sexta-feira, 5 de abril de 2013

A IGREJA “QUE EU GOSTO” PODE NÃO SER A IGREJA DE CRISTO

arrancarraizesUma série de episódios vivenciados ao longo destes anos, em diversas igrejas, algumas pastoreadas por mim, outras nas quais eu estive como visitante, além de diversos comentários de colegas, também pastores, a respeito do assunto, me levaram a desejar escrever este artigo. Minha pretensão é que seja simples e, tenho certeza, é bem mais provável que acenda questionamentos do que forneça respostas. Repito, não é meu propósito fechar esta questão, pelo contrário. Às vezes, nossas certezas todas precisam ser derrubadas, para que possamos aprender a fazer as perguntas certas.

A questão que pretendo levantar é, colocada de uma forma contemporânea, se de fato a igreja que eu gosto é mesmo a igreja que Cristo gosta. Colocando em termos mais confessionais, qual deve ser o padrão para eu julgar se uma igreja [especialmente a minha, que eu gosto] está certa naquilo que pensa, fala e faz?

A Igreja Presbiteriana do Brasil nos oferece alguns caminhos para este julgamento, aos quais chamamos padrões de fé. São eles: a confissão de fé e catecismos maior e breve, documentos já seculares com a exposição da doutrina cristã reformada consideradas pelos presbiterianos uma adequada exposição das doutrinas bíblicas e a regra de fé, a bíblia sagrada, de onde emanam todos os ensinos e sob a qual todas as discussões devem ser resolvidas.

Entretanto, tenho observado – e vou me ater ao “meu quintal”, isto é, às igrejas por mim conhecidas. Me parece ser um mal relativamente generalizado no seio da Igreja Presbiteriana do Brasil [espero que o estado ainda não seja septicêmico] é que o padrão de julgamento tem sido mudado ao sabor das circunstâncias. Não que isto seja novidade, como podemos constatar na história de Uzá, homem cheio de boas intenções mas que acabou morrendo por que Davi não seguiu os preceitos de Deus para o transporte da arca da aliança, levando-a em um novíssimo carro de boi [II Sm 6.1-7] ao invés dos “desconfortáveis” ombros dos levitas [I Cr 15.15].

Em estudos bíblicos, reuniões cúlticas ou administrativas, tenho percebido que para o “povo que se chama” pelo nome de Deus é o costume [ou a novidade, dependendo da conveniência] que vai determinar os procedimentos a serem adotados. Em determinado momento a tradição é de suma importância [“sempre fizemos assim”], mas, em outros, a proposta é “fazer algo novo” [porque todos estão fazendo]. Algumas vezes a Palavra de Deus é mencionada, por pretexto, brandida como uma espada não do espírito, mas absolutamente carnal, não sendo manejada corretamente.

Eu poderia citar diversos exemplos, mas vou preferir evita-los porque quero tratar de um princípio, um conceito, e não de casos. É preferível que seja assim porque casos novos sempre surgirão, e os princípios poderão ser aplicados a todas as áreas relacionais [namoro, noivado, casamento, negócios, lazer, carreira] e cúlticas [doutrina, liturgia, cerimonial] da vida da igreja. Por pensar “por princípios” o sábio Salomão afirma que não há nada novo debaixo do sol [Ec 1.9]. O que Salomão nos ensina é que é tolice querer fazer as coisas de um jeito novo – simplesmente porque alguém já fez, e, na melhor das hipóteses, o novo é a mera junção de coisas velhas.

Tendo aprendido cedo esta verdade, entendo que todo julgamento a ser feito deve ter como base o que diz a Palavra de Deus. E eis um dos problemas, uma das crises [porque há outras] da igreja moderna. Ela desconhece a Palavra de Deus. Antes que alguém se levante e diga ser esta uma acusação muito séria, peço um pouco de paciência e incentivo a dar uma olhada criteriosa ao redor. Mesmo na Igreja Presbiteriana do Brasil, a coisa não é muito diferente. Sei que muitos concordarão comigo, não há conhecimento da bíblia, isto é uma constatação, apesar dela ser lida dia após dia [ou não] por muitos.

Vagarosamente o povo de Deus vai tendo as suas bases solapadas [Os 4.6], num mal que atinge não apenas o povo, mas também a liderança. Muitos evitam confrontar os “tradicionais donos das igrejas” para poderem ter um ministério estável? Estável? Sem a aprovação do Senhor da igreja? Estável? Sendo condenado como os sacerdotes mencionados por Oséias. Isto não é estabilidade, é apenas preparação para uma ruina repentina [Pv 1.24-27].

Em diversas ocasiões, em igrejas diferentes, ao ensinar sobre assuntos diferentes [e também ouvindo estudos ministrados por outros pastores] pude perceber que, quando confrontados com o ensino da eterna Palavra de Deus, membros das igrejas defendiam-se. Observo que se defendiam não de um ataque, mas de um ensino da Palavra, geralmente usando expressões como “eu penso”, “eu acho”, “sempre fizemos”, “é legal”, “nada a ver” ou “isso nunca”, e semelhantes.

Mesmo que a instrução da Palavra fosse clara, inquestionável, ainda assim tentam manter de pé uma cosmovisão sustentada em opiniões e circunstâncias passageiras. Quantas práticas a igreja não está aceitando como naturais – ou tolerando sem questionamentos – porque desprezam o conhecimento da Palavra de Deus?

Para os reformadores, muitos dos quais cultuados como super-heróis, supercrentes, e eram apenas homens, como todos nós, toda discussão deveria ser resolvida apelando para o maior de todos os juízes, Deus, que fala aos homens por intermédio de sua Palavra. Mas é muito comum crentes, que prometeram fidelidade a Deus e obediência à sua Palavra, rejeitarem o ensino da Palavra. Em troca de que? Em troca de si mesmos, em troca do autogoverno. Esta é a grande verdade. O juízo pelo qual o homem pretende julgar todas as coisas não é outro que não ele próprio. O primeiro que fez isso levou a humanidade à total desgraça. E outros que continuaram fazendo causaram dores, como no caso de Davi e a morte de Uzá.

Crente, escuta!!! Crente, se crente é, presta atenção e dá ouvidos à voz de Deus! Infelizmente isto não tem acontecido. Deus continua falando, pois sua palavra é viva e eficaz – e pode dar vida até a mortos, levantando um exército poderoso à partir de um devastado vale de ossos secos. Mas para isso precisa alguém que fale. Os profetas precisam ouvir e transmitir a voz de Deus, como Micaías fez [I Rs 22.14], precisam estar dispostos a falar, não importando o custo, precisam ter a intrepidez do Espírito e não se calarem [At 18.19] para que aqueles que porventura sejam de Deus ouçam e atendam.

A igreja que você gosta pode não ser a igreja que agrada a Deus. A igreja que você gosta pode ser, apenas, a igreja que você enche do que você mais gosta – é o seu depósito de tranqueira, de quinquilharias, de souvenires, por mais bonitos e aparentemente sagrados – mas não é a igreja de Deus. A verdadeira igreja precisa ser lavada no sangue do cordeiro, suas vestes precisam ser puras. Pecadores jamais conseguirão fazer uma igreja que agrade a Deus com aquilo que agrada a sua carne [Rm 7.19]. Uma igreja que existe para agradar a homens carnais será uma igreja carnal – e uma igreja carnal jamais conseguirá andar no Espírito porque a carne milita contra o Espírito [Gl 5.17].

Se um crente pensa que está sendo edificado por Deus ao mesmo tempo em que satisfaz as concupiscências de sua carne [Gl 5.16], está muito enganado [I Tm 6.19], e seu resultado final será ouvir do Senhor – não do seu senhor, mas do Senhor, a quem não conhece verdadeiramente – uma frase dura de reprimenda e condenação: “nunca vos conheci” [Mt 7.23]. Mas para os crentes, mesmo os que laboram em erro, ainda há tempo para perceber que estão lutando contra os aguilhões do Senhor [At 26.14], e ainda podem ouvir o clamor do Senhor para abandonarem o espírito deste mundo [Rm 12.2] e abandonarem a mãe de todas as meretrizes antes que a ira do Senhor se derrame definitivamente sobre ela [Ap 18.4].

O Senhor não criou uma igreja para você se sentir bem. Lugar de sentir-se bem é o sofá de sua casa, é sua cama ou uma rede sob uma sombra na beira de um rio. A igreja foi criada para mudar você, para transformar sua vida e para que você pare de pensar-se como senhor de si mesmo, dobrando seu orgulhoso coração e sua cerviz dura debaixo da Palavra de Deus [II Co 10.5]. A igreja que pretende criar em seu coração é outra, pois a de Cristo já foi criada lá no calvário – e Ele não vai reconhecer outra.

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