve se deixar seduzir por nenhuma das concupiscências do mundo (fortuna, profissão, fama, lazer, prazeres, etc.) e manter a sua identidade, podendo, assim, desempenhar sua missão a contento. Para isso a Igreja do Senhor não se desvia nem para a direita, nem para a esquerda, (Dt 5:32) mas

POSSUI FOCO NA SUA PRIORIDADE ESSENCIAL

Nem sempre é fácil estabelecer prioridades. Certa vez um pequeno empresário, do ramo de confecções, endividado, apresentou um dilema a um especialista em pequenas empresas: ele tinha uma grande quantia a receber de diversos clientes porque vendia a prazo. Ao mesmo tempo, tinha uma boa porção de produtos em exposição e um grande débito com fornecedores. Ele tinha algumas alternativas – continuar vendendo, mesmo a crédito (e, ao mesmo tempo, fazer mais compras para fazer uma promoção a vista para quitar as dívidas mais imediatas) ou parar de comprar e tentar receber o que estava espalhado entre os credores. Depois de algumas considerações, ele continuou de portas abertas, fez mais uma compra, se endividando ainda mais, e fez uma promoção. Chamou também os clientes com débitos e renegociou o que tinha a receber, dando um generoso (eu até diria desesperado desconto) para receber o máximo possível. E a empresa sobreviveu. Sobreviveu porque ele estabeleceu uma prioridade: receber o máximo possível para quitar as dívidas que estavam vencidas e vincendas, do contrário, sua empresa fatalmente iria a falência.
Mudando o que pode ser mudado, pois a Igreja não é uma empresa e, certamente, a Igreja do Senhor Jesus não pode falir (Mt 16.18) embora Igrejas locais possam desaparecer (onde estão as Igrejas às quais o Senhor endereçou suas cartas no livro de Apocalipse, mesmo a mais fiel delas?) como aconteceu com Igrejas outrora poderosas na Europa porque cometeram um grave erro – deixaram de olhar para o autor e consumador da fé, Jesus (Hb 12.2) e passaram a olhar para o espírito do tempo, passando de sal da terra e luz do mundo (Mt 5:13) para uma entidade que dialogava dialeticamente com ele, absorvendo seus conceitos humanistas e antiteístas e anticristãos deixando de cumprir seu propósito, tendo sido, definitivamente, pisada pelos homens. A Igreja não pode perder suas prioridades – não pode perder o foco, não pode olhar para os lados nem para trás (Lc 9.62) porque não deve perder de vista o fato de que nada há mais importante para ela do que o reino de Deus. A prioridade da Igreja deve ser espelhar Cristo, testemunhar o amor de Cristo, viver para Cristo e em Cristo (Gl 2.20), ser encontrada fiel, em Cristo.
A questão que se impõe é: a Igreja conhece realmente quais são as suas prioridades? O que o crente, Igreja do Senhor, deve ter, afinal, como prioridade? Uma lista muito comum é: Deus, família, sustento e Igreja (ou Igreja e sustento). Mas nesta lista não encaixa “Cristo é tudo em todos” (I Co 12.6). O que isto quer dizer? Ora, a própria bíblia ensina: tudo quanto fizerdes (adoração, comunhão, família, trabalho) deve ser feito no Senhor e para o Senhor (Cl 3:23). Deixe-me destacar: este homens inclui você. Cada ação da Igreja deve ser fundamentada pela firme determinação de tudo fazer para o Senhor – e isto só poderá ser feito por meio de Cristo (Jo 15:5). É Cristo, e não eu ou você, quem determinamos as prioridades para a Igreja. E Cristo nos mostra suas prioridades em sua Palavra: devemos viver para ele porque ele morreu por nós – a Igreja só está viva se estiver em Cristo, porque ela é nada menos que o corpo de Cristo – ou então não é Igreja.
 19 Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; 20 mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam;  21 porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.  22 São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; 23 se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão!  24 Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.
 25 Por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes?  26 Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves? 27 Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?  28 E por que andais ansiosos quanto ao vestuário? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam. 29 Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.  30 Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé?
 31 Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos?  32 Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; 33 buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. 34 Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal.
Mt 6.19-34
Com base nesta mensagem de Jesus à sua Igreja no famoso sermão do monte podemos afirmar que a Igreja tem prioridades que devem ser buscadas. Um grande equívoco que a Igreja cometeu ao longo dos séculos é identificar-se com uma nação, como aconteceu com Israel, uma cultura, como a greco-romana cristianizada ou até mesmo uma pessoa, como o papa ou os modernos proprietários de “emprejas”. Isso limita tremendamente a visão que a Igreja possui de si mesma e, pior ainda, limita a capacidade da Igreja de ser o que realmente deveria ser – uma agência de anúncio das boas novas de salvação a todos os povos, de redenção a todas as culturas. A Igreja não é ocidental, não é oriental, não pertence a fulano ou beltrano. Uma Igreja assim particularizada certamente terá dificuldade em atingir culturas antagônicas. Se a Igreja é de “A” ou “B” (e tem muitas instituições eclesiásticas assim) ela não é verdadeiramente de Cristo. Se a Igreja é do Brasil ou dos Estados Unidos, e pretende propagar a cultura brasileira ou estadunidense, ela é apenas uma instituição deste mundo – e, se é deste mundo, não é do reino de Cristo (Jo 18.36). A Igreja é de Deus. Somente pertencendo a Deus é que a Igreja merece ser considerada verdadeira Igreja, o corpo vivo de Cristo vivendo sobre a terra, espiritualmente ligado ao seu Senhor e cumprindo o seu propósito, com uma missão bem definida e tendo como alvo principal de sua agenda servir ao Senhor, conhecendo sua vontade e buscando agradar-lhe em tudo. A Igreja vive e existe porque é um projeto do Pai e não porque tem projetos para o Pai. A Igreja de Cristo tem que poder dizer de si mesma: não vivemos por nós mesmos, Cristo vive em nós (Gl 2.20), não fazemos por nós mesmos, mas só fazemos porque fazemos em Cristo (Jo 15.5). Em Cristo a Igreja é capaz de viver como reino de Deus, proclamar sua justiça e viver em absoluta dependência de fé.
A Igreja deve ter como prioridade em seu viver buscar

i.                  O REINO DE DEUS

Um grande equívoco da Igreja foi o de comparar-se com Israel e julgar-se detentora do direito de ser (ou ter) um reino na terra, demarcando territórios e usurpando poderes que deveriam ser de autoridades instituídas por Deus, mas civis. Lamentavelmente ao longo dos séculos seus líderes se comportaram – e modernamente alguns ainda se comportam – como se fossem tiranos de uma instituição terrena, muitas vezes chegando a possuir poder bélico e condenando à morte aqueles que deveria se esforçar para salvar do inferno. Não retendo o cabeça (Cl 2.19) acabam sob o domínio de usurpadores, que estabelecem guetos que são tudo menos a verdadeira Igreja de Cristo. Uma verdade insofismável é que o reino de Deus não é deste mundo, Jesus afirmou isto claramente, não será estabelecido nesta terra – não como a conhecemos atualmente, mas somente quando vier o novo céu e a nova terra (II Pe 3.13). Todavia, em seu equívoco, quando a Igreja buscou ter um reino nesta terra ela se esqueceu que o reino de Deus é uma dádiva divina (Lc 13.32) e que viver neste reino implica, antes de mais nada, em renúncia a este mundo, aos prazeres e concupiscências deste mundo, inclusive o poder terreno (Ef 4.22). Ser parte do reino de Deus equivale a não ter nada com este reino onde são apenas peregrinos (I Pe 2.11) porque são cidadãos de outro reino (Ef 2.19) e você pode até possuir dupla cidadania em países deste mundo, mas ninguém pode possuir dupla cidadania, mundana e celeste porque não pode servir a dois senhores (Lc 16.13). Se você, que é a Igreja, que é parte do reino de Deus deseja realmente desfrutar deste reino precisa entender que, antes de mais nada, seu coração não pode estar demasiado ligado às coisas naturais (Rm 14.7) que trazem ansiedade e que exigem atenção, cuidados e muitos esforços diários (Lc 12:29).
Além de considerar como tendo primazia o reino de Deus que lhe é dado, a Igreja também deve buscar

ii.                   A JUSTIÇA DE DEUS

Podemos entender justiça (δικαιοσυνη) como uma condição aceitável diante de Deus, como pureza de vida ou mérito na retribuição. Se a justiça buscada for a do mérito, o pecador tem um sério problema porque o salário do pecado é a morte (Rm 6:23) e não há quem não peque (Ec 7:20). Por esta justiça ninguém é aceitável diante de Deus – a justiça dos homens está muito abaixo do padrão de Deus. Então, temos que entender a justiça do reino como aquela que nos é outorgada pelo Rei – em Cristo a justiça de Deus foi plenamente satisfeita, e é por ela que a Igreja é vencedora, é por Sua justiça que a fome e sede do pecador são saciadas (Mt 5.6) quando o Redentor clama “Está consumado” numa cruz, o justo pelos injustos. A incapacidade do homem de produzir a justiça torna essencial a demonstração da justiça divina (Jr 1:10). Nossa incapacidade de produzir qualquer coisa agradável aos olhos de Deus (Is 64.6) nos leva a admitir a justiça do reino, em Cristo, que nos criou para que andássemos em boas obras previamente preparadas (Ef 2:10) ao contrário do que é comum pensar, de que talvez fôssemos capazes de andar fazendo boas obras e merecêssemos o reino. Apesar de incapazes de merecer a salvação por obras de justiça segundo a lei (Gl 2.16) ainda é exigido dos cidadãos do reino que sua justiça exceda a dos meramente religiosos que geralmente mais criteriosos em demonstrar a justiça própria (Mt 5.20). O padrão de Deus de justiça (Mt 5.48) só pode ser alcançado em Cristo (Rm 8.1). O problema não está na prática das boas obras, mas a confiança nas próprias obras como forma de justificação (Fp 3.9) por isso somos exortados a confiar na justiça de Deus (II Co 5.21).
Além de buscar o reino e a justiça de Deus, a Igreja deve levar uma

iii.                 VIDA DE DEPENDÊNCIA DE DEUS

Das muitas coisas que o Senhor Jesus nos diz para fazer, algumas são extremamente difíceis. Dentre elas está a orientação para não nos inquietarmos (Mt 6.34). Somos por natureza inquietos. Ficamos inquietos pela expectativa de coisas boas e, também, pelo temor de coisas ruins. Os acontecimentos do futuro são uma grande incógnita para nós. Não sabemos quando chegarão. Não sabemos se chegarão. Não sabemos como chegarão. A inquietude invade o coração por coisas básicas, como o comer, o beber. A inquietude invade o coração por coisas secundárias, como o vestir e o morar. A inquietude invade o coração seja na manutenção ou na busca por recuperação da saúde. Tudo é motivo para a inquietude. A solidão é motivo para a inquietude. A pessoa amada é motivo para inquietudes. Jesus nos dá um modelo precioso sobre o cuidado de Deus para com os seus. Ele diz que o Senhor cuida dos pássaros (e eles nascem, vivem, comem, bebem e morrem). O Senhor cuida das ervas do campo (e elas nascem, vivem, florescem e morrem) mas o Senhor tem um cuidado especial pelos seus, na vida (Sl 37.25) e na morte (Sl 116:15). Para ilustrar o que significa confiar em Deus lembre-se que você não deve se inquietar por onde o Senhor te levará porque ele não apenas conhece o caminho, ele é o caminho. Nos inquietamos porque achamos que tudo depende de nós quando na verdade tudo está nas mãos de Deus, certo e determinado e nosso esforço deve ser sempre o de buscar estar no centro de sua vontade, porque, se ele quiser, faremos o que intentamos (At 18.21) ou, se ele quiser, morreremos (Dn 3.17-18) mas sem jamais deixar de confiar no Deus que dirige não apenas o nosso destino, mas o destino das nações (Sl 33.10). O Senhor conhece cada uma de nossas necessidades, conhece necessidades que não conhecemos, atende necessidades nossas que sequer imaginamos, que não pedimos (Mt 6:8) e o que a Igreja precisa aprender é buscar compreender o que Deus deseja para sua vida, confiar nele e lançar sobre ele a sua ansiedade (I Pe 5:7). O nosso problema não está em não termos o cuidado de Deus, mas em não confiarmos o suficiente e acreditarmos que só tendo o que desejamos, o que achamos necessário é que ficaremos realmente bem (Sl 127.). Confiar não é deixar de pensar nos meios e consequências – confiar é pensar nos meios e nas consequências, e entregar o resultado de tudo a Deus (Tg 4.15), e, se os meios não forem os que planejamos, a consequência será sempre aquela que o Senhor considera o maior bem para os seus (Rm 8.28).

CONCLUSÃO

É muito comum, ao fim do ano, os conselhos das Igrejas se reunirem com as demais lideranças para traçar alvos, metas e estratégias. Isto não é pecaminoso, planejar é necessário para organizar os trabalhos da Igreja, os eventos que acontecerão – o próprio Senhor Jesus nos orienta a planejar (Lc 14.28-30). É legal estabelecer alvos e trabalhar para alcançá-los. Cabe à liderança da Igreja conduzirem o rebanho, e cabe ao rebanho não ser pesado aos seus guias. Ambos precisam estabelecer alvos factíveis e prestar auxílio para alcançá-los. Alvos financeiros, alvos de crescimento, alvos de melhora na frequência e até mesmo alvos mais difíceis de medir, como a comunhão e a alegria da Igreja durante os cultos. Mas o alvo prioritário da Igreja não pode ser esquecido – ela foi criada para glorificar a Deus, dar testemunho da salvação mediante a fé em Jesus Cristo para que outros pecadores conheçam a graça de Deus.
Não podemos fugir a esta meta prioritária: glorificar a Deus. É possível encontrar Igrejas que não se preocupam com isso, que se propõem outras metas, que, na verdade, se colocam como alternativas “cristãs à fé cristã”, parecendo-se em quase tudo com a fé cristã, usando o nome de Cristo e com a bíblia nas mãos – mas glorificam a si mesmas, a gloria é da instituição ou de pessoas. Não nos deixemos enganar por ministros de satanás travestidos de ministros de justiça. Não nos deixemos seduzir por estas propostas de termos como alvos prioritários as coisas deste mundo, tais como fortuna, profissão, fama, lazer, prazeres, bens... lembremos que o amor ao mundo é um sintoma de uma terrível enfermidade – o desconhecimento de Deus (I Jo 2.15-17).

Lembre-se que seus alvos prioritários devem passar por estas três características essenciais: você deve priorizar o reino de Deus – que não é comida, nem bebida; você deve priorizar a justiça de Deus – que não pode ser alcançada pelo braço do homem mas é revelada na graça redentora de Cristo; você deve confiar que Deus vai te conduzir às águas tranquilas e pastos verdejantes – mesmo que no caminho tenhas que passar pelo vale da sombra da morte. Enquanto você caminha até lá, se você tem o Senhor como seu guia e senhor, você não sentirá necessidade, sua alma não arderá de desejos por mais nada além da gloriosa presença do Senhor ao seu lado. Qualquer outra meta que não tenha como prioridade glorificar a Deus não passa de um ídolo.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

QUANDO CONGREGAR NÃO É SUFICIENTE

Você é membro de Igreja? Você congrega? Você contribuiu? E que mais?
Pode parecer estranho, pois o que normalmente esperamos das pessoas é que estas se tornem membros de nossas Igrejas, que congreguem e que contribuam. Feito isto, cumpridos estes deveres eclesiásticos, tudo deveria estar bem.
Mas me atrevo a perguntar novamente: e que mais? Como assim que mais”? bom, vamos, então, ao ponto. Estas três atitudes mencionadas a principio: ser membro (há membros que, estranhamente, não congregam), congregante (há membros que congregam e não contribuem, ou que não congregam e contribuem) e contribuinte não são aquilo que a Escritura traça como o perfil do cristão.
Há algo mais, além da fé (não mais importante que ela e que não a complementa, mas que a demonstra, que a evidencia), obviamente, que muitas vezes passa despercebido. Deixe-me colocar isto em forma de pergunta: você agrega? O que você está fazendo mesmo na Igreja? Qual o seu papel? Em que você está contribuindo para a expansão do reino, para que a sua Igreja seja conhecida como uma embaixada do reino de Deus na terra?
Quantas pessoas você, discípulo de Cristo, conduziu a Cristo e discipulou, ensinando a guardar tudo aquilo que o Senhor te ensinou e ordenou ensinar?
Talvez sua consciência esteja tranquila com o fato de você ter professado a sua fé, ter sido recebido como membro e ir na Igreja de vez em quando – uma vez por semana, ou uma vez por mês, quando é informado da data da santa ceia. Talvez ela se aquiete quando você entrega o seu dizimo e contribui para alguma das causas que são informadas após os cultos. Mas talvez isso não seja suficiente.

Estar contente com isto significa apenas que a mornidão já tomou conta de seu coração, que algo já está terrivelmente errado com sua espiritualidade – e que uma mudança se faz necessária, urgentemente. Estar contente com esta situação indica vida aparente, mas, na verdade, estar profundamente amortecido. Fariseus eram religiosos criteriosos, cumpridores estritos de seus deveres – mas isto não era suficiente. Diz-nos o Senhor que se a vossa justiça não exceder a deles, jamais entrareis no reino dos céus (Mt 5.20). 

terça-feira, 24 de março de 2015

DE ESCRAVOS DO PECADO A CIDADÃOS DO REINO DOS CÉUS

UMA CARTA PARA UMA IGREJA GENUINAMENTE CRISTÃ

Paulo escreve aos crentes de Colossos que compunham uma igreja com características que merecem ser relembradas. Sabemos que, em alguns aspectos, a Igreja de Colossos era uma Igreja que poderia nos servir de padrão, um modelo a ser imitado porque eles eram verdadeiramente crentes no Senhor Jesus Cristo (v. 6). Sua fé no Senhor Jesus os impulsionava ao amor mútuo, pois só assim ela seria verdadeiramente evidenciada como um testemunho da transformação que Jesus produz, mesmo num mundo repleto de disputas (I Jo 4:11).
Fazendo eco às palavras de Paulo aos coríntios, sua fé não se limitava apenas a esta vida (I Co 15:19) mas, como nós, eles aguardavam a bendita esperança celeste que haverá de ser manifestada a todos os crentes (Tt 2:13), a herança incorruptível (I Pe 1:4) que foi prometida pelo próprio Senhor Jesus (Jo 14:2).
Por causa de sua fé e esperança, com um estilo de vida em que o amor mútuo poderia ser percebido até pelos inimigos da cruz, esta Igreja estava fadada a ser uma Igreja frutífera. Eis o perfil que Paulo traça desta Igreja. Mas ela era, ainda, a igreja militante, a Igreja que, embora com a vitória garantida ainda não estava revestida do triunfo. Já era vitoriosa, mas ainda tinha que se manter atenta contra alguns perigos, por isso Paulo ora a Deus para que eles não se acomodem e se mantenham vigilantes contra os falsos mestres, sem se deixar enredar pelo cerimonialismo porque o ritualismo não vence o pecado, como bem sabiam os hebreus que, embora profundamente ritualistas, eram meramente hipócritas (Mt 15:8). Como resultado desta fé em Cristo, desta luta contra o pecado os vícios devem ser abandonados e as virtudes cultivadas em todos ambientes – família, Igreja, trabalho, sempre com prudência e oração.
DEUS TEM ABENÇOADO SEU POVO…
Que Deus tem abençoado de todas as maneiras, tanto em situações normais como em eventos extraordinários nenhum de nós ousaria negar. Se é assim, também podemos nos fazer a mesma pergunta feita pelo salmista: que daremos ao Senhor por todos os seus benefícios? (Sl 116:12). Mencionando apenas de passagens os benefícios materiais e emocionais, a saúde e coisas semelhantes, precisamos voltar nosso pensamento para aquilo que o salmista realmente queria que atentássemos: que temos nós a oferecer ao Deus que é dono de todo o ouro e a prata, de todos os animais e árvores? (Ag 2:8).
Como retribuir o fato de que vivíamos sem Deus no mundo, alheios à sua aliança, e, portanto, sob a justa condenação e ele, mesmo assim, se interessou por nós, buscou-nos enquanto estávamos perdidos (Mt 18:11) e, mais que isso, espiritualmente mortos por causa das nossas próprias escolhas pecaminosas (Ef 2:1) e andanças por caminhos que lhe eram ofensivos em evidente atitude de inimizade (Ef 2.2-3).
Como não ser grato ao perceber a extensão das bênçãos de Deus que, vendo-nos condenados ao inferno por nossas próprias ações, escravos de satanás e presos ao sistema de pensamento e estratégias mundanas para agradar aos anseios da carne ainda assim enviou seu filho para nos resgatar desta escravidão? Não apenas nos resgatou desta escravidão como, num costume muito conhecido dos crentes colossenses, à maioria deles gentios, libertou-nos e nos adotou como filhos, como nobres e imperadores costumavam fazer com escravos que lhes alcançassem o favor.
É justamente sobre a figura de um escravo condenado, um gladiador que, embora sempre pronto a lutar em uma arena, sabia que sua vida dependia da vontade do imperador do turno que entenderemos a ação de libertação de Deus na vida de pecadores como nós. Os gladiadores eram escravos, eram soldados capturados em guerras, e viviam unicamente para sobreviver – até que encontrassem um gladiador mais habilidoso ou mais afortunado.
…COM A LIBERDADE
Ele nos libertou do império das trevas…
Paulo afirma que Deus, o pai, tomou a iniciativa de agir em favor de quem nada podia fazer para mudar a sua situação. Como um imperador da antiguidade, ele tomou a iniciativa de dar liberdade a quem não poderia conquista-la, a quem só sairia da arena morto. Deus, por sua graça, entrega a liberdade a condenados, resgata-os da condenação, tira-os para fora de um império que detinha legitima autoridade para governar sobre a vida de seus súditos (II Pe 2:19).
Satanás não é chamado de 'príncipe deste mundo' à toa. Ele o rege, ele o governa. Ele não governa o cosmos, mas o sistema, os governos, as instituições, molda as coisas de maneira que as aspirações carnais dos homens sejam satisfeitas e eles se inclinem mais e mais para as obras infrutíferas das trevas (Tt 3:3). Assim como um gladiador lutava e muitos provavelmente sentiam-se verdadeiros heróis matando outros gladiadores, assim também é o homem escravo do império das trevas – ele vive para agradar o seu pai, o seu senhor (Jo 8:44) e só percebe seu estado de miséria quando, derrotado, tem a morte diante de si – e é justamente neste momento que o Senhor intervém, erguendo a sua mão e apontando o polegar para cima, literalmente dando-lhe a vida de presente.
O império do qual Deus liberta seu povo é justamente chamado de império das trevas porque, nele, tudo é feito de maneira vergonhosa, e mesmo a mais desavergonhada das ações é feita com um sentimento de desafio, de afronta – é o homem tornado louco e afrontando ao criador e por isso sendo chamados de filhos da ira (Rm 1:32).
Deus os liberta do império das trevas, de uma imposição de uma vontade que decidia por eles, mantendo-os em ignorância e absolutamente incapazes de verem a luz, sem perspectiva ou desejo de experimentar as realidades espirituais do reino divino – mesmo quando estas realidades lhes eram expostas eram tidas por loucura, porque são coisas que só podem ser discernidas espiritualmente (I Co 2:14) e sua ignorância, lamentavelmente, tem como consequência a miséria das trevas eternas onde o diabo não mais regerá, pelo contrário, o diabo estará lá em tormento assim como seus seguidores (Mt 25:41).
…COM UMA NOVA CIDADANIA
…e (ele) nos transportou para o reino do Filho do seu amor…
Geralmente os gladiadores eram soldados que, vencidos em batalhas, eram transformados em escravos – perdiam a liberdade e tinham como único patrimônio a habilidade com as armas para poderem sobreviver. Sua vontade estava atrelada à vontade do governante ou do 'nobre' que o possuía. E esta vontade que imperava sobre ele só lhe determinava uma coisa: morte! Morte! E mais mortes! Mas, assim como o imperador poderia decretar a liberdade de qualquer escravo, a qualquer tempo, a intervenção de Deus traz liberdade ao escravo do pecado e das trevas.
Mas Deus vai mais além, ele não apenas liberta do império das trevas como, também, o transporta, isto é, tira de uma situação ou de um lugar real (ainda que muitos não acreditem na existência do reino das trevas embora o sirvam inadvertidamente, pois a maior contribuição que alguém pode dar ao diabo é dizer que ele e seu reino não existem) para um outro lugar, também real (II Pe 3:13) – ainda que também haja quem diga que o novo céu e a nova terra são uma utopia. Faz assim quem rejeita a Palavra de Deus (Jo 14:2) e ousa chamar o próprio Deus de mentiroso, invertendo a ordem da criação e fazendo Deus à sua própria imagem (I Sm 15:29).
Diferente de estar sob o império (imposição de uma vontade) das trevas o Senhor transporta os seus para um reino sob um governante digno – de escravos os resgatados são libertados e tornados cidadãos de um reino real, que, embora não seja deste mundo (Jo 18:36) e não possa ser encontrado num mapa qualquer (Hb 13:14) é um reino absolutamente real.
Tão real quanto Deus. Tão real quanto Jesus. Tão real quanto a existência do banco no qual você se assenta agora (Jo 1:3). Erra quem quer ver a cidade de Deus como apenas uma cidade de homens, esse foi o erro da igreja medieval. Erra quem quer ver o reino de Deus apenas como um primado da ética – assim ruíram as igrejas que adotaram o liberalismo na teologia. Erra quem quer ver o reino de Deus apenas como uma construção meramente social, erro da teologia da libertação. Erra quem quer ver o reino de Deus apenas como felicidade terrena, aqui, imediata – este é o erro que tem sido cometido pela teologia da prosperidade.
O nosso reino, o reino para o qual Deus leva aqueles a quem liberta, é o reino do seu filho, o reino do Messias tão esperado, o reino do Senhor Jesus Cristo (Rm 14:17). O reino do seu filho tem como características a verdade, a ética, a justiça social, a felicidade, mas tudo isso porque é o reino do filho do seu amor, o reino daquele que entregou-se a si mesmo em favor daqueles a quem ele amou e chamo de amigos (Jo 15:13) e, tendo-os amado, amou-os até o fim (Jo 13:1). O reino de Deus expressa a bondade e a misericórdia de Deus em favor de pecadores que nada mereciam além da sua justa ira (Lm 3:22).
…COM O PERDÃO PLENO
…no qual temos a redenção, a remissão dos pecados.
No filho do amor de Deus, isto é, em Jesus Cristo, passamos a ter uma nova condição (Ef 1:7). Há uma grande transformação sendo feita por Deus, que nos escolhe (Jo 15:16) para mostrar a suprema riqueza de sua graça (Ef 2:7).
Veja que transformação – de escravos e apátridas, agora somos concidadãos dos santos (Ef 2:19). Que mudança radical, de inimigos da cruz de Cristo (Fp 3:18) para filhos amados (Gl 4:6). De adversários e opositores (Mt 12:30) transformados em rebanho cuidado pelo bom pastor (Jo 10:27).
Redenção é a liberdade adquirida mediante o pagamento de um resgate, de algo que é entregue em favor de um débito. Sabemos que o resgate de uma alma é caríssimo e o ensino das Escrituras é que estas tentativas devem cessar por serem infrutíferas e insuficientes (Sl 49:8). Todavia, saber disto não deve nos desesperar porque a nossa redenção foi conquistada pelo Senhor – um preço foi pago (I Co 6:20).
Mas que preço? Quanto? O que precisa ser feito? Não foi um preço qualquer, nem mesmo nada que possamos fazer – lembre-se que, em seus pecados, o homem está morto. A redenção não é conquistada mediante obras meritórios (Ef 2.8-9) porque elas não existem (Is 64:6), e nem por obras da lei (Gl 2:16) porque ninguém consegue obedecê-la integralmente (Tg 2:10).
Você precisa saber o preço que foi pago para que o seu sangue não fosse derramado – para que você não perecesse sob o império das trevas. Este preço foi o sangue de Jesus Cristo, o redentor. Não de um homem ou de uma mulher, mas o de Jesus, o único redentor (At 4.12). Nem ouro, nem prata, nem nossas obras, mas a nossa liberdade foi adquirida mediante o pagamento de um resgate inigualável, o sangue do próprio Filho de Deus (I Pe 1.18-20).
Remissão é ser liberto de uma pena mediante perdão total – e este perdão total foi obtido mediante o derramamento do sangue de Jesus (Hb 9:22). Sua perfeita obediência curou-nos da nossa desobediência, por meio dele os escravos foram tornados livres para obedecer. Aqueles que erravam propositalmente o alvo agora podem olhar firmemente para o autor e consumador da fé, o Senhor Jesus Cristo (Hb 12:2).
O QUE VOCÊ NÃO PODE ESQUECER
Sabemos que Deus tem abençoado – aliás, sabemos que Deus é, em última instância, a fonte de todas as bênçãos. Sabemos também que não podemos pagar pelas bênçãos de Deus, devolvendo-lhe algo que tenha o mesmo valor do que ele nos dá. Dentre estas muitas bênçãos lembramos o fato de que, todo homem, por causa de suas próprias transgressões, é escravo do pecado, vendido à servidão dos interesses da carne, do mundo e do diabo, num círculo vicioso no qual o diabo usa as seduções do mundo como armadilhas para que os interesses mundanos dos homens sejam satisfeitos, gerando, assim, novas seduções e armadilhas, e, de abismo em abismo, resta ao pecador nada menos que o abismo eterno, o inferno (Sl 42:7).
Escravizado, todavia, ainda podendo ser alcançado pelo grande amor de Deus. Morto por causa dos pecados, mas não longe do alcance do braço misericordioso de Deus, que, por causa da muita misericórdia nos deu vida (Ef 2.4-5).
Condenados à lutar até a morte, quanto mais vivendo mais merecendo a morte, satisfazendo-se em sua própria rebeldia, mas não distantes demais que não possam ser alcançados por aquele que chama para uma nova vida (I Pe 4.4).
E é nesta situação de alcançados que somos convidados a render graças ao Senhor – se não temos nada que possa pagar o bem que ele nos fez, respondendo à pergunta inicial do salmista, resta-nos entregar todo o nosso ser em suas graciosas mãos, e a) receber a salvação que ele dá; b) invocar o nome do Senhor, reconhecendo-o em todos os seus caminhos e c) testemunhar sobre como Deus tem agido em sua vida, resgatando da escravidão e dando liberdade, cidadania celeste e o perdão dos pecados.
O QUE VOCÊ DEVE FAZER
Como fazer isso?
i. Lembre-se que você não é mais escravo do diabo, nem do mundo, nem do pecado, e nem mesmo de suas próprias inclinações – você é de Deus, nascido de Deus, viver na prática do pecado não é um imperativo em sua vida (I Jo 5:18);
ii. Lembre-se que você não é mais um mundano, você tem uma nova cidadania, você é um cidadão dos céus. Enquanto estiver aqui, você é apenas um peregrino, e, como tal, não pode amar o mundo nem suas ofertas (I Jo 2.15-16);
iii. Lembre-se que você recebeu o perdão de Deus – seus pecados foram pagos mediante a morte de Jesus na cruz. Embora para você tenha sido uma expressão da graça de Deus, o preço foi a morte do Filho naquela cruz infame, em seu lugar (I Pe 3:18) e, por isso, não menospreze o que Deus fez por você (Hb 10:29).
Se você já conhecia estas coisas, não tem razão para não as colocar em prática em cada momento de sua vida. Amanhã você retoma a sua lide diária – pergunte-se agora se alguém consegue ver que você recebeu estes benefícios de Deus sem que você precise fazer algum discurso? É hora de você fazer uma reavaliação de sua vida de crente em Jesus Cristo.
Se você ainda não conhecia, e agora conhece, o que você vai fazer? Vai desprezar o anúncio da graça salvadora de Deus, como fizeram os homens dos dias de Noé, como fizeram os judeus nos dias de Jesus e como milhares tem feito todos os dias? Por favor, não se esconda sob a desculpa de que você não pediu a crucificação de Jesus – lembre-se que Jesus afirmou que quem não é por ele é contra ele. Com quem você está, afinal? Só existem dois senhores – Jesus ou o diabo. Quem é o Senhor de sua vida?
Deixe-me te dar algumas dicas práticas, que vale para todos aqueles que nasceram de novo, independente de há quanto tempo:
i. Nunca, mas nunca mesmo, abandone a leitura contínua das Escrituras – mesmo que ela pareça muito difícil de entender e praticar no começo, o Espírito do Senhor a usará para te dar sabedoria;
ii. Confie suas decisões às orientações das Escrituras, e não em seus sentimentos – homens de Deus desejaram a morte, como Elias, Jó e Jonas, mas Deus tinha grandes planos para eles;
iii. Nunca vá a ambientes onde as trevas sejam mais honradas que a luz, onde Jesus não é bem-vindo como salvador nem honrado como Senhor absoluto;
iv. Abandone tudo aquilo que era comum em sua vida sem Cristo, deixando as obras infrutíferas das trevas, mesmo que com prejuízo imediato – o Senhor recompensa com muito mais;
v. Não é bom que o homem esteja sozinho – nem só, nem mal acompanhado. Procure a companhia dos santos, e ande com eles na luz, evite o conselho dos ímpios, não ande no caminho dos pecadores nem se assente na roda dos escarnecedores;
vi. Alimente sua mente e coração somente com o que edifica – esqueça revistas e programas televisivos nos quais os produtores olham para você apenas como uma carteira ou um vaso sanitário;
Em tudo busque ser uma testemunha fiel, sabendo que o Senhor dará a justa recompensa aos que forem fiéis, mesmo em face da morte – eles receberão a coroa da vida. 

domingo, 7 de setembro de 2014

O DESEJO DE INDEPENDÊNCIA DE DEUS PODE ACABAR MAL - TEXTO ÚNICO

O DESEJO DE INDEPENDÊNCIA DE DEUS PODE ACABAR MAL
Independência. Não há fase na vida humana que não queiramos ser independentes. É a criança que diz para os adultos solícitos: “Eu consigo” - na verdade, ela está dizendo: “Eu já não preciso de você”. Pelo menos para aquela ação. Mas já é o começo do caminho da independência.
É o pré-adolescente que quer tomar todas as decisões, escolher que roupa comprar, para onde ir, ser dono da própria agenda. Se questionado solta alguma frase semelhante a “...mas eu e meus amigos já combinamos que seria assim”, muitas vezes sem que os adultos responsáveis tenham qualquer conhecimento ou “direito” de opinar.
É o adolescente que não avisa quando sai nem quer ser questionado quando chega. Decide com quem anda, quando anda e por quanto tempo anda. Se já tem alguma fonte de renda sente-se no direito de não prestar contas sobre o que faz com seus recursos.
É o jovem que quer morar sozinho, ou acompanhado (algumas vezes muito mal acompanhado), trocando influências e, quase sempre, absorvendo costumes danosos para si, para sua família, para seu futuro. Sempre tem na ponta da língua frases como “eu já sei o que fazer da minha vida”.
É o adulto que acha-se uma ilha no mundo, isolado de tudo e de todos na hora de decidir o que fazer, como se suas decisões não influenciassem a vida de outras pessoas, especialmente aquelas que convivem mais de perto. “Já não sou mais criança” é uma das frases prediletas.
Esta tal independência é fruto, sempre, de um conhecimento, real ou imaginário. A bíblia nos apresenta o exemplo de um homem grande que queria ser independente. Na sua ânsia por independência, por decidir os rumos de sua própria vida, cometeu alguns graves equívocos, e viu passar de si e dos seus a aprovação de Deus. Lamentavelmente muitos cristãos estão agindo da mesma maneira, tomando as mesmas impacientes atitudes e colhendo frutos muito semelhantes. Nesta ocasião vamos aprender, à luz das Escrituras, que O DESEJO DE INDEPENDÊNCIA DE DEUS PODE ACABAR MAL.
As Escrituras nos contam um episódio na vida do recém entronizado Saul, primeiro rei de Israel, escolhido diretamente por Deus para dar início a um novo período na história de Israel: o período dos reis, em substituição ao período dos juízes (I Sm 15.1-31).
Saul era filho de Quis, da tribo de Benjamin, e fora escolhido pelo Senhor. A descrição de Saul era a de um homem grande, inicialmente submisso ao seu pai (I Sm 9:3) e um filho preocupado com o bem estar emocional do mesmo, que provavelmente já devia ser de idade relativamente avançada (I Sm 9:5).
Saul também se mostra submisso às instruções do profeta Samuel, apesar de não entender com clareza o que lhe acontecia (I Sm 9.19-22), até que foi, de maneira muito discreta e particular, ungido por Samuel para ser o rei de Israel (I Sm 10.1) atendendo ao pedido do povo (I Sm 8.4-5) que não queria mais ser julgado de maneira teocrática, especialmente depois de duas experiências desastrosas com os filhos de Eli e de Samuel (I Sm 8.7).
Mais tarde Samuel convoca todo o povo a Mispa para lhe dar o rei que eles haviam pedido, e, lançando sortes diante de todo povo, por eliminação acabam chegando ao nome de Saul (I Sm 10.20-21), que estava escondido no meio da bagagem do povo, demonstrando assim uma faceta de seu caráter - a timidez (I Sm 10.22).
Saindo de seu esconderijo ele logo impressiona o povo pois era um homem grande (I Sm 10.23) e é aclamado rei (I Sm 10.24).
Na primeira oportunidade, quando Naas, amonita, invadiu Israel e cercou Jabes-Gileade (I Sm 11.2) demonstrou sua natural impetuosidade, agora dirigida pelo Espírito do Senhor (I Sm 11.6-7), força, poder de comando (I Sm 11.11) bem como benevolência e sabedoria (I Sm 11.12), consolidando o reino em seu poder.
Mas, apesar de grande, apesar de rei, Saul ainda dependia da direção de Samuel, que, como aio, conduzia cada um dos seus passos, como, aliás, deve ser com cada servo de Deus, que foi comprado por precioso preço (I Co 6.20) e, portanto, não é senhor de si mesmo, mesmo que no coração pulse um desejo ardente por independência (I Co 6:19).
Agora que conhecemos Saul, vamos compreender porque o desejo de independência pode acabar muito mal.

EM SUA BUSCA POR INDEPENDÊNCIA SAUL NÃO DESCONHECIA QUAL ERA A VONTADE DE DEUS (v. 1-3)
Nenhum israelita podia dizer que não conhecia a Deus. Frequentemente eram lembrados dos feitos do Senhor - mesmo os gentios e inimigos de Israel, que adoravam falsos deuses e não se submetiam ao Senhor sabiam muito bem quem era o Deus de Israel (I Sm 4.6-8).
Se os filisteus conheciam bem o poder do Senhor, se sabiam quem era o Senhor, embora não o adorassem, quanto mais os hebreus, instruídos o tempo inteiro sobre os poderosos feitos do Senhor (Dt 6.20-21).
Saul sabia que fora escolhido pelo próprio Deus e, por isso, ele deveria atentar, isto é, ouvir para obedecer, as palavras do Senhor (v. 1). Não havia meio termo, e Saul também sabia disso (Sl 119.4). É dever de cada servo de Deus ser obediente. Obedecer relaxadamente (Jr 48:10), obedecer em alguns pontos e em outros não (Tg 2:10) ou não obedecer é a mesma coisa (II Rs 18:12).
Nossos pecados ofendem a Deus, mas o Senhor afirma que horrível coisa é desprezá-lo (Hb 10.26-27), tendo conhecimento de quem ele é e de qual é a sua vontade (Rm 1:21) e ainda assim preferindo andar em desobediência e insubmissão.
Estes três primeiros versos indicam que Saul conhecia a Deus. O Espírito do Senhor já havia se apossado dele em, pelo menos, duas ocasiões distintas (I Sm 10.10). Estes textos provam que Saul conhecia a vontade de Deus. O problema de Saul é o mesmo problema que o povo de Deus enfrenta hoje - não é de conhecimento teórico e muito menos de jamais ter experimentado a graça de Deus. Conhecimento temos demais, instrução temos demais. Provas do poder e do amor de Deus temos em abundância.
Eu e você, cada um de nós aqui, neste lugar, desde o menor ao maior, cada um de nós sabe qual é a vontade de Deus em Cristo Jesus: que o confessemos como Senhor (Mt 10:32), que recebamos das suas mãos, com ações de graças, o senhorio de Cristo (Jo 1:12), que o busquemos de todo coração (Jr 29:13) e que o sirvamos com alegria (Is 35:10) e tenhamos vida eterna (Jo 6:47).
O problema não é que desconhecemos estas coisas. Sabemos o que Deus fez para provar seu amor e cuidado por nós (Rm 5:8). Sabemos o que Cristo fez para demonstrar este amor (Jo 15:13), pagando o preço dos nossos pecados e resgatando do nosso real problema: o nosso fútil procedimento (I Pe 1:18). Sabemos que Deus quer que nos arrependamos (At 17:30), que nos convertamos a ele (Jó 36:10), que confessemos os nossos pecados (At 19:18) e que lhe sejamos obedientes. Alguma dúvida disso? Alguém aqui que não sabe disso? Se não sabia, agora sabe!

EM SUA BUSCA POR INDEPENDÊNCIA SAUL REJEITA CONSCIENTEMENTE A VONTADE DE DEUS (v. 4-15)
Saul continuou lutando com a mesma bravura de quando libertara Jabes-Gileade. Era o mesmo comandante impetuoso, era o mesmo hábil chefe militar - e demonstrou isso vencendo os amalequitas. E o fez de uma maneira arrasadora, afugentando-os para longe das fronteiras de Israel. Até aqui ele estava obedecendo. À partir do verso 8 começam os problemas. Era comum os reis capturarem os vencidos e depois estabelecerem acordos, usarem como garantias ou cobrarem alguma forma de resgate. Mas estas coisas passavam pela busca de alguma segurança humana, quando a garantia que Israel precisava era o próprio Senhor.
Saul e o povo tomaram dos animais dos amalequitas, coisas que não precisavam tomar, nem para si, porque o Senhor lhes dava o sustento, nem para oferecer ao Senhor, pois este não aceita ofertas que não tragam junto o coração do adorador (II Sm 24.24). Deus também não queria que eles trouxessem nada das cidades amalequitas, porque não os queria misturando-se com aquela cultura pagã.
Mas, por melhores que fossem suas intenções, havia um problema: Deus não queria. Deus não queria um culto prestado com ovelhas, cordeiros e bois gordos amalequitas. Deus não queria o melhor dos ímpios - porque o melhor dos ímpios é apenas impiedade (Jr 6:20).
O nome do problema de Saul? Desobediência. Porque sua pretensão não era aceitável? Porque era fruto da rebeldia, de um coração que havia deixado de seguir ao Senhor. E o Senhor o faz saber imediatamente através de Samuel, que caiu em profunda tristeza porque seu coração se apegara a Saul. Ao procura-lo, nova decepção - o rei estava se exaltando pela vitória obtida, levantando para si um monumento como faziam os reis pagãos, aliás, como era provável que o próprio Agague costumasse fazer (Is 42:8). Saul estava agindo impulsivamente sem perceber que seu coração o enganara (Jr 17:9), que ele estava se afastando do Senhor (Is 59:2) e não agradando-o como pensava (Is 55:8-9).
Saul estava totalmente enganado ao acreditar que sua vultosa oferta seria aceitável, como estava enganado o rico que achava que ofertava mais que a viúva (Mc 12:44) embora este caso fosse ainda pior. Também estava enganado Ananias ao entregar parte do valor do campo como se fosse todo o valor (At 5:3) ou Simão ao oferecer dinheiro em troca de uma benção (At 8:20).
Saul se alegra ao ver Samuel como um aluno se alegraria ao completar uma tarefa da qual fora incumbido pelo mestre, e, ainda, fazer algo mais. Era este algo mais que ele queria apresentar: o monumento, os animais para o sacrifício, tudo prontinho, tudo feito segundo a sua vontade. E este era o problema - embora ele não percebesse, não cumprira a vontade do Senhor.
Agradamos ao Senhor somente quando fazemos o que ele pede - fazer menos é negligência, fazer diferente é invencionice, fazer mais é impossível (Gn 17:1), padrão que não mudou apesar de ter passado tanto tempo (Mt 5:48) e ao qual ninguém consegue alcançar (Rm 3:23). O sucessor de Saul também passou por situação semelhante, mais de uma vez, ao fazer um recenseamento que o Senhor não ordenou e, também, ao tentar transportar a arca do Senhor para Jerusalém de acordo com a invenção dos filisteus (I Sm 6:7) com um trágico resultado (II Sm 6.3): a morte de Uzá (II Sm 6.7). Mais tarde Davi tentaria fazê-lo segundo a vontade de Deus (Ex 25.13-14 - compare com Nm 7.9) e daria certo (II Sm 6.13).
Saul resume sua tolice ao dizer que destruiu totalmente apenas o resto - como alguém pode destruir algo totalmente se só destruiu o resto?

EM SUA BUSCA POR INDEPENDÊNCIA SAUL REJEITA OBSTINADAMENTE A REPREENSÃO DO SENHOR (vs. 16-21)
Antes que Saul continuasse na promoção de si mesmo e de seu sacrifício de tolos, Samuel lhe diz que o que realmente importa não era o que ele pensava estar fazendo, mas o que o Senhor pensava do que ele estava fazendo. Saul não gosta da interrupção da sua autopromoção, do seu desejo de mostrar que estava se tornando um grande rei. E é este justamente o ponto. O próprio Saul sabia não grande em Israel (I Sm 9.21), e é lembrado de que foi ungido por Deus para ser rei mesmo sendo insignificante, mesmo sendo pequeno, mesmo não sendo o que ele agora queria ser, grande. Samuel resume o recado de Deus dizendo o seguinte:
i. Você não era nada e eu te fiz rei;
ii. Você estava à procura de jumentas e eu te dei a missão de conduzir meu povo;
iii. Você não tinha nem direção nem comida no embornal, e eu te mandei destruir os amalequitas.
E conclui com perguntas simples: porque não fez o que te mandei? Porque não se contentou em obedecer? Porque cobiçar o que não era para ser cobiçado - não se lembrara de Acã e do resultado de sua cobiça (Js 7:)?
Samuel acusa Saul de desobediência, de cobiça. Ele não precisava ter feito nada daquilo. Não precisava ter trazido nenhum prisioneiro. Não precisava do gado amalequita. Deus não o queria, Deus não havia pedido nada daquilo. Isto é uma dura advertência para a Igreja do séc. XXI, que a cada dia inova, inserindo no culto coisas que não podem ser encontradas nas Escrituras, não são pedidas por Deus e, portanto, entram na quota daquilo que o Senhor abomina, como abominou a atitude de Saul.
Mas Saul não aceita a repreensão, e sua dura cerviz o conduz cada vez mais (Pv 29:1). Saul ousa discordar. Samuel lhe dissera que lhe diria o que o Senhor falou, o mesmo Senhor que o fez rei. Quando o Senhor o repreende, o homem grande, mas nunca um grande homem, diz que não, que as coisas não eram daquele jeito, eram exatamente o contrário. Homens grandes não aceitam ser contrariados, grandes homens aprendem para se tornaram ainda maiores. Saul queria ser o padrão de interpretação da vontade de Deus. Ele sabia qual era a vontade de Deus, e ele queria definir se ele agradara a Deus ou não, mesmo Deus dizendo-lhe um enfático não. Saul quer definir o que é vontade de Deus, quer definir o que é cumprir a vontade de Deus, quer definir o que agrada a Deus.
Saul se mostra o oposto de Davi - aquele que é apelidado de o homem segundo o coração de Deus. Sempre que errava - e errou algumas vezes, ao ser repreendido cai em si, arrepende-se e submete-se à vontade do Senhor (I Cr 21:13). Saul rebate, Saul rejeita a repreensão. Saul fez pior que Eli, o sacerdote que foi repreendido por Deus e apenas “reclamou” das ações de seus filhos, sem, contudo, corrigi-los como eles precisavam ser corrigidos (I Sm 2.24). Saul diz que Samuel está errado. Mas Samuel falava o que o Senhor lhe havia dito, logo, na prática, o que Saul está fazendo é afirmar que quem está errado é Deus, e não ele.
Comparando as ações de Saul com as nossas, chegamos à triste conclusão de que os cristãos do séc. XXI fazem a mesma coisa: rejeitam a vontade de Deus, e dizem, com suas ações, que não concordam com Deus, que sabem mais que Deus.
Antes que alguém diga que Saul devia estar louco, é preciso dizer que esta é a atitude mais comum de todos os homens. Quando Deus diz para fazer de um jeito e decidimos fazer de outro estamos dizendo a Deus que, se ele quiser, ele que se agrade do que estamos fazendo, porque, afinal, estamos fazendo, o que já é melhor que nada. Isso é tolice, é afrontar a Deus. E nunca dá certo. Quem é o homem para afirmar que sabe mais que Deus (Is 40:13)?
Observe que a impenitência dos filhos de Eli, a dureza de coração de Faraó, a insistência no erro de Ananias são apenas prenúncios do julgamento de Deus. O Senhor endurece o coração daqueles a quem julgou e condenou (Is 6:10).
E o seu coração? Como está? Espero sinceramente que não esteja endurecido e rebelde, porque para quem se rebela e endurece o coração contra o Senhor resta apenas horrível expectação de juízo (Hb 12.29).

EM SUA BUSCA POR INDEPENDÊNCIA SAUL EXPERIMENTA O RESULTADO DA DESOBEDIÊNCIA (vs. 22-26)
Da mesma maneira que Adão e Eva, da mesma maneira que Caim, que, mesmo advertido (Gn 4:), persistiu no erro (Gn 4:9), da mesma maneira que todos os obstinados que endurecem a cerviz (II Rs 17:14), isto é, não admitem estar errados, não se submetem voluntariamente a uma vontade superior (At 7:51), persistem no caminho que lhes parece mais direito e não percebem que seu fim é apostasia e morte (Pv 14:12).
Na sua obstinação Saul teve que ouvir que Deus não se agrada de holocaustos e sacrifícios frutos de um coração desobediente, exatamente como fez com Caim (Gn 4:5). Saul pretendia oferecer o melhor que ele conseguiu, mas o melhor que ele havia conseguido era fruto da desobediência, da rebeldia. Deus não queria gordura de carneiros. Deus não queria bois gordos. Deus não queria novilhos cevados. Deus queria um coração obediente - para Deus desobediência é tão reprovável quanto feitiçaria e culto idólatra, porque na verdade estas práticas são apenas frutos da desobediência.
Na sua obstinação Saul também teve que ouvir que Deus o havia rejeitado. O mesmo Deus que o havia escolhido, que o havia levantado como rei quando ele estava escondido no meio da bagagem agora o rejeitava porque ele havia rejeitado o Senhor como seu rei (Sl 47:2). Na sua primeira tentativa de ser um grande rei Saul perdeu o reino porque Deus resiste aos soberbos - e sua atitude foi de soberba ao rejeitar a repreensão de Samuel - mas concede graça aos humildes (Tg 4:6). Outros reis também cometeriam pecados, mas, quando seus corações se humilharam na presença do Senhor, foram perdoados e obtiveram graça, como Davi (I Cr 21:13), Ezequias (Is 38.1-2) e Manassés (II Cr 33.11).
Diferente destes, Saul ainda tem que ouvir que seu arrependimento não era sincero (Sl 51:17). Ele não se arrependeu pelo que fez, mas temia pelas consequências do que fez, isto é, a perda do reino - que posteriormente tentaria manter inclusive tornando-se um potencial assassino (I Sm 19.1).
Não havia volta para Saul - ele já havia sido rejeitado, já havia ensinado o caminho da desobediência ao povo e restava-lhe apenas a disciplina exemplar - mas tanto ele quanto seu povo eram impenitentes (II Rs 17:14) e continuariam assim até que o Senhor estabelecesse uma nova aliança, com um novo povo. Deus havia dito, e, embora Saul achasse que ele é quem estava certo, o veredicto havia sido dado e um falso arrependimento não lhe restauraria o trono.

EM SUA BUSCA POR INDEPENDÊNCIA SAUL AINDA TENTA PRESERVAR AS APARÊNCIAS (vs. 27-31)
Ao perceber que já não havia volta, Saul tenta fazer o que muitos tem feito, salvar as aparências. Longe de Deus por causa de seu pecado e da rebeldia em ouvir ao Senhor, rejeitado pelo Senhor de maneira definitiva restava-lhe o apego ao trono.
Saul sabia ser um rei sob tutela, um mordomo que deveria obedecer ao Senhor para permanecer na regência - e, quando cai em si e vê que não tem mais a aprovação do Senhor busca amparar-se, ao menos, na aprovação dos homens.
Ele não pede para Samuel interceder por ele. Não se humilha perante o Senhor pedindo perdão. Ele tenta, por força, manter Samuel ao seu lado (Zc 4:6). Mas as coisas no reino de Deus não são feitas pela força.
Se assim fosse o Senhor não teria dispensado os milhares que seguiam a Gideão e mantido apenas 300 (Jz 7:7) sem espadas nas mãos, sem o uso do poder do homem (Jz 7:2).
Mas o uso da força só piorou as coisas para Saul. Apenas aumentou a sua humilhação em saber que o Senhor tinha dado o reino a outro que Deus considerou melhor do que ele, o que não significa que fosse sem pecado, mas que tinha um coração que era dirigido pelo Senhor (Dt 9:4).
Samuel não voltaria atrás, não poderia mudar o recado dado a Saul porque era um profeta fiel ao Senhor (I Rs 22:14). Ele não poderia voltar atrás por que o Senhor não voltaria atrás: o reino não mais seria de Saul. Entretanto, após muita insistência, Saul consegue convencê-lo a participar do sacrifício que seria entregue ao Senhor. Mas, novamente, as palavras de Saul indicam um coração longe de Deus, um coração que não queria agradar a Deus mas aos homens, chamando ao Senhor, novamente, de Deus de Samuel.
Seu desejo era ser visto pelos homens, ser visto com Samuel pelos anciãos do povo, pelo povo de Israel. Ele não queria que ninguém soubesse que fora reprovado por Deus. À partir daquele dia ele viveria de aparências. Mas aparências não são mantidas indefinidamente, mais cedo ou mais tarde as máscaras caem - se antes o Espírito do Senhor havia vindo sobre ele, agora se retirou dele - e isto seria impossível de esconder daqueles com quem ele convivia (I Sm 16:14-15).
Quantas pessoas que aparentavam possuir grande vitalidade espiritual estão, hoje, apenas como uma casca vazia, espiritualmente definhando mas tentando mostrar algo que não conseguem mais ser. Há muitos decepcionados, frustrados, desanimados, longe de Deus mas tentando, ainda, demonstrar um calor que não vem do coração. Vivem uma vida aparentemente cristã insatisfatória, sem comunhão, sem alegria no Senhor, sem prazer na Palavra de Deus.
Talvez muitos estejam exatamente como Saul. E isto é um problema grave. Impenitentes, resistentes, rebeldes - talvez seja a hora de entender que estão em um momento crucial, onde um de dois caminhos terá que ser seguido: o da benção ou o da maldição (Is 1.18-20).
Outros talvez estejam experimentando o mesmo sentimento de Davi (Sl 32.3-5) e buscando, de coração, uma restauração (Sl 51.10-12).

CONSIDERAÇÕES FINAIS: ENTRE A INDEPENDÊNCIA E A BÊNÇÃO DA COMUNHÃO COM O SENHOR, FAÇA A COISA CERTA: ENTREGA SEU CAMINHO AO SENHOR
Todos nós desejamos ser independentes em alguma coisa, de alguma forma. Entretanto, precisamos entender que nossa independência em algumas situações não exclui o fato de sempre precisarmos de outras pessoas, de jamais sermos independentes. O conceito que melhor descreve aquilo que somos é interdependência. Por causa disso Deus nos chamou para sermos um povo (Êx 6:7), sermos sua Igreja, membros uns dos outros (Rm 12:5), ajudando-nos mutuamente (Gl 6:2).
O Senhor deseja que sejamos livres, livres pela sua Palavra (Jo 8:32) para servirmos uns aos outros como servos de Cristo (I Pe 4:10). Se você vinha lutando por independência de Deus, é hora de mudar. Quero te dar algumas dicas:
1. Arrependa-se, confesse o seu desejo de independência de Deus como pecaminoso e o Senhor te restaurará (Sl 32.5);
2. Busque ao Senhor enquanto é tempo de encontra-lo (Is 55:6);
3. Não deixe para depois - talvez você pense que sempre haverá tempo, mas não é isso o que o Senhor ensina. Ele diz que há um tempo oportuno (II Co 6:2) e que chegará um tempo onde a misericórdia não mais será dada (Pv 1:28).

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