quarta-feira, 2 de setembro de 2015

UM POVO COM BÍBLIAS, UM POVO SEM BÍBLIA - POR UMA NOVA REFORMA

A ausência da Bíblia tornou necessária a Reforma

No segundo livro das crônicas, no capítulo 34, versos 1 a 21 encontramos a história de um rei chamado Josias, que começou a reinar com apenas oito anos de idade (v. 1). Josias era filho de um rei que não se importava com as coisas de Deus, e não teve, portanto o exemplo paterno nem a imposição de uma religião nacional para indicar que caminho tomar. Aos 18 anos Josias começou a buscar ao Senhor (v. 3a) e, dois anos depois, iniciou um processo de purificação do país, retirando deles os deuses estranhos a Israel (v. 3b). Por este período havia apenas lembranças de que imagens não eram permitidas e de que maneira era possível tornar um lugar sacrificialmente impuro (v. 5). Somente 18 anos após o inicio do seu reinado Josias finalmente percebeu a necessidade de restaurar a casa do Senhor (v. 8) que fora deixada em ruínas pelos reis anteriores (v. 11). Nos trabalhos de restauração encontrou-se o livro da Lei do Senhor, o pentateuco de Moisés (v. 14) escondido sob o dinheiro do templo. O templo estava tão abandonado que havia se transformado em um mero cofre. Josias, o rei de Israel, não conhecia este livro, e, ao conhecer seu conteúdo, enche-se de temor (v. 19, 21) dando inicio a uma impressionante reforma religiosa.
Esta pequena introdução demonstra a ligação entre o livro da Lei do SENHOR e a pureza religiosa – o povo havia se afastado de Deus porque não conhecia a sua Palavra. É por isso que, em vez de falar da ligação da Bíblia com a Reforma Protestante, vamos falar do motivo que levou à necessidade da Reforma. No tempo de Jesus havia apenas os 39 livros que conhecemos por Antigo Testamento – a eles tanto Jesus quanto os apóstolos se referem como a Palavra de Deus.A eles se juntariam os 27 escritos pelos apóstolos e seus colaboradores, o que conhecemos como Novo Testamento (como sabemos, Jesus não deixou nada escrito).
No início do sec. II a Igreja teve que enfrentar o desafio proposto por Marcion, que rejeitava a autoridade de muitos livros canônicos, buscando estabelecer quais os livros que realmente haviam sido inspirados por Deus, adotando como critérios: a) Autoria ou endosso apostólico; b) Recepção uniforme pela Igreja e c) Harmonia perfeita com o restante das Escrituras. O primeiro a estabelecer o cânon exatamente como o conhecemos foi Atanásio (367 d.C.,), que também recomendava a leitura do Didaché e do Pastor de Hermas, rejeitando os livros atualmente conhecidos como apócrifos.
Com o passar do tempo diversas doutrinas estranhas foram entrando na Igreja, até que em 1129 o Concílio de Tolosa proibiu a leitura das Escrituras pelos leigos, considerando aceitável apenas a existência da versão conhecida como Vulgata, em latim, língua cada vez menos conhecida do povo (e também dos clérigos, muitos deles analfabetos). Ao povo restava o uso de um saltério ou de um breviário, uma espécie de liturgia responsiva. A primeira tradução para uma língua “comum” deu-se através de um inglês da universidade de Oxford, em 1375, e seus discípulos espalharam a bíblia por toda a Inglaterra, mesmo sob dura perseguição. Tendo morrido em paz, a igreja romana o excomungou, exumou seus ossos e os queimou 30 após sua morte durante o julgamento de outro pre-reformador, o boêmio Ian Huss.
A Reforma Protestante tem início, porém, quando o monge alemão Martinho Lutero encontrou a resposta para seus anseios espirituais nas páginas da carta de Paulo aos Romanos, em 1512, percebendo que a salvação lhe pertencia pela fé em Deus (sola fide) em Deus através de Jesus Cristo e não por algo que ele próprio realizasse (sola gratia), passando a expor as Escrituras (sola scriptura). Num embate com Tetzel, enviado por Roma para angariar recursos para construir a basílica de São Pedro em Roma, Lutero afixa na porta do castelo de Wittenberg as suas famosas 95 teses. Por mais pueril que seja o documento, ele serviu de estopim para a Reforma que rapidamente se espalhou pela Alemanha, Suíça, Holanda, incendiando as mentes e corações por toda a Europa. A Igreja romana prontamente iniciou um movimento conhecido como Contra Reforma, mas era um caminho sem volta – a bíblia seria, novamente, do povo, em sua língua materna. Assim começaram a surgir traduções em alemão, francês, novas versões em inglês. A proibição aos romanistas de lerem a bíblia só foi retirada no sec. XX, em 1963.
Da mesma maneira que, no decorrer dos séculos por toda a idade média a Igreja foi abandonando as Escrituras para substituir por costumes e dogmas sem a necessária sustentabilidade bíblica, a ponto de, para restauração da Igreja ser necessária uma impressionante reforma como aconteceu no sec. XVI, entre o final do sec. XX e esta pequena porção do sec. XXI é possível perceber que, apesar de tantas e tão numerosas traduções, versões, interpretações, encapamentos, edições comentadas, comemorativas, talvez não haja muito o que comemorar. Nunca se vendeu tantas cópias das Escrituras – e é possível que uma mesma pessoa tenha algumas dezenas de modelos diferentes, mas, ao mesmo tempo, é provável que estejamos vivendo um tempo do mais profundo desconhecimento das Escrituras. Vivemos tempo em que a autoridade das Escrituras cedeu lugar ao ensino dos pseudo apóstolos, dos profetas de conveniência, dos revelacionistas fraudulentos que nada tem a dizer de Deus e falam muito mais de si mesmos e da vida de terceiros.
Sim, precisamos, em pleno sec. XXI, de uma nova reforma. Não uma reforma das fachadas das Igrejas. Não uma reforma nas capas das bíblias. Mas uma reforma no coração e na mente dos cristãos. Talvez com uma nova reforma o cristianismo se divida mais uma vez. Talvez o numero de cristãos tenha que se recontado. Talvez os proclamados 40.000 de evangélicos no Brasil não sejam tantos milhões assim. Talvez, como nos dias da reforma do sec. XVI, o cristianismo tenha que se ver ameaçado em cantões, como em Zurique e Genebra. Tanto melhor, pois foi de lá que surgiram grandes proclamadores da Palavra. Israel, nos dias de Josias, estava em paz – mas não em paz com Deus. O oriente médio nos dias de Paulo estava em paz até que os transtornadores começassem a dar a palavra aos gentios e esvaziassem os templos. A Europa estava em paz até que Lutero, Zuínglio e Calvino, e outros mais, começassem a brandir as Escrituras.

Talvez tenha chegado o momento de, como eles, a Igreja do Senhor começar a levantar a voz mais uma vez e rejeitar toda impostura, bradando: Basta-nos a fé, chega de shows. Basta-nos a graça de Deus, chega de campanhas e promessas vazias. Basta-nos as Escrituras, mas queremos toda ela – chega de interpretações e visões absurdas. Basta-nos Cristo, não precisamos de pseudoapóstolos nem de milagreiros que só são capazes de realizar milagres em seus quintais. Queremos glorificar apenas a Deus, chega de endeusar homens. Como nas palavras daquele antigo hino: “É tempo, é tempo, o mestre está chamando já”. Reforma, reforma verdadeira, pautada pelas Escrituras. É tempo, povo de Deus.

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