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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

CRISE D[E] INTEGRIDADE

Como manter a integridade emocional, espiritual e moral em tempos de crise? Como conduzir a família quando o que se tem a frente mais parece com uma tempestade de areia do que pastos verdejantes?
A bíblia nos conta a história de um homem que teve que lidar com este dilema - e queremos aprender com o que lhe aconteceu. Há um ditado que diz mais ou menos o seguinte: “O tolo erra, e nunca aprende. O inteligente erra e aprende. O sábio observa o tolo e o inteligente, e aprende sem errar”.
A história deste homem se encontra no início do capítulo primeiro do livro de Rute [Rt 1.1-18). A história de Elimeleque acontece nos dias dos juízes, quando Israel vivia um período de privação causada pela opressão cananeia, com pouca produção de alimentos e o que ainda era produzido era, muitas vezes, objeto de saque.
Na tentativa de fugir ao juízo de Deus sobre a desobediência do povo (Jz 3:7 - Os filhos de Israel fizeram o que era mau perante o SENHOR e se esqueceram do SENHOR, seu Deus; e renderam culto aos baalins e ao poste-ídolo) Elimeleque fez o que achava ser melhor para seus filhos, deixando de considerar, porém, a vontade de Deus que, em seu caso, era absolutamente clara.
Não se trata de onde colocar o filho para estudar ou que profissão incentivá-lo a ter para ter uma boa renda - tratava-se de submeter-se à vontade de Deus que estava disciplinando o seu povo por escolhas erradas, e a disciplina era parte do acordo que Deus estabelecera com Israel anos antes (Is 1:2 - Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, ó terra, porque o SENHOR é quem fala: Criei filhos e os engrandeci, mas eles estão revoltados contra mim).
Eram dias em que o que contava mesmo era a opinião pessoal, a corrente de pensamento mais influente no momento e não a vontade revelada e imutável de Deus e este homem, cujo nome significa Deus é meu rei, não fez jus ao seu nome, tomou sua esposa, Noemi, e seus filhos Malom e Quiliom (cujos nomes são cananeus, significando, respectivamente, fraqueza, doença e definhamento, tristeza porque provavelmente nasceram no tempo de provação, de fome em Belém.
Elimeleque esperava ir passar apenas uma temporada em Moabe, e, depois voltar com sua família para Belém. Mas há caminhos que, ao homem, parecem direitos, mas ao cabo são caminhos de morte. E esta foi a triste experiência de Elimeleque.
Ele resolveu habitar entre os moabitas, e, para isso, teve que abrir mão de seus escrúpulos religiosos. Como judeu teve que lidar com povos que eram considerados impuros, filhos de um relacionamento impuro da primogênita de Ló, que embebedou seu pai e teve um filho com ele.
Admitamos a boa vontade de Elimeleque - ele queria o melhor para sua família. O problema é que o melhor, aos seus olhos, foi correr atrás de sustento material sem dar a devida atenção à vontade de Deus. Antes de analisarmos as consequências da escolha de Elimeleque, devemos observar que a vida continuou em Belém, e, anos depois, Noemi pode retornar para lá, e parece haver paz e fartura na terra, mas não para ela, por isso vejamos as consequências da escolha de Elimeleque.
i. Ele perdeu a vida em terra dos moabitas - não pôde retornar a Belém, nem educar seus filhos (Pv 22:6 - Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele);
ii. Ele colocou seus filhos sob a influência dos moabitas, e estes não tiveram escolha senão seguirem os costumes da terra, tomando para si esposas que não deviam tomar (Ed 9:12 - Por isso, não dareis as vossas filhas a seus filhos, e suas filhas não tomareis para os vossos filhos, e jamais procurareis a paz e o bem desses povos; para que sejais fortes, e comais o melhor da terra, e a deixeis por herança a vossos filhos, para sempre);
iii. Seus filhos também não puderam voltar para a terra que lhes pertencia (Rt 1:5 - Morreram também ambos, Malom e Quiliom, ficando, assim, a mulher desamparada de seus dois filhos e de seu marido).
Por causa da morte de Elimeleque, Malom e Quiliom Noemi agora se tornara uma mulher a quem a vida só trouxe amarguras - e teria que, voltando para Belém, viver de esmolas porque não lhe seria permitido retomar a posse das terras que fora de seu esposo. Aquele que fora em busca de sustento e prosperidade no fim foi a causa da tristeza e desgraça da família. Havia boa intenção, ele estava fazendo o que achava melhor para sua família, mas não estava obedecendo a Deus (Mt 6:33 - ...buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas).
Qual foi o problema de Elimeleque?
Na hora da crise, ele negociou. Ele negociou os valores da Palavra de Deus - preferiu entrar em acordo com os moabitas ao invés de aguardar a salvação do Senhor (Lm 3:26 - Bom é aguardar a salvação do SENHOR, e isso, em silêncio), como mais tarde faria um descendente de sua família, Davi (I Cr 21:13 - Então, disse Davi a Gade: Estou em grande angústia; caia eu, pois, nas mãos do SENHOR, porque são muitíssimas as suas misericórdias, mas nas mãos dos homens não caia eu). Trabalhe, lute, e, mesmo quando tudo parecer perdido, continue confiando em Deus, não negocie os valores do reino (Pv 28:6 - Melhor é o pobre que anda na sua integridade do que o perverso, nos seus caminhos, ainda que seja rico) porque ele não desampara os que nele confiam (Sl 37:25 - Fui moço e já, agora, sou velho, porém jamais vi o justo desamparado, nem a sua descendência a mendigar o pão).


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

SÉRIE PERSONAGENS - RUTE, A COMPANHIA QUE SE ABRIGOU AOS PÉS DO SENHOR

SÉRIE PERSONAGENS: RUTE

A história de Rute (re’üth - companhia feminina, companheira) está ambientada no período dos Juízes, aproximadamente 1200 anos antes de Cristo, mais ou menos nos dias do sacerdote Eli. Nos escritos judaicos é dito que Rute era uma princesa moabita imbuída de elevados ideais, não estava satisfeita com a idolatria de seu próprio povo e quando chegou a oportunidade, abriu mão do privilégio da realeza em sua terra, aceitando uma vida de pobreza entre um povo que ela admirava.
É uma história que começa errado, com desobediências, e termina de uma maneira maravilhosa por causa da graça de Deus.
Israel enfrentava uma crise causada pela opressão cananéia, com pouca produção de alimentos e o que ainda era produzido era, muitas vezes, objeto de saque. Na tentativa de fugir ao juízo de Deus sobre a desobediência do povo (Jz 3:7). Elimeleque, um homem de Belém (o mishnáh diz que ele era um rico mercador), cujo nome significa Deus é meu rei (o que parece uma evidente ironia pois ele não demonstra preocupação alguma com a vontade de Deus), tomou sua mulher, Noemi e seus filhos Malom e Quiliom (cujos nomes são cananeus, significando, respectivamente, fraqueza, doença e definhamento, tristeza porque provavelmente nasceram no tempo de provação, de fome em Belém - seus nomes também demonstram a forte influência que o relacionamento com os povos estrangeiros exercia sobre o povo de Deus).
Elimeleque é um retrato fiel de Israel - um povo que fazia o que bem lhe parecia (Jz 21:25). E sem querer, ele também acaba tipificando Israel como agente do mandato de Deus - seu relacionamento com os cananeus resultam em morte para ele e seus filhos, rejeição por parte das nações e, eventualmente, a conversão de um incrédulo.
UMA SÁBIA ESCOLHA
Após a morte de seu marido (Malom) Rute foi orientada por Noemi a retornar para sua família porque seria impossível ela herdar os bens da família uma vez que não havia como cumprir o levirato (um irmão do morto tomava a viúva como sua esposa, e o filho deste costume era considerado filho do morto). Quando ouve a insistente orientação para retornar para os seus (Rt 1.8) Rute responde junto com a outra viúva cananéia que não voltariam (Rt 1.10), mas, mesmo depois que Orfa muda de idéia (Rt 1.14), ela permanece firme (Rt 1.16-17).
A história de Rute mostra que Deus é poderoso e misericordioso, transformando o mal em bem, como fez com José (Gn 50:20). Aparentemente o tempo da crise já havia passado, e Noemi e Rute retornam a Belém no tempo da sega da cevada (Rt 1.22).
Apesar do uso que é feito do verso 17 (em declarações de amor, noivados e casamentos) ali temos o relato de uma conversão ou de uma profissão de fé: o ponto fundamental é: o teu povo e o meu povo e o teu Deus é o meu Deus. Ela não declara que será uma hebréia, mas que já se sente uma, já se sente parte do povo de Deus com todas as implicações que isso pode ter. Por isso para ela é impossível voltar para Moabe, seu estilo de vida e seus ídolos, assim como é impossível a um verdadeiro convertido voltar à uma vida de pecados (I Jo 3.6). Orfa pôde voltar para Moabe porque não fora, realmente, convertida - ela escolhe o caminho que lhe era mais fácil temendo a rejeição dos israelitas. Fora casada com um hebreu, mas não convertida (II Pe 2.22). Houve mudança em seu estado civil, mas não em seu coração.
Rute e Noemi viviam uma situação precária - não podiam requerer as terras pertencentes a Elimeleque. Noemi tinha receio de que Rute, sendo moabita, sofresse alguma forma de rejeição em virtude da ordem para não tomar esposa entre os povos da terra (Dt 23.3), especialmente amonitas e moabitas, filhos de Ló, o que, talvez, explique a sua insistência para que elas não a acompanhassem (Ex 34.15-16).
UMA DISPOSIÇÃO HUMILDE
Certamente Rute havia tomado conhecimento dos dispositivos da lei que permitiam aos estrangeiros, órfãos e viúvas colherem os grãos que caíam dos feixes juntados pelos trabalhadores (Lv 19.9-10) e, ainda, os cantos dos campos, próximos aos caminhos (Lv 23.22), o que explica o fato de Jesus colher trigo nos campos e não poder ser acusado de furto (Lc 6:1).
Todavia, este era o período dos juízes - cada um fazia o que bem lhe parecia e provavelmente alguns preferiam aumentar a renda do que atender ao mandato do Senhor (nada muito diferente de trabalhar demais, ou usar o dia do Senhor para interesses pecuniários e não repouso ou exercícios devocionais).
Este dispositivo se aplicava a qualquer tipo de colheita (Dt 24:19-21).
Rute demonstra alguma preocupação em relação a isto, a ponto de deixar escapar a expectativa de não poder rebuscar (Rt 2.2).
A PROVIDÊNCIA DIVINA
Deus demonstra a sua providência de uma maneira geral (Mt 5:45 - para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos) mas o faz de maneira particular na vida dos seus eleitos. Desta maneira, procurando rebuscar nos campos em colheita Rute acaba indo colher nas terras de Boaz, membro da mesma família que Malom (Rt 2.3 - Ela se foi, chegou ao campo e apanhava após os segadores; por casualidade entrou na parte que pertencia a Boaz, o qual era da família de Elimeleque).
Por alguma razão Boaz identifica, em meio aos segadores, aquela jovem - Belém era uma pequena aldeia, habitada por basicamente uma família, logo, qualquer pessoa estranha seria percebida facilmente. Inquirindo aos seus ceifeiros sobre quem era ela, recebe como resposta que era uma estrangeira, ao mesmo tempo sua aparentada e muito esforçada (Rt 2.6-7).
Boaz procura saber mais sobre Rute (Rt 2.11) e, com o intento de atender às necessidades de suas parentes, Boaz vai até Rute e lhe dá permissão para colher quanto necessitasse e não apenas recolher as sobras, como era comum. Também lhe permite beber água junto com os trabalhadores (Rt 2.8-9).
De uma maneira discreta Rute pede que Boaz a tome por serva (Rt 2.13 - Disse ela: Tu me favoreces muito, senhor meu, pois me consolaste e falaste ao coração de tua serva, não sendo eu nem ainda como uma das tuas servas) e é tratada como alguém da família (Rt 2.14 - À hora de comer, Boaz lhe disse: Achega-te para aqui, e come do pão, e molha no vinho o teu bocado. Ela se assentou ao lado dos segadores, e ele lhe deu grãos tostados de cereais; ela comeu e se fartou, e ainda lhe sobejou) dispondo para que ela pudesse ter com fartura para atender a Noemi.
SABEDORIA PARA ACEITAR CONSELHOS
Surpresa com a eficiência de Rute, que chegou em casa com aproximadamente 22lt de cevada, Noemi procura saber quem é o proprietário da terra onde Rute colheu, e, ao descobrir que é Boaz, identifica-o como homem de bom coração e um dos parentes com direito a tomar posse das terras de Elimeleque (Rt 2.20).
Noemi percebe que a boa vontade de Boaz poderia, também, tornar-se em benção para o que ainda restava de sua família. O marido de Rute fora o filho primogênito de Elimeleque - tendo, portanto, o direito de herança. Morto ele, um parente chegado poderia tomar Rute por esposa e assim ela e Noemi teriam a propriedade como fonte de renda.
SOB A ALIANÇA PROVIDENCIAL
Noemi resolveu fazer uso da lei do levirato (Dt 25.5-6) e instrui Rute sobre o que fazer (Rt 3.1-4). Era uma atitude ousada e corajosa, de pedir proteção legal a Boaz, mas ao mesmo tempo muito arriscada, pois se ela fosse surpreendida por um servo poderia ser tida como uma aventureira ou prostituta.
Ao acordar, e ser advertido sobre seus deveres (Rt 3:9) Boaz entendeu claramente a mensagem: alguém tinha que ser o resgatador de Rute e Noemi, mas a família estava deixando de cumprir este papel social. Ele aceita a atitude de Rute como uma repreensão velada (Rt 3.10) e, em virtude do bom testemunho dela, resolve agir para resolver o problema (Rt 3.11), aparentemente desejando ser o resgatador mas sabendo que a lei precisa ser cumprida e que nao era dele a prioridade (Rt 3.12).
HONRADA ENTRE OS SEUS
Ao amanhecer Boaz toma providências, convida os anciãos belemitas para uma reunião pública no “fórum” da época (Rt 4.1-2) para resolver a questão da posse da propriedade de Noemi, bem como o levirato de  Malom. O belemita se interessa pela propriedade, mas ao ser informado do levirato preferiu abrir mão (Rt 4.6). A maneira como ele responde não deixa claro se a questão era uma divisão posterior de herança ou se relacionava às mulheres - Rute e a sua esposa.
Então Boaz recebe o direito de efetuar a compra da herança - pagando-o a Noemi e casando-se com Rute o valor dispendido ficava sob sua guarda (Rt 4.9-10). É um curioso caso de casamento sem noiva que dá certo.
Rute gerou um filho, que foi considerado filho de Noemi, a quem deram o nome de Obede (Rt 4.17).

 LIÇÕES PRECIOSAS
Elimeleque buscou descanso e prosperidade longe de Deus - encontrou a morte (Pv 14:12);
Rute buscou amparo no meio do povo de Deus - e encontrou descanso e amparo (Mt 11:28).
Noemi saiu feliz de casa, com família e bens (Lc 15.13);
Noemi voltou carente e o povo não lhe deu hospitalidade, como o filho pródigo (Lc 15.28);
Rute e Noemi precisaram de um resgatador (Rm 3:25).
RUTE, UM EXEMPLO A SER SEGUIDO
Uma mulher segundo o coração de Deus:
· Devotada ao seu esposo (Rt 1.8: 8 - ...disse-lhes Noemi: Ide, voltai cada uma à casa de sua mãe; e o SENHOR use convosco de benevolência, como vós usastes com os que morreram e comigo);
· Devotada à sua família (Rt 1.16 - Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus);
· Devotada a Deus (Rt 1.17 - Onde quer que morreres, morrerei eu e aí serei sepultada; faça-me o SENHOR o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti).
Lembremos que não foi a disposição de Elimeleque ou de Malom que tornaram Rute uma benção - mas a graça de Deus em fazer uma moabita uma crente devotada.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

SÉRIE PERSONAGENS - NOEMI, DE DITOSA A AMARGURADA

DE DITOSA A AMARGURADA
A linda história de Rute traz embutida a história de Noemi e sua família, Elimeleque (cujo nome significa Deus é meu rei), Malom e Quiliom (ambos os nomes são cananeus, significando, respectivamente, fraqueza, doença e definhamento, tristeza porque provavelmente nasceram no tempo de provação, de fome em Belém). Esta história está ambientada num período nebuloso e turbulento da história do povo de Deus. O período dos juízes, cuja principal característica era que cada um fazia o que bem lhe parecia (Jz 21:25 - Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto). É, também, um período de julgamento sobre este povo que costumeiramente se desviava do caminho do Senhor (Jz 3:7 - Os filhos de Israel fizeram o que era mau perante o SENHOR e se esqueceram do SENHOR, seu Deus; e renderam culto aos baalins e ao poste-ídolo).
Os dias de Noemi eram do tipo “piores tempos”. Tratava-se de uma época terrível na qual perdurava a anarquia e as constantes guerras.
Desta forma, o período relatado no inicio do livro de Rute reflete um período de julgamento, de disciplina de Deus sobre Israel (veja Lv 26.14-39; vd. 26.20 - Debalde se gastará a vossa força; a vossa terra não dará a sua messe, e as árvores da terra não darão o seu fruto).
É no intuito de fugir ao julgamento do Senhor que Elimeleque  conduz sua família para longe  de Belém, da terra que o Senhor lhes deu - e vão em direção à terra de Moabe que desde o princípio os queria amaldiçoados (Nm 22.5-6 - Enviou ele mensageiros a Balaão, filho de Beor, a Petor, que está junto ao rio Eufrates, na terra dos filhos do seu povo, a chamá-lo, dizendo: Eis que um povo saiu do Egito, cobre a face da terra e está morando defronte de mim. Vem, pois, agora, rogo-te, amaldiçoa-me este povo, pois é mais poderoso do que eu; para ver se o poderei ferir e lançar fora da terra, porque sei que a quem tu abençoares será abençoado, e a quem tu amaldiçoares será amaldiçoado), rejeitados por Deus (Nm 25.1-3 - Habitando Israel em Sitim, começou o povo a prostituir-se com as filhas dos moabitas. Estas convidaram o povo aos sacrifícios dos seus deuses; e o povo comeu e inclinou-se aos deuses delas. Juntando-se Israel a Baal-Peor, a ira do SENHOR se acendeu contra Israel) oprimidos e destruídos (Jz 3:12 - Tornaram, então, os filhos de Israel a fazer o que era mau perante o SENHOR; mas o SENHOR deu poder a Eglom, rei dos moabitas, contra Israel, porquanto fizeram o que era mau perante o SENHOR).
Assim, a história de Noemi não é a história de uma busca por melhores condições de vida, mas a tentativa de ficar fora do alcance do braço do Senhor (Sl 139:7 - Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face?).
Noemi era apenas uma esposa, uma mulher israelita que acompanhou seu marido e viveu num período em que seu povo não andava nos caminhos do Senhor, a ponto de Elimeleque não ver problema algum em morar entre os moabitas e tomar esposas para seus filhos de entre aquele povo idólatra (Ed 9:12 - Por isso, não dareis as vossas filhas a seus filhos, e suas filhas não tomareis para os vossos filhos, e jamais procurareis a paz e o bem desses povos; para que sejais fortes, e comais o melhor da terra, e a deixeis por herança a vossos filhos, para sempre).
EM BUSCA DO QUE NÃO DEVERIA SER BUSCADO
O mesmo texto que registra a promessa de Deus de lançar sobre o seu povo a sua ira em caso de desobediência diz-lhes o que eles deveriam buscar - e não era uma nova terra.
40 Mas, se confessarem a sua iniqüidade e a iniqüidade de seus pais, na infidelidade que cometeram contra mim, como também confessarem que andaram contrariamente para comigo, 41 pelo que também fui contrário a eles e os fiz entrar na terra dos seus inimigos; se o seu coração incircunciso se humilhar, e tomarem eles por bem o castigo da sua iniqüidade, 42 então, me lembrarei da minha aliança com Jacó, e também da minha aliança com Isaque, e também da minha aliança com Abraão, e da terra me lembrarei.
Lv 26:40-42
Eles precisavam era de arrependimento, de confissão de pecados, de buscar a Deus e não aos moabitas. Durante os dias de fome, previstas por Deus ao estabelecer o pacto com Israel, aceitas por Israel ao entrarem na terra prometida mesmo depois de serem advertidos por Josué (Js 24.19-21 - Então, Josué disse ao povo: Não podereis servir ao SENHOR, porquanto é Deus santo, Deus zeloso, que não perdoará a vossa transgressão nem os vossos pecados. Se deixardes o SENHOR e servirdes a deuses estranhos, então, se voltará, e vos fará mal, e vos consumirá, depois de vos ter feito bem. Então, disse o povo a Josué: Não; antes, serviremos ao SENHOR).
Elimeleque cometeu o erro de tentar fugir à disciplina de Deus que, como pai amoroso, busca trazer os seus de volta não apenas à obediência mas à santidade (Hb 12:10-11 - Pois eles nos corrigiam por pouco tempo, segundo melhor lhes parecia; Deus, porém, nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade. Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça). Israel havia pecado e precisava ser disciplinado - e Deus é fiel, mesmo quando somos infiéis (II Tm 2:13 - ...se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo), em todas as suas promessas (Lc 1:37 - Porque para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas).
Quais os erros de Elimeleque que Noemi testemunhou a ponto de, tendo saído de Israel fazendo jus ao nome que tinha (Noemi, que significa ditosa, feliz, agradável) e, ao retornar, pedir para ser chamada de Mara, que significa amargor?
I. FIZERAM ALIANÇA COM OS MOABITAS
Abstém-te de fazer aliança com os moradores da terra para onde vais, para que te não sejam por cilada.
Ex 34.12
O livro de Êxodo trás instruções claras sobre a atitude de um hebreu para com os povos da terra - especialmente os moabitas que intentaram amaldiçoá-los e, orientados por Balaão, sabiam quais seriam os seus pontos fracos. Eles não deveriam ser combatidos pela guerra, mas minados em tempos de paz com alianças.
Eles não conseguiriam morar, plantar, colher, negociar em terras moabitas se não fizessem algum tipo de aliança ou acordo com os moabitas - e é bom lembrar que as alianças antigas eram feitas na forma de pacto religioso, através de uma oferenda, do sacrifício de um animal ou de uma pessoa. Talvez como Ló em Sodoma tenham se apresentado como imigrantes de paz, desejosos apenas de ter uma nova pátria já que a sua não lhes permitia sobreviver.
II. NÃO SE OPUSERAM AO CULTO IDÓLATRA MOABITA
Mas derribareis os seus altares, quebrareis as suas colunas e cortareis os seus postes-ídolos (porque não adorarás outro deus; pois o nome do SENHOR é Zeloso; sim, Deus zeloso é ele); para que não faças aliança com os moradores da terra; não suceda que, em se prostituindo eles com os deuses e lhes sacrificando, alguém te convide, e comas dos seus sacrifícios.
Ex 34.13-15
Era impossível aos imigrantes hebreus se colocarem como opositores aos cultos idólatras moabitas. Se eles estavam aceitando o culto aos baalins em suas terras, edificando altares no meio de suas cidades, então, como se opor à prática dos mesmos nas terras dos moabitas? Como anunciar a fé no Deus vivo, verdadeiro, que odeia a idolatria habitando de favor entre eles? Como denunciar Quemos, Moloch, Ishtar ou os baalins de cada cidade como inúteis, vãos e perniciosos e demoníacos se ele já havia aceito sacrificar aos mesmos?
 É o mesmo dilema que enfrenta o cristão que está de tal forma identificado com o estilo de vida que o cerca, com as mesmas práticas. Elimeleque fora aceito entre os moabitas porque aceitara algumas de suas práticas. Havia se tornado um como eles, embora não pudesse se tornar um deles.
III. APARENTARAM-SE COM OS MOABITAS
...e tomes mulheres das suas filhas para os teus filhos, e suas filhas, prostituindo-se com seus deuses, façam que também os teus filhos se prostituam com seus deuses.
Ex 34.16
Anos à frente Salomão faria uso da prática de casar-se com as filhas dos reis e príncipes das redondezas e estabelecer com eles alianças familiares, econômicas e militares. Mas esta prática foi adotada pelos filhos de Noemi, que casaram-se com duas moabitas, Orfa e Rute. Não pretendo traçar aqui o perfil de nenhuma delas, apenas lembrar que eram moabitas, politeístas, adoradoras de ídolos pagãos e, para que seus pais as entregassem por esposas, eles tiveram que se prostituir com os deuses das famílias delas, o que provavelmente seria ensinado aos seus filhos se eles tivessem nascido, como aconteceu mais tarde, entre os judeus no período pós-exílico.
Dez anos depois, sem que gerassem filhos, Malom e Quiliom falecem e Noemi, que já havia perdido o esposo, agora tem que defrontar-se com a viuvez e a terrível escolha de ser uma viúva entre os pagãos ou entre seu próprio povo, descobrindo que é melhor sofrer nas mãos de Deus, dentro do plano de Deus do que entregue a sofrimentos de qualquer outra natureza (I Cr 21:13 - Então, disse Davi a Gade: Estou em grande angústia; caia eu, pois, nas mãos do SENHOR, porque são muitíssimas as suas misericórdias, mas nas mãos dos homens não caia eu).
O DIFÍCIL RETORNO
Aquela que saíra de Israel, da terra que Deus dera a seus pais, da cidade de Belém (casa de pão) em busca de alimento e prosperidade no meio pagão agora vê-se obrigada a retornar com duas jovens moabitas, atestando a completa derrocada que lhe sucedera. Como sustentar estas jovens, tanto econômica quanto socialmente numa terra que já olharia para ela com algum grau de desdém? Se seus filhos fossem vivos, se houvesse netos, eles poderiam tomar posse das terras da família, mas uma mulher não poderia fazer isso. Assim, para facilitar a sua vida e a das moabitas ela se despede das noras, sendo surpreendida por Rute que havia, de alguma forma e pela graça de Deus, compreendido que o Deus de Israel era verdadeiro Deus (Rt 1:16 - Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus).
Ao ser reconhecida, mesmo depois de 10 anos e muito sofrimento, que envelhece muito mais, provavelmente com cerca de 50 anos,  as mulheres se perguntavam num misto de piedade e curiosidade se ela era mesmo aquela que as deixara (Rt 1:19 - Então, ambas se foram, até que chegaram a Belém; sucedeu que, ao chegarem ali, toda a cidade se comoveu por causa delas, e as mulheres diziam: Não é esta Noemi?).
Noemi responde com gravidade, com a consciência de ter ido buscar pão longe da casa de pão, de ter ido buscar água em cisternas rotas (Jr 2:13 - Porque dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas) e uma preciosa lição de vida para os hebreus - na terra de Deus, mesmo com dificuldades, ela tinha tudo o que uma mulher podia querer, mas, por causa da desobediência e das escolhas erradas de seu esposo ela foi amargurada e empobrecida - sem terra, sem marido, sem filhos, sem herança (Rt 1:20-21 - Porém ela lhes dizia: Não me chameis Noemi; chamai-me Mara, porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso. Ditosa eu parti, porém o SENHOR me fez voltar pobre; por que, pois, me chamareis Noemi, visto que o SENHOR se manifestou contra mim e o Todo-Poderoso me tem afligido?).

Ela percebeu e ensinou ao povo que seu sofrimento era obra de Deus, pois ela, seu marido e filhos, bem como o povo de Israel, haviam abandonado ao Senhor seu Deus e, por isso, deveriam esperar que ele os disciplinasse com justiça. Assim como um dia Ló aprendeu ao sair da companhia de Abraão com muito rebanho e ficar apenas com duas filhas ímpias, também Noemi nos instrui a não buscar satisfação nas campinas de  Moabe, pois as concupiscência do mundo passam (I Tm 6:9 - Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição).

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