sábado, 28 de janeiro de 2017

A IGREJA E O PROBLEMA DA INTEGRAÇÃO DE NOVOS MEMBROS. PAULO, UM ESTUDO DE CASO

A IGREJA E O PROBLEMA DA INTEGRAÇÃO DE NOVOS MEMBROS

A internet é pródiga em debates infrutíferos e, às vezes, tão ferinos que ao invés de promover a comunhão entre os crentes leva a uma disputa ferina sobre quem Abordar sobre a convivência cristã e a importância de servirmos de suporte para os fracos e os novos na fé. Calvinistas e arminianos, congregacionais e episcopais, presbiterianos e batistas, presbiterianos e presbiterianos, crentes e crentes (?!!!) que parecem passar mais tempo num octógono, ou num coliseu do que numa Igreja.
Não sei como a maioria é no dia-a-dia de sua fé, não sei como se comportam na Igreja, se são tão comprometidos com a vida da Igreja, comprometidos com o “ser Igreja” como são ferozes na defesa de pontos doutrinários, geralmente pontos doutrinários específicos. Gostaria de ver o comportamento nas reuniões de oração, nos cultos doutrinários, a freqüência na Escola da Bíblia...
Gostaria de saber se são tão interessados em fazer discípulos quanto parecem em conseguir seguidores, curtidas e comentários em suas postagens. Como se comportam quando chega a hora de receber um visitante – será que é com a mesma alegria com que se recebe um pedido de adição de amizade?
Esqueçamos as redes sociais – este problema não é tão novo assim. No Novo Testamento encontramos o problema dos relacionamentos na Igreja de Roma que precisou da intervenção do apóstolo Paulo para evitar uma verdadeira guerra de crentes em que uns se consideravam “fortes” e apelidavam os que não comungavam de suas ideias de “fracos”. Paulo também tem que intervir para amenizar os problemas na Igreja de Corinto que contava não com dois, mas com pelo menos quatro partidos espirituais: Clube de Debates Paulinos, Sociedade Acusadora Apolônia, Centro Divisionista Petrino e Primeiro Comando Cristão.
O próprio Paulo encontrou dificuldade para ser recebido na Igreja quando se converteu. Primeiro Ananias, depois os crentes em Damasco – todos desconfiaram do novo convertido (At 9.21).
É sobre esta dificuldade encontrada pelo apóstolo Paulo que vamos meditar nesta ocasião. O texto é longo, e a história bastante conhecida, então, vamos estudá-lo e analisar as dificuldades encontradas pelo novo convertido em sua busca por integração nas Igrejas, uma dificuldade que ele não sabe existir e que a propaganda da Igreja às vezes engana quando chama as pessoas para fazerem parte da família da fé, experimentarem o amor e a comunhão entre os cristãos.

O CONVERTIDO PODE SE SENTIR SOZINHO E DESORIENTADO (At 9.1-9)

A Igreja primitiva era uma Igreja com uma grande atividade evangelizadora. Ela anunciava ousadamente a Cristo. Ela estava indo por Jerusalém, pela Judéia, Samaria e já estava atingindo os gentios de uma maneira ainda incipiente. Aquela Igreja entendia que a evangelização é de suma importância e não deve ser negligenciada. Mas e depois? O que faziam com os novos convertidos? Ela os integrava, havia comunhão, mas em um determinado momento houve dificuldade para a integração de um novo convertido. Hoje não é diferente, os novos convertidos enfrentam uma série de dificuldades para se integrarem e permanecerem em sua caminhada cristã, desde a conversão, passando pelo batismo e membresia na Igreja local.
A conversão é um evento absolutamente individual e isola o novo convertido em um mundo completamente desconhecido para ele. Não é mais deste mundo, não vê mais as coisas como via anteriormente, todavia, ainda não consegue ver o novo mundo do qual vai passar a fazer parte. É como um filhotinho de cachorro, por exemplo, que já não está mais no ventre materno, já está no mundo mas não enxerga nada, não tem percepção das cores, das luzes, das coisas boas e tampouco dos perigos que o cercam. Paulo viu o que ninguém mais via – e Paulo deixou de ver o que todo mundo via. Não quero alegorizar o texto, mas, sem sombra de dúvidas, Paulo morria para o velho mundo e se tornava cidadão de um novo reino. Ele mesmo vai falar sobre isso quando diz que tudo passou a ser considerado como empecilho (Hb 12:1) e perda porque considerava ser encontrado em Cristo como a coisa mais importante de sua nova vida (Fp 3:8).
Mas seus companheiros, aqueles que iniciaram aquela jornada com ele continuavam no velho mundo, cegos às coisas divinas, embora pudessem ver tudo o que os cercava. Seus companheiros sequer compreendiam as suas novas necessidades, e não podiam ajudá-lo a ponto de Paulo ficar sem comer e sem beber por três dias, atônito. Paulo sequer sabia qual era a sua real necessidade, ainda não havia aprendido sobre o genuíno leite espiritual (I Pe 2:2) que sacia e dá crescimento.

O CONVERTIDO PODE TER QUE ENFRENTAR DESCONFIANÇA (At 9.10-18)

Não deveria ser assim, mas é possível que a Igreja olhe com alguma desconfiança para aqueles que se aproximam e dizem que foram convertidos, que querem se integrar à Igreja. Às vezes numerosas barreiras são colocadas para testar o novo convertido – e estas barreiras podem, também, dar a impressão de que ele não é bem-vindo, e, não se integrando ali, vai procurar outro lugar onde seja melhor recebido.
A Igreja, representada aqui por Ananias, teve dificuldade para entender o propósito de Deus de integrar o novo convertido à comunhão dos santos. Mesmo Deus mandando (desobediência não é coisa nova) Ananias ainda tenta argumentar com Deus, duvidando que Paulo realmente houvesse sido convertido. Ananias, sem querer, se apresenta como um obstáculo à integração de Paulo. É bem possível que na Igreja haja muitos que agem da mesma maneira, com receios diferentes mas temerosos de que o novo convertido, ou os novos convertidos, venham, de alguma maneira, ameaçar a paz, o status quo da Igreja, construído ao longo de anos, onde cada um sabe o seu lugar e o seu papel, afinal, eles, os novos, os diferentes, estão vindo do mundo (e quem não vem do mundo?).
Talvez a Igreja leve em conta não apenas os receios pessoais, mas também a “fama” do novo convertido, do visitante, do perdido ou do amigo que se aproxima da Igreja em busca do que não consegue encontrar no mundo. Ananias lembra que “de muitos tem ouvido” sobre o temível fariseu que, de maneira inédita pois os fariseus não se davam com os sacerdotes saduceus, tinha autorização dos sacerdotes para prender, arrastar e até matar cristãos. É incrível que Deus tenha que insistir para que seus servos lhe obedeçam. A Igreja precisa de seminários, conferências, simpósios simplesmente para ouvir o que já foi dito: evangelize, discipule).
Todo mundo que chega na Igreja tem algo a lembrar, que gostaria de esquecer, ou que gostaria que todo mundo esquecesse, de sua vida “sem Deus no mundo” (Ef 2.12). Não é a Igreja que deve fazer o papel de lhe lembrar a prática das obras infrutíferas das trevas (Tt 3:3) – o diabo já faz isso sem precisar da ajuda da Igreja (Ap 12:10).

O CONVERTIDO PODE TER DIFICULDADE PARA ENCONTRAR SEU LUGAR (At 9.19-26)

A vida do novo convertido geralmente passa por algumas transformações imediatas. A primeira coisa que acontece é a de inadequação ao seu velho ambiente. Até mesmo em família esta sensação se faz presente. Mesmo sendo a família, nosso sangue, pessoas com quem convivemos a vida toda e com as quais estamos acostumados algumas de suas atitudes, palavras e gostos começam a soar e a parecer diferentes. Sem perceber começa a cumprir na sua vida as palavras de Jesus (Gl 1.4).
Saulo era um judeu que nasceu em Társis, um porto fenício, localizado na Espanha e de costumes romanos. Teve formação educacional clássica e ao mesmo tempo profunda instrução religiosa. Foi para Jerusalém provavelmente para viver mais intensamente a sua fé pela proximidade do templo e, com grande zelo e sem o verdadeiro conhecimento, como ele mesmo atesta (Rm 10:2) se colocou como inimigo da nova doutrina que se espalhava como fogo em capim seco (Fp 3:6).
Agora Paulo se via em Damasco, para onde tinha ido com um propósito – propósito frustrado e errado, como ele agora sabia. Não podia voltar ainda para Jerusalém, era visto com alguma desconfiança pela igreja, seus amigos não viram o que ele havia visto. Só lhe restava olhar para o autor e consumador da sua fé (Hb 12:2) e anunciar o que ele agora sabia ser verdade: Jesus era, de fato, o Filho de Deus, e este testemunho deve ser prestado em todo o tempo (I Tm 2.5-7) – e não só contava com a desconfiança da Igreja como também com a inimizade dos seus antigos parceiros de perseguição a Cristo e sua Igreja (At 26:14-15). Literalmente, Paulo se encontrava entre a cruz e a espada. E acabaria ficando com os dois.

O CONVERTIDO PODE NÃO SABER QUE PRECISA DE UM MENTOR (At 9.26-30)

Por fim, Paulo finalmente “é dirigido” para Jerusalém. Não sabemos se ele considerava oportuno ir para lá (afinal, lá estavam os chefes da perseguição à Igreja) ou necessário (pois ali se encontravam os apóstolos, que ainda não haviam sido dispersos). Paulo tentou em Damasco, encontrou dificuldades. Foi para Jerusalém, e ali também enfrentou algumas dificuldades para se integrar na Igreja. É curioso que seu testemunho era crido mais poderosamente entre os incrédulos do que dentro da própria Igreja. Faltava algo que ele não considerava, que ele não sabia ser necessário e que nenhum novo convertido sabe: ele precisava de um facilitador, de um guia, de um discipulador que cumprisse o mandato de Jesus de fazer discípulos. Evidentemente quanto a conhecimento das Escrituras Paulo não precisava de mestre, mas precisava conhecer sobre Jesus e sobre sua Igreja. Sobre Jesus o próprio Senhor providenciou (Gl 1:11).
Um homem cheio do Espírito, profundamente dedicado ao Senhor assumiu para si o trabalho e o risco de ser o discipulador de Paulo: Barnabé, natural de Chipre. Já falei que gosto da expressão “mas”, em grego “ala”, que pode ser entendida por “para que as coisas sejam mudadas e tenham um resultado diferente daquele a que se destinavam”. Mas... mas Barnabé percebeu a necessidade de Paulo, e resolveu tomá-lo consigo, fez-se seu mentor e levou-o aos apóstolos (Gl 2:9) e correr o risco de ser morto junto com Paulo ao andar com ele por toda a Jerusalém.
Cumprida a etapa de ser reconhecido como discípulo, não havia mais necessidade de correr riscos em Jerusalém, por isso Paulo vai para Cesaréia, cidade mais romana que judaica, e, em seguida, para sua cidade natal, Társis, de onde desaparecerá por um periodo da história da Igreja para “receber seu evangelho diretamente do Senhor Jesus” e ressurgir mais de uma década depois tendo sido comissionado como apóstolo pelo próprio Senhor (Gl 1:1) e enviado aos gentios (Gl 1:17).
Nisto tudo o papel de Barnabé, integrando Paulo à Igreja, foi fundamental, e ao longo de suas muitas cartas Paulo vai insistir num ponto: há uma só Igreja, uma só fé, um só batismo, um só Espírito – é inadmissível que, num mesmo prédio, às vezes, se reúna mais de uma Igreja, como acontecia em Corinto e podia estar começando a acontecer em Éfeso (Ef 4.4-6).

CONCLUSÃO (At 9.31)

Como vemos, a integração de um novo convertido, de um amigo ou visitante ao convívio da Igreja nem sempre é tranquilo. Não é fácil se sentir em casa em uma casa estranha. Buscamos evangelistas e às vezes nos esquecemos que também precisamos de pessoas que apoiem os novos crentes em sua nem sempre fácil integração na Igreja. Muitos encontram alguma forma de hostilidade, preconceito e até indiferença. Muitos encontram “grupos fechados” que foram se consolidando por anos de convivência e se sentem “peixe fora do aquário” na Igreja. Precisamos de mais Barnabés na Igreja.
Vamos lembrar rapidamente a trajetória de Paulo em seu processo de integração na sua nova família. Primeiro Paulo ficou sozinho e desorientado logo após seu encontro com Jesus no caminho de Damasco; depois teve que enfrentar desconfiança quanto a sua conversão nos seus dias mais difíceis; em seguida teve dificuldade para encontrar seu lugar, já que não pertencia mais ao mundo e a Igreja ainda não estava confortável com sua presença e finalmente precisou de um mentor e guia que o acompanhasse e o integrasse à Igreja.
Precisamos na Igreja de pessoas que, como Barnabé, se disponham a dar o apoio aos novos convertidos, a receberem os visitantes e fazerem-nos se sentirem à vontade em nosso meio desde o primeiro momento, na Igreja, mas também depois, através de telefonemas, e-mails, visitas, literatura e discipulado ensinando o que significa de fato ser crente.
Este trabalho de integração só estará concluído quando o novo membro estiver pronto para se tornar um integrador, um instrumento para evangelização, recepção, discipulado e envio, dando prosseguimento à grande tarefa inacabada: ir por todo o mundo, fazendo discípulos de todas as nações, ensinando-as a guardar todas as coisas que o Senhor Jesus ordenou.

Possivelmente já estejamos tão integrados à vida da Igreja que não percebemos onde as falhas estão acontecendo, se elas estão acontecendo, ou onde nós estamos falhando, se é que estamos falhando nesta área. A característica da Igreja descrita por Lucas era de uma Igreja evangelizadora, discipuladora que vivia de tal forma a comunhão que impressionava o mundo ao seu redor – e atraía pessoas que queriam saber o porquê daquelas coisas, e dia a dia o Senhor ia acrescentando os que iam sendo salvos.

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