R.
Na quinta petição, que é: "E perdoa-nos as nossas dividas, assim como nós
também perdoamos aos nossos devedores", pedimos que Deus, por amor de
Cristo, nos perdoe gratuitamente os nossos pecados, o que somos animados a
pedir, porque, pela Sua graça somos habilitados a perdoar de coração ao nosso
próximo.
De
certa maneira somos ensinados que a vida de um cristão não pode ser dividida em
vertical e horizontal, isto é, em cúltica e social. Um exemplo que caracteriza
esta afirmação é em relação ao perdão.
Nosso
relacionamento com Deus implica em consequências no relacionamento com o nosso
próximo, e, por isso, o Senhor resume a lei ao ensinar que devemos amar a Deus
sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos (Mc 12.33).
O
AMOR AO PRÓXIMO COMO FRUTO DO AMOR A DEUS
Somente
amando a Deus será possível exercer o amor ao próximo – somente amando a si
mesmo na medida correta será possível amar ao próximo. Amar-se demais é
egoísmo, egocentrismo, e não sobra espaço para o outro – e quem não ama ao
próximo não pode amar a Deus (I Jo 4:20). Amar-se de menos (Pv 11.17) é
desprezo pela criação de Deus – o que torna impossível o amor efetivo ao
próximo.
O
PERDÃO DEVE SER DADO A QUEM NÃO MERECE
Considerar
uma ofensa paga por alguém que fez algo para compensá-la não é perdão, é
justiça (Rm 4:4). Para ser perdão ele deve ser dado a quem não merece. Nem
mesmo a indignidade do ofensor pode justificar a negativa de perdoar, pelo
mesmo motivo que fomos perdoados na mais absoluta indignidade (Lm 3.22), na
verdade, quando oramos pedindo o perdão dos nossos pecados da mesma maneira que
perdoamos os nossos ofensores devemos lembrar do ensino de Jesus – ele primeiro
nos dá, nos ensina, depois exige obediência.
SEGUINDO
OS PASSOS DO MESTRE TAMBÉM NO PERDÃO
O
OFENDIDO BUSCA O OFENSOR
Da
mesma maneira que o perdão que é obtido de Deus parte de Deus para o pecador,
assim também deve ser a atitude do discípulo do Senhor (Mt 10:25).É Deus quem
toma a iniciativa de salvar o pecador (Jo 3.17), até porque este não pode, não
quer e não vai até Deus (Jo 5:40), até porque está, naturalmente, morto em seus
delitos e pecados e precisa receber vida (Cl 2.13) e, então, com uma nova
inclinação (Fp 2.13), finalmente, vai a ele (Jo 6:44).
Jesus
ensina claramente que é ofendido quem deve buscar o ofensor (Mt 18:15), não
medindo esforços (Mt 18.16) nem impondo limitações (Lc 17:4) ou ressalvas por
mais difícil que isto pareça (Mt 18:22). Perdão não deve ser induzido, cobrado
ou forçado. Deve ser sincero e real. Ninguém perdoa "só porque é
crente", mas o verdadeiro perdão é gracioso e incondicional. O crente não
tem a obrigação de perdoar – ele perdoa porque experimentou o perdão de Deus.
O
OFENSOR NÃO ESTÁ LIVRE DO DEVER DE BUSCAR CONCILIAÇÃO
Por
outro lado, também não é possível pensar que, tendo ofendido alguém, não se
deve buscar a conciliação. Da mesma maneira que o Senhor exige que o busquemos
(Jr 29:13) e, contritos, peçamos perdão (I Jo 1.9) também o pecador deve fazer
isto para com o seu próximo (Mt 5:23-24).
O
PERDÃO ESTÁ LIGADO À VERDADEIRA ADORAÇÃO
Consideramos,
então, que o Senhor deseja que aqueles que se apresentem diante dele sejam
verdadeiros, isto é, íntegros, adoradores (Jo 4:23) cujas mãos não estejam
manchadas de sangue (Is 1.15).
O
PERDÃO RESTABELECE LAÇOS ROMPIDOS
Por
fim, o perdão que damos é, na verdade, o reflexo do perdão já concedido por
Deus, de antemão (Mt 18.18). Isto não quer dizer que tenhamos que "liberar
perdão" para que outra pessoa tenha seus pecados perdoados. Isto é uma
tolice, pois somente um pode perdoar pecados (Mc 2.7) todavia, assim como o
perdão de Deus restabelece nosso relacionamento com ele (Is 59:2) quando
perdoamos um irmão temos a comunhão restabelecida (Mt 18:15) e isto é
extremamente agradável (Sl 133.1).
Não
perdoamos para sermos perdoados ou merecermos o beneplácito divino, perdoamos
porque Deus já nos manifestou o seu perdão (Mt 18:18). Não perdoar significa
manter no coração um pecado (a ira, o rancor, a amargura - Hb 12.15) mesmo que
escondidas sob uma capa de civilidade e comunhão apenas formal.
O
perdão recebido, não tendo sido merecido, também deve gerar no coração do
regenerado o desejo de perdoar, pois a ação do Espírito gera união e o crente
deve preservar esta união (Ef 4:3) que se manifesta na unidade da comunidade (I
Jo 1.3). Assim, na verdade, o perdão é muito mais uma atitude de reconciliação,
uma benção para quem o pede e também perdoa, é o exercício do amor e da
comunhão cristã.
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