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quinta-feira, 27 de abril de 2017

A IGREJA MANTÉM SUA IDENTIDADE E DESEMPENHA SUA MISSÃO QUANDO POSSUI A HUMILDADE COMO FRUTO DO ESPÍRITO

O Senhor deu, à Igreja, estratégias claras e precisas para desempenhar sua missão. Dentre estas estratégias está o conhecimento de quem é, de fato, seu inimigo. Embora carne e sangue sejam instrumentos de oposição contra a Igreja do Senhor, que, afinal, é uma instituição no mundo mas não do mundo, o verdadeiro inimigo é espiritual. E é nas regiões celestiais, com armas não carnais, que a Igreja vence porque Cristo venceu por ela. Enquanto o inimigo arma-se de todo tipo de instrumento a principal arma da Igreja é a espada do Espírito, a Palavra da verdade, mais cortante que espada de dois gumes e com poder de separar o que parece inseparável (Hb 4:12).
Todavia, deixar-se orientar nem sempre é fácil. O homem tem a tendência, desde a primeira transgressão, de desejar autonomia, tem o desejo de ser senhor do seu destino, tomar as rédeas de sua vida na sua mão e traçar o seu destino. Ledo engano. Mas é assim que pensa, é assim que age, é isso o que deseja. Provavelmente uma das palavras mais odiadas da Bíblia seja “sujeição” ou “submissão”. Homens não querem sujeitar-se a ninguém, mulheres não querem ser submissas a ninguém. Filhos não querem ser obedientes a ninguém. Crentes não querem ser obedientes a ninguém. Opa! Como assim, crentes não querem ser obedientes a ninguém? Será que estamos nos esquecendo que rebelião é como feitiçaria e a obstinação na rebelião é tão maligna quanto a idolatria (I Sm 15:23), como Samuel falou claramente a Saul, mesmo Saul achando que tinha obedecido ao Senhor (I Sm 15:20) mas relaxado só um pouquinho para agradar o povo e quem sabe a Deus (I Sm 15:21)?
Encontramos numerosos exemplos de humildade nas Escrituras. Obviamente que o maior modelo que podemos encontrar é o próprio Senhor Jesus que nos encoraja a aprender dele (Mt 11:29), e, para quem esquece ser ele semelhante a nós, diferente apenas no fato de não ser pecador e não praticar pecados (Hb 4:15) podemos apontar vários outros homens de Deus que se destacaram por sua mansidão, por se deixarem, humildemente, conduzirem, como Moisés (Nm 12:3). Muitos dos problemas que a Igreja enfrenta em seu desafio de ser Igreja e ser comunidade de salvos é o fato de que a humildade cedeu lugar ao orgulho, à arrogância, e por causa disso surgem rixas e pelejas no seio da Igreja. E certamente isso não é motivo de alegria para o boníssimo coração de Deus. Vejamos o que o apóstolo Tiago tem a nos ensinar a respeito deste importante assunto:
6 Antes, maior graça. Portanto, diz: Deus resiste aos soberbos, dá, porém, graça aos humildes.
7 Sujeitai-vos, pois, a Deus; resisti ao diabo, e ele fugirá de vós.
8 Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós. Limpai as mãos, pecadores; e, vós de duplo ânimo, purificai o coração.
9 Senti as vossas misérias, e lamentai, e chorai; converta-se o vosso riso em pranto, e o vosso gozo, em tristeza.
10 Humilhai-vos perante o Senhor, e ele vos exaltará.
Tg 4.6-10
O texto fala de humilhar-se – e esta é uma virtude que não parece ter muito status entre os homens a ponto de seu significado ser pouco conhecido, sendo basicamente “ter consciência das próprias imperfeições e limitações”, porém, nosso padrão para determinar o que e imperfeição e limitação não é a natureza humana, mas aquele que estabeleceu um padrão ao qual estamos sujeitos (Rm 3:23). Humildade não é ser acomodado ao sofrimento, não é passividade nem covardia. Ninguém ousaria chamar Moisés, ou Jesus, de covardes – embora neles tenhamos excelente exemplo de humildade.
Quais os benefícios que a Igreja pode receber do Senhor quando se humilha sob a sua poderosa mão?

I.                   O QUE É HUMILDADE DO PONTO DE VISTA DE DEUS

6 Antes, maior graça. Portanto, diz: Deus resiste aos soberbos, dá, porém, graça aos humildes.
Há uma historieta a respeito de um sábio de uma nacionalidade qualquer (o que importa aqui não é a filosofia, a religião ou a nacionalidade, mas o ensino) que foi procurado por um de seus alunos que, arrogantemente, lhe dizia estar progredindo rapidamente no caminho da sabedoria, dizendo: - Mestre, eu vou conseguir primeiro que todos os outros alunos teus. Estou me tornando muito humilde. Tenho dormido no chão, tomo apenas água e me alimento apenas de verduras. O sábio logo percebeu a arrogância que buscava exaltação e lhe disse em tom amistoso, mas firme: - Não fazes nada além do que os nossos cavalos fazem, e nem por isso eles são sábios. Você deve aprender a dominar os anseios mais profundos do seu coração, aprender a expulsar dele a arrogância e o desejo de ser exaltado, enchê-lo de humildade e assim darás o primeiro passo no caminho da sabedoria. Como você acha que aquele aluno recebeu aquela reprimenda? Como você reagiria a uma exortação como essa? Provavelmente a maneira como você reage mostrará o que você entende por humildade (Pv 9:8).
Permita-lhe lembrar-me uma segunda historieta, que ouvi há mais de 20 anos e não sei se é verdadeira ou não, mas que é ilustrativa: conta-se que um pastor, depois de muitos anos servindo a uma igreja, recebeu um presente do conselho da Igreja: um lindo quadro, ricamente emoldurado, no qual realçavam sua grande humildade no trato com a Igreja ao longo dos anos. Alguns dias depois, o conselho foi até o gabinete do pastor e perceberam o quadro afixado logo atrás da sua mesa. Insatisfeitos com aquela “demonstração de orgulho da sua humildade”, solicitaram o quadro de volta. O que você pensaria da atitude do pastor? E do conselho?
Tiago afirma que humilde é aquele que é feito habitação do Espírito, isto é, aquele que é habitado pelo Espírito (Tg 4:5) e não é cobiçoso das coisas do mundo (Tg 4:2-3). A palavra que Tiago usa (ταπεινος) pode ser usada tanto com o sentido de “aquele que não se exalta, que não se levanta muito do chão” numa referência ao ato de manter-se abaixado diante de reis orientais como, negativamente, aquele que se comporta de forma humilhante, depressiva, submetendo-se a uma indigna servidão.
Mas Tiago está usando a palavra em seu sentido positivo, de reverência e submissão diante de Deus, que jamais é uma indigna servidão. Israel sempre foi humilhado quando não foi humilde (Sl 107:39) mesmo quando achava que estava sendo, no que podemos considerar uma falsa humildade, isto é, uma humildade fingida, calculada visando a obtenção de recompensas ou privilégios, como no caso dos hebreus que faziam tudo certinho, faziam cerimônias com gestos estudados e maquinalmente aprendidos mas com o coração em outras coisas (Ml 3:14).
Este tipo de atitude não é nada espiritual, é egocêntrica, é centrada no homem, nas recompensas que o homem pode dar ou receber e não tem nada de agradável ao Senhor (Mt 6:16).

II.                O CONTRÁRIO DA HUMILDADE – AFASTAMENTO DE DEUS

Ao contrário da humildade, a soberba é uma atitude de autossuficiência que, num efeito teflon, acaba afastando o homem de Deus porque seus intentos são apenas tudo fazer para sua própria glória e reconhecimento de suas habilidades pelos homens (Cl 3:23) e isto não é considerado reto por Deus (Hb 2:4). A soberba foi a causa da queda do rei de Tiro (Is 44.11-15), o homem que muitos insistem em identificar equivocadamente com Satanás (Is 44.16) embora guarde com satanás semelhanças como a de querer ser adorado como se fora Deus – satanás chega ao absurdo de tentar obter a adoração do próprio Filho de Deus (Mt 4:9).
Ao invés da graça de Deus (Pv 15:33) o que o soberbo inevitavelmente receberá é a sua própria destruição, pois a Palavra de Deus ensina que a soberba precede a ruína (Pv 16:18) como aconteceu com o poderoso e orgulhoso Nabucodonosor (Dn 4:29-33).
O poderoso rei Nabucodonosor não é o único caso de soberbo que é derribado. Isto também aconteceu com o insensato Nabal, marido de Abigail (I Sm 25:10) que logo depois morreria em sua estultícia, provavelmente de um derrame (I Sm 25.37-38). Tal também foi o caso de Saul, que, pretensiosamente, deixou de obedecer a Deus e fez a sua própria vontade (I Sm 15:22) e também aconteceu com o arrogante Herodes (At 12.21).
A humildade evita estas desgraças, porque ela aproxima o homem de Deus, aproxima o servo do Senhor, aproxima o pecador do salvador. Não deixe seu coração ser tomado pela soberba – ela precede a ruina, mas lembre-se que Deus concede graça ao humilde.

III.             A RECOMPENSA DA VERDADEIRA HUMILDADE

Enquanto a soberba só traz destruição e humilhação (Pv 29:23) a humildade goza do favor de Deus. Não sejamos tolos imaginando que, aparentando humildade, possamos “atrair a graça de Deus” – graça é favor, não é comprada nem merecida. Não dá para ser bíblico e, ao mesmo tempo, cantar “Encontra em mim, Óh! Deus, algo de valor, quero atrair tua presença”...
Não é possível enganar a Deus. Às vezes as pessoas confundem temperamento, jeito de ser, tanto com humildade quanto como arrogância – e podemos nos enganar pois não vemos como Deus vê. Deus sabe quando é apenas aparência de humildade e quando a humildade é um fruto da ação do Espírito, afinal, é ele mesmo que dá ou é apenas uma ação humana, um pretexto para se sobressair aos seus semelhantes (Cl 2:18) mas que, no final, não tem valor algum, não produz santidade, não vence o pecado e tampouco glorifica a Deus (Cl 2:23).
Enquanto a falsa humildade recebe recompensa dos homens, seja qual for a máscara que use, como esmolas, orações longas, jejuns, vestuário e até dízimos escrupulosamente calculados – o princípio é o mesmo para qualquer destas práticas: se não há verdadeira humildade qualquer recompensa recebida dentre os homens já foi grande demais (Mt 6:5), mas, ao mesmo tempo, por maiores que sejam, são apenas coisas passageiras deste mundo (I Jo 2:17).
Todavia, não é assim com a verdadeira humildade – Deus abençoa grandemente àqueles que se achegam a ele com integridade, e lhes dá graça e auxílio em toda e qualquer situação de suas vidas (Hb 4:16). Esta é uma grandiosa promessa de Deus – de dar-nos atenção do seu trono de graça. Os homens podem até amar mais ouro e prata, mas, por mais que tenha ouro e prata a graça do Senhor é muito mais valiosa, é muito melhor do que todos os tesouros do mundo. Quando, angustiado, Paulo orava ao Senhor pedindo-lhe livramento do “espinho na carne”, seja lá o que isto era, o Senhor lhe respondia que ele já tinha o suficiente, tinha a Sua graça (II Co 12:9).
Vamos apresentar apenas três exemplos do que estamos afirmando. Ao ser informado de que deveria colocar em ordem a sua casa porque logo morreria (II Rs 20:1), o rei Ezequias orou ao Senhor humildemente e o Senhor restaurou sua saúde dando-lhe ainda 15 anos de vida e não apenas isso, mas livramento dos seus inimigos (II Rs 20:5).
A graça de Deus é tão impressionantemente demonstrada diante de um ato de verdadeira humilhação que até mesmo o mais ímpio dos reis que houve em Israel, Acabe, obteve favor do Senhor (I Rs 21:29).
O terceiro exemplo é o do “combate de humildade” entre o fariseu e o publicano. O fariseu coloca-se diante de Deus e, com uma oração muito bem elaborada “agradece” o fato de ele ser bom – seu Deus era ele mesmo. O publicano, repudiado pelos religiosos, simplesmente se humilha publicamente diante de Deus. Ninguém o queria ali. Os fariseus, saduceus e escribas não os queriam no templo. Mas ele queira estar diante de Deus para fazer uma só coisa: humilhar-se, pedindo misericórdia (Lc 18:13.
Teria Deus mudado para, hoje, abençoar a hipocrisia e a arrogância em detrimento da humildade que ele sempre disse agradá-lo em seus servos? O modelo supremo de humildade, o próprio Senhor Jesus, teria por acaso deixado de ser o modelo? E como fica, então, o chamado para aprendermos dele (Mt 11:29)?

CONCLUSÃO

Pode parecer estranho afirmar que há algumas coisas em comum entre Deus e o diabo. Não se assuste, não estou dizendo que eles são iguais. Não estou defendendo nenhuma forma de equivalência de poderes entre ambos. Deus é Senhor, é soberano, inclusive sobre o diabo, seus anjos e quaisquer ações que eles venham a intentar. Que coisas em comum, então, poderiam ser essas que tanto a luz quanto as trevas possuem?
A primeira coisa que ambos demonstram querer é alguma forma de proximidade com o ser humano (]. Desde o Éden é assim. O diabo vem falar com os seres humanos (Gn 3:1) e Deus também se aproxima dele para alguma forma de adoração e diálogo (Gn 3:8). Assim como o diabo é o deus deste século, o príncipe do mundo e tem o costume de andar pelo mundo observando o que fazem os filhos dos homens (Jó 1:7) com o intuito de acusá-los (Ap 12:10) ou destruí-los com seus dardos malignos (Ef 6:16) e armadilhas (Ef 6:11) sendo comparado a um leão à espreita (I Pe 5:8) também entendemos pelas Escrituras que Deus é o Senhor do universo, o Deus presente (Ez 36:9) e não um ser ausente como querem muitos materialistas evolucionistas que não abrem mão de atribuírem a si mesmos o apelido de cristãos daí obtendo alguma forma de conforto espiritual. Deus não é o Deus distante (Is 57:15) nem se mantém desconhecido (At 17:23) embora o defeito que impeça os homens de vê-lo está em si mesmos, e não em Deus (Rm 1:20).
A segunda coisa em comum é que tanto o diabo quanto Deus desejam exercer o senhorio sobre sua vida. O diabo quer escravizá-lo, mantendo você como escravo de um império de trevas tendo como única recompensa a morte e o inferno. Ele não pode te dar outra coisa porque ele só pode te dar o que ele tem, e a herança dele é o inferno que foi preparado para ele, para seus anjos e seus servos (Mt 25:41). Ele não pode te dar nada diferente disso porque é só o que ele tem – e no fim os que permanecerem seus servos terão sobre si a permanência da ira de Deus (Jo 3:36) e, com seu senhor, terão toda a eternidade para lamentar (Lc 13:28). Por outro lado a Escritura também afirma que Deus quer o senhorio sobre a vida de pecadores que ele comprou com o precioso sangue de Jesus Cristo (I Co 6:20) não devendo ser escravos de ninguém, se não de homens, menos ainda de satanás (I Co 7:23). Diferente do senhorio satânico, o senhorio de Jesus é suave, é um fardo leve (Mt 11:28-30) e a recompensa é a vida eterna na presença do Senhor que não permitirá que tenhas mais qualquer motivo de choro (Ap 21:4).
Sim, o diabo quer proximidade, mas é a proximidade de um ladrão, assassino, destruidor. É a proximidade de um estelionatário que vai lhe prometer luzes, brilhos, prazeres e euforia e, como um traficante, vai te dar porções cada vez mais inebriantes para te fazer cada vez mais escravo até que você não seja mais do que um trapo e morra a seu serviço. Sim, Deus quer proximidade, mas a proximidade de um amigo, um pai, um irmão, de um salvador que está disposto a ser rasgado por uma lança, pregado em uma cruz para que você tenha acesso livre a Deus (Hb 4:16) porque ninguém pode chegar até o Pai se não for por ele (Jo 14:6).
Então, qual a diferença? O diabo é invasivo e Deus espera seu convite? Isso é uma tolice teológica. Desde quando o Senhor, o dono da casa precisa de sua autorização para entrar naquilo que lhe pertence? Ele é o Senhor tanto da casa quanto do servo, e faz com que o servo queira abrir a porta – e para o servo é dia de regozijo e festa. A diferença está no objetivo deste desejo de proximidade e senhorio. A diferença é que enquanto o diabo quer destruir sua vida Deus lhe dá nova vida porque, antes dele te encontrar (Lc 19:10) você estava morto em delitos e pecados (Ef 2:1) e nesta nova vida ele efetua em você o querer e o realizar que lhe capacita a obedecer-lhe. É por causa desta capacitação, é porque ele efetua um novo querer em você que você está, finalmente, habilitado a resistir ao diabo, isto é, a dizer não à sua nefasta proximidade, a não sujeitar-se-lhe numa escravidão que conduz à morte (mesmo que você durante toda a sua vida a tenha desejado por causa dos enganos de satanás – Ef 2:3). Sua nova vontade, sua vontade renascida leva você a sujeitar-se a Deus, a ser mais que vencedor por meio de Jesus Cristo (Rm 8:37), a achegar-se a Deus como um filho se achega ao pai, como uma criança procura o colo da mãe e nele se aninha após ser desmamada (Sl 131:2).
Não é o que você fez a vida toda que é realmente importante agora – mas o que você vai fazer agora, ou à partir de agora, que define a sua eternidade. A ordem do Senhor é sujeitai-lhe sua vontade para que você possa resistir ao diabo e ele fique longe e você – e você sinta, então, o quão perto Deus tem estado de você, porque nem ele nem sua vontade estão longe (Rm 10:8) embora o pecador sempre queira o máximo de distância dele (Is 59:2).
Escravo do diabo ou servo do Senhor? Morto em delitos e pecados ou vivo para Deus (Rm 6:11)? É a maneira prática que você responde a estas indagações que demonstra, que evidencia o que você efetivamente é: servo de Deus ou escravo do diabo? De quem você quer ficar próximo? Não caia na tolice de achar que, ficando próximo do diabo aqui, vai poder passar a eternidade próximo de Deus.


terça-feira, 4 de abril de 2017

A IGREJA MANTÉM SUA IDENTIDADE E DESEMPENHA SUA MISSÃO QUANDO USA OS INSTRUMENTOS QUE DEUS LHE DÁ PARA SE OPOR AO MAL

Em nossas mensagens anteriores vimos que a Igreja mantém sua identidade e desempenha sua missão quando possui autoconhecimento, uma fé operosa e um estilo de vida comprometido com o reino de Deus, quando ela vive sob a orientação da Palavra de Deus e tem uma vida consagrada ao serviço do seu Senhor, quando ela está focada e prioriza o reino de Deus e está disposta a obedecer ao seu Senhor sendo capacitada para isso pelo Espírito Santo.
O que significa usar os instrumentos que Deus deu à Igreja para opor-se ao mal. Será que isto significa aderir ao que, há algum tempo surgiu no seio da Igreja e cujo movimento foi chamado batalha espiritual no qual os crentes passaram a denominar-se de guerreiros, alguns dando-se patentes como capitão, general e coisas parecidas. E foi um tal de mapear território, achar tronos de satanás, sair marchando pelas cidades declarando que elas pertencem ao Senhor Jesus. Ao final de mais de três décadas as coisas continuam mais ou menos como eram.
Não podemos fugir a uma verdade – a bíblia fala de conflitos, como, por exemplo, da carne contra o Espírito (Gl 5:17), compara os cristãos a soldados arregimentados (II Tm 2:4) e vestidos adequadamente para uma batalha (Ef 6:13) e fala de uma luta que não é contra carne ou sangue (Ef 6:12) com armas diferentes das que podem ser encontradas em qualquer arsenal militar, por mais desenvolvidos que sejam (II Co 10:4).
Não devemos confundir as metáforas, símiles e comparações bíblicas com a pseudoteologia que ficou conhecida como Batalha Espiritual, todavia, o conflito entre a carne e o Espírito permanece, era uma realidade na igreja primitiva e ainda é um enorme desafio para a Igreja contemporânea que ainda está sob o ataque de satanás, o inimigo que quer vê-la caída e derrotada (I Pe 5:8-9) e por isso a Igreja deve buscar fortalecer-se cada vez mais no Senhor e na força do seu poder (Ef 6:10).
Em sua luta contra toda forma de mal a Igreja não pode fazer de conta que a injustiça não existe, pelo contrário, deve opor-se ao mal com os instrumentos que o Senhor lhe deu. Propositalmente não quero usar as palavras “armas”, mas instrumentos como amor, justiça, misericórdia, capazes de vencer as barreiras mais violentas e destruir impérios, como fez com o império romano e como faz com corações endurecidos e frios (Jr 23:29). Ainda que em determinados momentos a Igreja tenha se servido de armas carnais, como Davi contra Golias e os reformadores do séc. XVI contra as forças da idolatria, o que fez e faz da Igreja vencedora não é a arma que empunha, mas a esperança que carrega em seu coração (I Jo 5:4-5) como declara confiantemente o futuro rei Davi (I Sm 17:45) utilizando-se, mais do que da funda ou das pedras, da confiança em Deus.
Mas de uma coisa eu tenho certeza – não é com passeatas, com marchas infrutíferas que a Igreja vai produzir frutos de justiça. A única maneira da Igreja produzir o que o Senhor espera dela é, capacitada pelo Senhor, revestida pelo seu Espírito, viver a sua fé de maneira coerente com o seu discurso. Vejamos o que nos diz a Escritura sobre a Igreja que deve opor-se a toda forma de mal e como ela pode combater as atuações malignas:
10 Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder.
11 Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo; 12 porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.
13 Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis.
14 Estai, pois, firmes, cingindo-vos com a verdade e vestindo-vos da couraça da justiça.
15 Calçai os pés com a preparação do evangelho da paz; 16 embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno.
17 Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus;
18 com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos 19 e também por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do evangelho, 20 pelo qual sou embaixador em cadeias, para que, em Cristo, eu seja ousado para falar, como me cumpre fazê-lo.
Ef 6.10-20 
Um evento histórico nos mostra o que pode acontecer quando se negocia princípios. A Alemanha de Adolf Hitler começou a mostrar uma certa ambição imperialista e os países europeus foram se acomodando com as sucessivas anexações de territórios, até que perceberam que teriam que enfrentar um inimigo que, de migalha em migalha, haviam alimentado e tornado um inimigo poderoso. Aí já era tarde, a França estava sendo tomada, a Inglaterra sob ataques e o caos da II Grande Guerra instaurado.
Um segundo evento, mais próximo de nós e de consequências ainda não mensuradas, mostra a mesma coisa – vagarosamente os valores tradicionais da família (homem, mulher e filhos) foram sendo substituídos por um princípio vago de “tolerância” até desembocar na famigerada ideologia de gênero e numa luta ferrenha contra valores cristãos – e lamentavelmente muitos que a si mesmo se chamam cristãos defendem tais aberrações.
A Igreja é chamada para opor-se ao mal. O mal é a capacidade ou o desejo, o poder de causar dano a algo ou a alguém, desobedecendo ao que o Senhor Jesus resumiu como o segundo mandamento (Mt 22:39). E não há nada mais fácil do que encontrar alguém capaz de fazer o mal. Se você quer encontrar uma pessoa capaz de fazer o mal para alguém basta que você olhe um móvel que tem em sua casa: o espelho. Ser Igreja é, em primeiro lugar, opor-se à pratica do mal em sua própria vida – amar a Deus, amar ao próximo, evitar a prática das obras da carne e ver frutificar o Espírito.
Uma Igreja unida ao Senhor, em comunhão com o seu Senhor, uma Igreja que é, de fato, Igreja, que pode dizer que é Cristo quem vive nela (Gl 2:20) terá poder do Senhor para abster-se de toda forma de mal (I Ts 5:22) e assim poderá reprovar as obras infrutíferas das trevas (Ef 5:11), porque estará fortalecida no Senhor e na força do seu poder (v. 10).
Mas quais os elementos que Deus dá à Igreja para reprovar e manter-se firme contra a ação do mal? A resposta de Paulo é: com atitudes concretas, práticas, constantes e firmes. Pode parecer estranho, mas o cristão que deseja batalhar por sua fé tem que ser intransigente – não pode negociar princípios.

i.                  COM A VERDADE

Sem aprofundar nas metáforas militares usadas pelo apóstolo é possível perceber que a operação do erro só pode ser combatida com a Palavra da verdade. Não se combate uma fraude com uma nova fraude porque, mais cedo ou mais tarde, esta nova fraude vai cair também. Para preservar seus territórios a Igreja Romana apresentou um documento chamado doação de Constantino, na qual o imperador teria doado quase toda a península itálica à Igreja – todavia a Igreja foi envergonhada no séc. XV por estudiosos que mostraram que tudo não era uma grande fraude, um grande engodo, e isto contribuiu para uma perda de credibilidade ainda maior. Acusado de apresentar um evangelho mentiroso, Paulo usa de um artificio filosófico justamente para mostrar que seu evangelho era verdadeiro (Rm 3:7).
O cristão não precisa copiar o pai da mentira, satanás, e anunciar o que há em suas mentes férteis mas cuja produção é inútil porque suas vergonhas ficarão expostas no dia do juízo (Mq 7:9). A exortação divina para os cristãos é que anunciem a Cristo, somente a Cristo, porque só ele é “a verdade” (Jo 14:6) e só ele é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê (Rm 1:16) porque a fé não pode se apoiar em pensamentos dos homens, mas na verdade de Deus (I Co 2:5).

ii.               COM A JUSTIÇA

Paulo convivia com soldados – teve a companhia da guarda pretoriana durante muito tempo, e sabia como era a vestimenta dos mesmos. Parte dela era feita de couro reforçado com metais no exterior, especialmente aquela que protegia órgãos vitais. Era a “couraça”, firme, rija. Assim deve ser a justiça do crente, no Senhor (Jr 33:16) e a prática da justiça pelo crente – consciente, amorosa, mas intransigente, constante, inabalável independente das circunstâncias externas, ou ataques dos inimigos da fé (Ne 6:3) por saber que a obra é do Senhor e para o Senhor (I Co 15:58).
A Igreja Presbiteriana crescia e se fortalecia porque havia justiça nas relações interpessoais e com Deus. Quando Ananias e Safira agiram com injustiça, foram excluídos dela. Quando Simão, o enganador (At 8:11), agiu com injustiça, também foi excluído da Igreja (At 8:20) mesmo tendo “abraçado a fé” (At 8:13). Todavia, os crentes são chamados para agirem com justiça, evidenciando (porque não podem produzir por si mesmos) o fruto do Espírito que sempre produz o bem e não mal, e evitando as obras da carne, que sempre produzem injustiça social e espiritual.
Nenhum crente genuíno sacrifica a justiça em favor de alguma conveniência particular, não torce o juízo para favorecer algo ou alguém de seu interesse, nem depositará a sua confiança em nada deste mundo para manter-se de pé porque sua justiça é o Senhor.

iii.           COM CONFIANÇA

Os grandes exércitos, os mais vitoriosos, contavam com soldados confiantes porque contavam com generais corajosos e vitoriosos. Em uma das batalhas do exército brasileiro no séc. XIX conta-se que, na guerra do Paraguai, os soldados estavam reticentes em atacar uma ponte que era guardada por soldados adversários. O comandante, Luis Alves de Lima e Silva, Duque de Caxias, precisava tomar uma ponte que cruzava o rio Itororó. No dia 5 de dezembro de 1868 após várias tentativas e repelidos pelo fogo intenso paraguaio os brasileiros entraram em pânico e começaram a fugir em desordem. Caxias desembainhou sua espada e avançou a cavalo em direção à ponte com alguns auxiliares e gritava: “Salve sua Majestade!”, “Salve o Brasil” e, finalmente, bradou “Sigam-me os que forem brasileiros”. Isto impediu a retirada, insuflou coragem nos soldados, as unidades se reagruparam e tomaram a ponte em questão, abrindo caminho para o fim da guerra.
Os cristãos podem opor-se ao mal porque seu Senhor é o Senhor dos senhores, o grande rei, tudo está sob sua autoridade (Mt 28:18) e ele comunica a sua vitória àqueles a quem ele ama, e por ele são amados, por maiores que sejam os obstáculos à frente dos seus (Rm 8:37).
A fé, quando vivida em sua plenitude, logo contou com oposição. Foi assim em Jerusalém e foi assim em praticamente todo o mundo. Mesmo antes de Cristo a certeza de que Deus salva os seus era essencial para que os crentes vivessem a sua fé sem temores das consequências (Dn 3:17).
Paulo sabia que haveria oposição à fé em Éfeso por causa da cultura local, que literalmente vivia da idolatria a Igreja não teria paz e os novos convertidos encontrariam dificuldades para viver a sua fé (At 19:28-29).

CONCLUSÃO

Por medo, insegurança, por não confiar inteiramente na graça de Cristo tem muitos cristãos que vivem sua fé em altos e baixos, desmotivados por todo tipo de circunstância e se esquecem que a sua salvação é uma dádiva do Deus que não pode mudar (Ml 3:6) que perdoa os seus pecados (I Jo 1:7-9) e purifica as suas consciências (Hb 9:14).

É possível que haja oposição mesmo dentro da Igreja, mesmo daqueles que são considerados irmãos na fé. Lembre-se que Jesus foi traído e a multidão pediu sua crucificação, Estevão foi apedrejado, Paulo foi chicoteado, Martinho Lutero foi excomungado, João Calvino foi expulso da cidade, John Bunyan ficou preso muitos anos, Jonathan Edwards foi demitido de sua congregação e José Manoel da Conceição foi considerado demente, só para citar alguns. Mesmo assim, não precisamos temer os homens, mas viver a nossa fé com temor e confiança naquele que é o nosso salvador (Mt 10:28).

terça-feira, 21 de março de 2017

A IGREJA PRESERVA SUA IDENTIDADE E DESEMPENHA SUA MISSÃO QUANDO É TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO

Todos devem ter plena certeza de que as práticas ilícitas devem se rejeitadas por todos os cristãos. Não há meio termo, e quem desejar tornar-se cristão deve compreender que as decisões que venha a tomar vão impulsioná-lo a deixar de fazer o mal e praticar o bem, pois a conversão ao Senhor leva a prática de obras que demonstrem este arrependimento.
 Santificação é mais do que fazer ou deixar de fazer – santidade é ser do Senhor, é deixar-se orientar pelo Senhor e por sua Palavra e ser habitação do seu santo Espírito. Ser cristão é mais do que seguir uma tal de “lei de crente” que, quando muito, são regras existentes dentro das Igrejas e na maior parte das vezes não passam de mandamentos de homens (Is 29:13) com os quais a Igreja sequer deve se ocupar (Tt 1:14). A única lei que realmente importa, que deve imperar no coração do povo de Deus é a inclinação do Espírito, que leva os corações dos crentes a prática do que é justo diante de Deus e dos homens, independente da cultura e da época.
Em nossa cultura permissiva a santificação é, muitas vezes, confundida com deixar de fazer algumas coisas, mas, mesmo o “deixar de pecar” pode tornar-se num orgulho pecaminoso, num julgamento menos correto de si mesmo, num desconhecimento da real natureza do pecado e num julgamento mais duro a respeito das fraquezas dos outros. Santificar-se significa, inicialmente, separar-se de tudo o que impede o pecador de buscar a glória de Deus. Santificar-se significa tudo fazer buscando a gloria de Deus – e arrepender-se dos pecados por amor ao Senhor, e não por temor das consequências, sem dúvida, corresponde à glorificar o Senhor que deseja que sua Igreja seja santa (Lv 20:7 - Portanto, santificai-vos e sede santos, pois eu sou o SENHOR, vosso Deus).
Para preservar sua identidade e desempenhar sua missão a Igreja de Cristo

I. POSSUI POR GRAÇA A BÊNÇÃO DE SER TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO

Perguntado sobre como um soldado pode desempenhar sua missão da melhor maneira possível o soldado simplesmente respondeu: conhecendo a missão e sabendo quais os obstáculos que podem surgir entre ele e a meta final (Hb 12:14). Evidente que não havia a menor preocupação com a questão de santidade no que ele disse – mas o fato é que esta resposta diz muito sobre como podemos definir santidade: conhecendo a vontade de Deus e, para sermos obedientes até o fim, evitarmos os obstáculos, os pecados, que podem atrapalhar esta jornada (Hb 12.1).
Ainda usando a linguagem militar, santidade é, de certo modo, definido pelo apóstolo Paulo como “cumprir satisfatoriamente a vontade do chefe” (II Tm 2:4). Imagine um soldado que precisa entregar uma mensagem crucial para a movimentação de uma tropa em uma guerra impreterivelmente em 1 dia e percorre apenas 90% do percurso dentro do prazo, mas só consegue chegar 1 semana depois. Que espécie de tratamento ele deve esperar de seus superiores, se superiores ainda existirem?
Como a Igreja poderia manter a sua identidade e cumprir a sua missão sem obediência – se ela perder a sua identidade (Lv 20:7) evidentemente será incapaz de cumprir a sua missão, que é dar frutos (Mt 7:16) que testemunhem a transformação que o Espírito faz na vida do pecador convertido (Ef 4:28) que passa a ter como alvo na vida glorificar o Senhor, fazendo, diariamente, a mesma oração feita pelo salmista (Sl 69:6), aplicando o ensino das Escrituras às situações diárias e não se deixando moldar pelos costumes da cultura em que vive (I Pe 1:14) porque o que é aceitável numa cultura pode ser visto como ofensivo e inconveniente em outra, e por isso escandaloso (Mt 18:7).
Vamos ver o que a Escritura nos diz sobre a necessidade de cada membro ser Igreja e, através da santificação diária, realmente se mostrar como o templo do Espírito e ter a santificação como uma característica constante em seu modo de viver.
12 Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas.
13 Os alimentos são para o estômago, e o estômago, para os alimentos; mas Deus destruirá tanto estes como aquele. Porém o corpo não é para a impureza, mas, para o Senhor, e o Senhor, para o corpo.
14 Deus ressuscitou o Senhor e também nos ressuscitará a nós pelo seu poder.
15 Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo? E eu, porventura, tomaria os membros de Cristo e os faria membros de meretriz? Absolutamente, não.
16 Ou não sabeis que o homem que se une à prostituta forma um só corpo com ela? Porque, como se diz, serão os dois uma só carne.
17 Mas aquele que se une ao Senhor é um espírito com ele.
18 Fugi da impureza. Qualquer outro pecado que uma pessoa cometer é fora do corpo; mas aquele que pratica a imoralidade peca contra o próprio corpo.
19 Acaso, não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos?
20 Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo.
I Co 6.12-20
Como a Igreja pode, obedecendo à Palavra de Deus, evitar os erros quanto às suas exigências e mover-se segundo a direção do Espírito Santo? A primeira maneira de a Igreja andar segundo Cristo é

i.                   PRATICAR O QUE É LÍCITO

12 Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas.
13 Os alimentos são para o estômago, e o estômago, para os alimentos; mas Deus destruirá tanto estes como aquele. Porém o corpo não é para a impureza, mas, para o Senhor, e o Senhor, para o corpo.
14 Deus ressuscitou o Senhor e também nos ressuscitará a nós pelo seu poder.

A Igreja em Corinto estava localizada em péssima companhia. Havia numerosos templos, e milhares de pessoas dispostas a cultuarem aos deuses pagãos de todas as formas, inclusive as mais imorais possíveis – e esta prática imoral não era vista como ilícita, pelo contrário, jovens coríntios, de ambos os sexos, se colocavam durante um tempo à disposição dos “adoradores” que vinham de todas as partes do mundo greco-romano para comercializarem seus produtos na cidade.
A promiscuidade era generalizada e a prostituição cultual institucionalizada tornavam a vida da Igreja complicada em diversos aspectos, a ponto de Paulo insistir que o corpo não é para a impureza (I Co 6:13) e que a prostituição cultual nada tem de culto, na verdade (I Co 6:15) sendo somente mais uma obra da carne (Gl 5:19).
Apesar de tantos templos em Corinto, um só era necessário: o próprio crente que, abandonando as obras infrutíferas das trevas (Ef 5:11) se tornava em santuário do Espírito de Deus (I Co 3:17) tornando obsoletos todos os demais, e, pior ainda, reprovando com sua vida aqueles templos destinados à idolatria e lascívia.
Paulo não usa de ambiguidade quando reprova as práticas pecaminosas existentes em Corinto – suas palavras são diretas e duras, e ele as reprova na sociedade coríntia e faz o mesmo quando estas práticas começaram a entrar naquela Igreja e que, ao invés de promover a comunhão, estavam causando divisões, pois uns diziam ser seguidores de Paulo, outros de Pedro, outros de Apolo e havia os que usavam o nome de Cristo para, aparentando superespiritualidade, justificar seu divisionismo (I Co 1:12).
As práticas que a Igreja estava adotando, práticas lícitas na sociedade coríntia, estavam se tornando um padrão de conduta que diminuíam a comunhão entre os irmãos e, mais ainda, com o Senhor. Abandonar o padrão do mundo, não se deixar levar pelo que “todo mundo faz” é um imperativo cristão (Rm 12:2) porque o mundo jaz no maligno (I Jo 5:19) e o cristão é chamado à santidade que antes desprezava (I Pe 1:14 ) por ignorância da Verdade que é libertadora (Jo 8:32).
O problema detectado e combatido por Paulo em Corinto era que os cristãos estavam se utilizando da liberdade para, insensata e insensivelmente, ser motivo de escândalo para outros e, assim, tornando a liberdade em ocasião para pecar fazendo outros tropeçarem (I Co 8:9). É comum que uma atitude que, em si mesma, não é pecaminosa, seja ofensiva e atrapalhe o crescimento espiritual de outros irmãos menos experimentados. Podemos ilustrar isto com o fato de que grandes teólogos protestantes do séc. XIX tinham o hábito de fumarem cachimbos, ou que reformadores do séc. XVI recebiam parte de seus proventos em barris de vinho (em tempo, não há registros de que tenham se embriagado). Em seus dias e onde moravam isto não era visto como pecaminoso, mas seria terrível para a Igreja evangélica brasileira que seus pastores agissem desta maneira – certamente o habito de fumar era pecaminoso, mas cada um deve andar segundo a luz recebida.
Devemos, pois, ter comportamento contrário ao dos crentes de Corinto, pois usaram da “liberdade Cristã” para aumentar seus pecados. Devemos usar os nossos corpos como aquilo que eles efetivamente são – nosso ser, contaminado pelo pecado e remido pelo sangue de Cristo. A salvação e a santificação não é uma coisa apenas espiritual, ela envolve todo o nosso ser e influencia definitivamente o que fazemos com ele (Rm 12:1).
A Escritura nos diz para não nos iludirmos – mesmo aquilo que é lícito socialmente pode ser um terrível pecado, por isso somos chamados de peregrinos e forasteiros, com uma lei interior diferente daquela que rege o mundo ao nosso redor (I Pe 2.11-12).
Sem dúvida que a prática de coisas lícitas à luz das Escrituras é absolutamente necessária, mas precisamos andar um pouco mais e compreender que a Igreja preserva a sua identidade e cumpre a sua missão vivendo em santidade ao

ii.                UNIR-SE A DEUS

15 Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo? E eu, porventura, tomaria os membros de Cristo e os faria membros de meretriz? Absolutamente, não.
16 Ou não sabeis que o homem que se une à prostituta forma um só corpo com ela? Porque, como se diz, serão os dois uma só carne.
17 Mas aquele que se une ao Senhor é um espírito com ele.
18 Fugi da impureza. Qualquer outro pecado que uma pessoa cometer é fora do corpo; mas aquele que pratica a imoralidade peca contra o próprio corpo.

A identidade da Igreja é ser corpo de Cristo, edifício de Deus (I Co 3:9). Não há Igreja se ela não estiver essencialmente ligada ao Senhor Jesus, a videira verdadeira da qual a Igreja é apenas ramos (Jo 15:5). A mentalidade coríntia permitia ser religioso, frequentar um templo, ser devoto de um ou vários deuses e deusas sem que isto tivesse qualquer impacto prático em suas vidas. Podiam até mesmo participar de um culto ao imperador (mesmo detestando e não o considerando em nada divino) simplesmente porque eram cidadãos romanos e deviam dizer que César é senhor (I Co 12:3). Estar unido ao Deus vivo significa mais do que os coríntios estavam habituados a pensar, era mais do que um simples ritual, por mais impactante que fosse. Estar unido a Deus significa viver uma nova vida, uma nova vida em Cristo, podendo afirmar que já não se vive mais, mas que é Cristo quem vive no crente (Gl 2:20).
Para viver unido a Cristo é preciso ter a vida de Cristo – e para ter a vida de Cristo é preciso morrer para si mesmo, numa renúncia total (II Co 4:8-11), algo que não tem sido muito comum na cristandade atual que pensam muito mais nas delícias deste mundo e para quem a palavra renúncia é incabível (Mt 10:37-38), como se não tivesse sido uma exigência do Senhor para aqueles que querem ser seus discípulos, para aqueles que querem ser Igreja.
A esta união os teólogos denominaram “união mística”, mas podemos simplesmente chamá-la de comunhão, de andar com Cristo, de considerar a vontade de Cristo como fonte de autoridade e, antes de tomar uma decisão buscar conhecer qual a vontade de Deus para seus filhos naquela área. Não pense que estamos falando de buscar uma revelação pessoal, mas a revelação normativa de Deus para seus filhos em todas as épocas. É por isso que Paulo fala que os crentes são diferentes, porque tem a vida de Cristo, tem o Espírito de Cristo (Rm 8:9) e a mente de Cristo (I Co 2:16).
União com Cristo significa fuga do pecado, como fez José, não importando o preço (Hb 12:4). União com Cristo significa resistir ao diabo até que ele fuja (Tg 4:7) embora permaneça nas proximidades com intuitos maléficos em seu negro coração (I Pe 5:8).
Para, como Igreja, cumprirmos nossa missão e resguardarmos nossa identidade precisamos, como templo do Espírito, praticar o que é lícito não apenas socialmente, mas essencialmente em harmonia com a nova vida que o Senhor nos dá, e, ainda mais, é preciso

iii.             GLORIFICAR A DEUS

19 Acaso, não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos?
20 Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo.

Alguns cristãos agem como se Deus precisasse de seus louvores, ou de sua atuação para ser glorificado. Este é um equívoco porque Deus é eterna e imensamente glorioso. Deus não precisa de nada – tudo é dele, tudo é por ele e tudo é para ele (Rm 11:36) e toda a terra está cheia da sua glória (Is 6:3). Certa vez um professor de matemática que gostava de ensinar macetes aos seus alunos disse uma frase que marcou meu entendimento sobre glorificar a Deus. E note que ele era professor de matemática: “Quer aprender como glorificar a Deus? Quer um método mais fácil do que somar dois e dois? Aprenda a conjugar o verbo amar – e o conjugue no presente, todo o tempo.”
Para uma sociedade que pensava que para glorificar a Deus tinha que obedecer a muitos mandamentos (um rabino chamado Moshê ben Maimon, ou Maimônides, ou ainda Rambam, chegou a listar 613 deles). Se 10 já é impossível, imagine 613. Mas mesmo assim o Senhor Jesus apresenta apenas dois, e ambos conjugam o verbo amar: amar a Deus e à criação de Deus (Lc 10:27) porque quem conhece a Deus ama verdadeiramente (I Jo 4:8) e nem esses dois conseguimos cumprir integralmente.
Não há como duvidar disso, em toda a Escritura Deus se mostra como curador, provedor, consolador, como pai amoroso que através de obras de incomparável poder prova o seu amor para conosco (Rm 5:8) pagando um alto preço para satisfazer uma necessidade que era nossa, e não dele. Nós precisávamos conhecê-lo, amá-lo e para isso ele pagou um preço extremamente alto (I Co 6:20) e a maneira de expressarmos nossa gratidão e glorificá-lo é sendo, de fato, templo do seu Espírito sendo, afinal, um com ele (I Co 6:17-19).
Quer aprender como glorificar a Deus? Siga alguns passos muito simples. É um resumo, muito, muito simples, mas suficiente por ora: em primeiro lugar, conheça-o verdadeiramente (Jo 17:3) e isto só pode ser feito por intermédio do reconhecimento de Jesus Cristo como o Filho de Deus (Mt 16:17); em seguida reconheça-o como seu Senhor e salvador pessoal (At 16:31) e então passe a conhecer e reconhecer sua vontade como imperativa (Jo 15:14) guardando os seus mandamentos (Jo 14:21).
Sim, é somente através do andar no caminho das boas obras que o Senhor preparou de antemão que de fato o Senhor será glorificado. É pelo frutificar de seu povo (Jo 15:8 - Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto; e assim vos tornareis meus discípulos), pelo que ele fala e faz, que o nome do Senhor é glorificado não apenas na Igreja, mas também entre os incrédulos (I Pe 4:11).

CONCLUSÃO

Ser templo do Espírito Santo não é uma tarefa fácil. Não é uma simples questão de querer pessoal – é uma determinação do mesmo Deus que nos assiste em nossas fraquezas. É impossível à vontade desassistida do homem (Rm 7:19). O Espírito é o que habita o que crê e, ao mesmo tempo, o sustenta em sua fé.
É por isso que não é impossível ser templo do Espírito Santo – esta é uma ação de Deus, a santificação é uma ação de Deus na vida do crente (Jo 17:17), e a ação do crente é busca-la perseverantemente porque ela lhe é essencial para que ele tenha comunhão com o seu Senhor (Hb 12:14).
Paulo nos mostra que a maneira de glorificarmos a Deus é, diariamente, nos exercitarmos em obediência à sua vontade, através de um testemunho vivo de que somos seus instrumentos, prontos para o seu serviço em uma atitude que demonstre, antes de mais nada, amor total a ele, e, depois dedicação ao próximo.
Glorificar a Deus é, cumprindo sua vontade, encontrar recursos para fugir ao pecado, e viver obedecendo a sua Palavra é o melhor meio para não transgredir sua vontade (I Jo 3:4).
Para fugir do pecado (I Tm 6:11), e viver como templo do Espírito Santo de Deus o melhor, ou melhor, o único método infalível é viver sua Palavra, testemunhar seu amor e sacrifício e mostrar ao mundo que, mesmo que falem contra nós, a fé em Cristo realmente faz diferença na vida de um pecador (I Pe 2:12).
Faça um exame de você mesmo, se, sendo membro da Igreja, você efetivamente é Igreja, isto é
i.               Você efetivamente é templo do Espírito Santo? Você consegue perceber a atuação do Espírito em você ajudando-te a reconhecer o pecado que te assedia e te impulsionando a fugir dele (Hb 12:1);
ii.              Você, sendo Igreja, tem procurado efetivamente conservar seu corpo como templo do Espírito, usando-o para receber as bênçãos de Deus e tributar-lhe a glória que lhe é devida (Sl 103:1);
iii.            Você, sendo Igreja, sendo templo do Espírito e procurado manter sua vida pura para glória do Senhor, tem efetivamente mostrado a outros a diferença que faz na vida de um pecador conhecer a Jesus e reconhece-lo como seu Senhor e salvador (Ml 3:18).
Que testemunho você tem dado para mostrar que o seu corpo é o templo do Espírito Santo? Andar no Espírito (Gl 5:16) exige que se viva de acordo com a Palavra de Deus como se vive respirando o oxigênio.
Andar no Espírito é mais do que ler um pouco de bíblia, estuda-la de vez em quando ou fazer um curso aqui ou outro ali. É colocar em prática a orientação que Deus deu a Josué (Js 1:8), amando a Palavra de Deus, deleitando-se em sua vontade e cumprindo-a sem desvios (Js 1:7) e, com isso, exaltaremos a obra de Cristo, porque a obra do Espírito é exaltar a Cristo em nós e através de nós.
E este é o plano de Deus para todos os seus servos, e não apenas para uns poucos privilegiados (Tg 2:1) como se houvesse privilegiado diante do Senhor (Rm 2:11).

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