segunda-feira, 11 de maio de 2009

AÉTICO OU ANTI-ÉTICO

PIC00007Minha lista de “amigos leitores colaboradores” aumentou. Não que todos gostem de mim – e não que isto também tenha tanta importância assim. Sei que há os que gostam e concordam. Os que gostam e discordam. Os que não gostam e concordam e os que não gostam e não concordam. Mas lêem [rs]. Falo de amigos como o petista, que de vez em quando me traz valiosas idéias [o umbigo de Adão, gripe suína, entre outros]. O mais recente [mas não me vem deste mesmo amigo] me colocou diante do dilema: o petismo, ou mais precisamente, a politicalha é aética ou anti-ética? Primeiro, vamos tentar entender o que estas duas palavras significam [bem como a sua matriz, ética], uma vez que não são a mesma coisa.

Há quem tome a palavra ética como sinônimo de moralidade, uma vez que uma a primeira tem origem na língua grega e a segunda é de raiz latina. Ademais, ambas tratam dos usos, valores e costumes humanos. Entretanto, a moralidade refere-se mais àqueles costumes que são aceitos em uma determinada sociedade e são coercitivamente imputados ao grupo, e a ética individual refere-se à conduta humana e seus padrões de julgamento, seu juízo crítico de valores, levando à tomada de decisões práticas. A ética coletiva parte da pressuposição de que o outro existe e pode ter valores diferentes dos meus. Não se trata de relativismo. Estes valores alheios deve ser vistos como existentes – o que não me obriga a aceitá-los como válidos e verdadeiros, todavia, o outro deve, ainda, ser digno de respeito, desde que sua atitude não seja hostil. A moral vai sempre interferir nas escolhas individuais e coletivas à partir de experiências já consagradas. A ética vai fornecer juízos críticos que também servem para novas situações.

aristotelesO filósofo grego Aristótiles entende que a ética [Ética a Nicômaco] é caracterizada por virtudes: temperança, coragem, prudência, justiça. Aristóteles entendia que a ética é “a arte de viver”, tendo como resultado alcançar o “bem”, ou a “felicidade”. kantJá Immanuel Kant concebe a ética como o cumprimento de um dever: é ético [moral] aquilo que se faz repseitando-se os direitos alheios, derivados de um imperativo categórico – indivíduos devem ser tratados como pessoas, não como meios. Ninguém pode ser usado para benefício alheio. A única virtude realmente ética é a justiça. A doutrina “ética” estuda o comportamento moral, mas não se confunde com a moralidade vigente. Refere-se ao modo de ser, o caráter do homem, como ele se comporta e procede no meio social.

A ética é uma característica inseparável das ações humanas. Tratarei a seguir se há ou não alguém destituído de ética [que os há amorais não resta dúvida]. O homem, à partir do momento em que tem consciência de que interage em uma sociedade que possui valores, passa a avaliar e julgar suas ações para saber não apenas se são boas ou más, mas se são aceitáveis, certas ou erradas, justas ou injustas – bem como os benefícios e prejuízos que pode auferir como resultado de seu procedimento.

Aética é a presunção filosófica de que haja alguém destituído de toda e qualquer regra condicionante para o seu julgamento e a adoção de atitudes subsequentes. É a não adequação a conceitos vigentes em um determinado grupo social [ethos]. Há quem afirme que é possível ter pessoas assim, completamente destituídas de conceitos condicionantes. Mas fazem uma ressalva: são pessoas psicóticas, doentes. Não podem exercer julgamentos morais porque sua mente está incapacitada para isso, devendo, portanto, gozar da proteção da sociedade ao mesmo tempo em que esta mesma sociedade toma algumas precauções quanto a tais pessoas. Para tais somente os loucos [mas não todos os tipos de loucos] são aéticos.

Anti-ética é a constatação de que há atitudes [normalmente ninguém é anti-ético em todas as suas ações] que ferem os costumes e a moral vigente em determinado tempo e lugar. Pode-se afirmar que anti-ético e a contrariedade à norma de conduta aceita pelas pessoas dentro de um pacto social. Pode-se afirmar que ladrões são anti-éticos, mas não amorais. Mesmo entre os ladrões há um certo senso de moralidade. Desta forma, enquanto o aético pode ser, dalguma forma, excluído do julgamento porque destituído, ele próprio, de padrões de julgamento [o que não lhe dá o direito, entretanto, de continuar a portar-se aeticamente no grupo, daí a decisão pelo ostracismo, pelo banimento, pelo afastamento do convívio em prisões ou sanatórios], o anti-ético pode e deve ser julgado e disciplinado ao cometer tais transgressões.

A ética cristã dá um passo além, pois, além de sua adequação [que não é o mesmo que conformismo] à sociedade terrena também precisa colocar em prática princípios espirituais, expressos adequadamente pelo apóstolo Paulo ao escrever aos crentes da Galácia e enumerar o fruto da ação do Espírito Santo sobre a vida dos discípulos de Jesus. Para o cristão, que vive numa realidade inaugurada mas ainda não totalmente instaurada, a presença do reino de Deus não se prende a lugares, épocas ou a ideologias determinadas. Ela apresenta princípios que são supranacionais, atemporais e supraculturais. Embora no mundo, e ao mesmo tempo não sendo cidadão do mundo, vivendo dentro de uma cultura transitória, todavia aspirando à morada eterna, o cristão não pode deixar-se contaminar por dois males do nosso tempo: o relativismo que poderia torná-lo apenas mais um na multidão de sem-mensagem [embora, talvez, cheio de costumes] ou o dicotomismo, isto é, ter conceitos adequados, aprendidos do estudo da Palavra em meio à comunidade cristã, mas uma prática profundamente aética, quebrando regras de boa convivência, normas vigentes na sociedade na qual está inserido. É até mesmo possível que esta transgressão também seja praticada dentro da própria igreja e contra a mesma.

O anti-ético [na igreja os há, mas são cristãos?], em nome de um objetivo particular adota também uma ética seletiva, toda própria, onde tudo é tolerado naqueles que pensam igual, e todos os rigores da lei são aplicados aos que pensam diferente [compaixão para com quem divirja é vista como uma fraqueza]. Virtudes como justiça logo dão lugar a justiçamento [vingança], o amor dá lugar ao legalismo. A verdade logo cede lugar à maledicência, às ameaças e aos ataques gratuitos [e mesmo os merecidos podem ser evitados através do perdão e da conciliação] e muitas vezes covardes, pois feitos sem a ousadia de quem tem a seu lado a verdade, como fez, por exemplo, João Batista diante do comportamento escandaloso de Herodes e Herodias. A temperança dá lugar ao ódio, à indignação e à ira [justificada como “ira santa” em nome da fé – à semelhança das cruzadas, algumas delas contra cristãos]. O que talvez não percebam é que são como cupins no mar: estão corroendo aqulio que lhes sustém sobre as águas revoltas.

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